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— Até parece que alguém os obriga a ser homossexuais ou a casar com alguém do mesmo sexo…
— Para que é que está a ver o telejornal e essas notícias? Não tem suficiente propaganda da desgraça todos os dias?
— Com a sua contribuição para o orçamento familiar, nem por isso. É por estas e por outras que estou melhor como doméstica do que como contribuidora para as massas trabalhadoras.
— Doméstica? Se a menina se acha isso, o que havemos chamar à dona Epifânia?
— Epifania? Sim, porque o que ela revela sobre esta casa anda próximo do divino…
— Já que fala no assunto, passe aí mais uma colher de batatinhas com queijo. Essa mulher ainda vai ser a nossa perdição. Não há ginásio que dê conta de tanta caloria saborosa.
— Um bocadinho de músculo e um bocadinho de gordura também é uma combinação interessante. Eu gosto.
— O problema é descobrir aquilo de que a menina não gosta…
— Nem eu mesma sei bem, por isso, não perca demasiado tempo com isso. E o que acha destes protestos em França?
— Não esperava outra coisa de um país que inventou a xenofobia, sinceramente.
— Conheço umas francesas que não são nada disso. Não seja injusta.
— Com elas, nunca. Mas se a menina sentir demasiada simpatia por elas, pode começar a pensar em passar umas noites na casota da Cinderela.
— Por falar nisso, onde é que está essa bola de pêlo e pulgas?
— Também não vejo a travessa das batatinhas com queijo…
— Cinderela, sua manhosa…


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Chega a esta altura e é uma correria para os ginásios, spas, divórcios, confidências de disponibilidade às amigas, planos de férias e festas e outras formas de passear a solidão em trajes frescos e altas expectativas, ao mesmo tempo que se exibe um arzinho nonchalant de quem não se interessa por nada deste mundo.

— Já acabou?
— É a sua vez.

Chega a esta altura e é vê-las desprezar as primas como quem não precisa de primas nem sequer para passear o nariz empinado, e mostrar a uma plateia de olhares aparentemente imperscrutáveis que se está ali porque sim e apenas e absolutamente porque sim, sobretudo se se faz exactamente isso há anos, uns após os outros, como se a chegada do bom tempo fosse o ponto alto do ano e disso dependesse absolutamente a vida de quem as mira…

— Também não está mal.
— Se a menina o diz, quem sou eu para a contrariar?




Com chapéus de senhora na prateleira do armário e tudo. Go Jackie!


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— Trouxe o que lhe pedi?
— Água das pedras? Claro.— Não foi isso!
— Credo… Que foi que eu fiz?
— Não me diga que se esqueceu…
— Ui… É o dia do nosso aniversário?
— Nada disso! A menina é impossível. Trouxe o que lhe pedi?
— Deixe ver: laranjas, água das pedras, pão, endívias, ovos, queijo da serra…
— Deixe ver o saco.
— Nem pensar. Vai espalhar as compras todas e a menina sabe que eu detesto a cozinha desarrumada.
— Mau, Maria…
— Maria? Quem é essa?
— Deixe-se de piadinhas e diga de uma vez se o trouxe.
— O quê?
— O chocolate, claro.
— Por acaso não é claro. É escuro. Não foi o que pediu?
— Foi. Dê-mo, dê-mo!
— Que ansiedade. Até me assusta.
— Passe para cá o raio do chocolate!
— Ah… Assim, não dá!
— Onde é que vai?
— Para minha casa. Era o que me faltava, aturar uma birra por causa do chocolate.
— Vá para onde quiser, mas deixe-me o chocolate.
— Nem pensar. Se é para ser traída pelo cacau, então ele é meu. Traio primeiro!
— Ó, meu Deus!
— Pronto: invoca a divindade por causa do chocolate, coisa que nunca fez por mim.
— Fique sabendo que esse saco não sai desta cozinha.
— Não é boa altura para lhe dar a escolher entre o chocolate e eu, pois não?
— Ainda não percebeu que a sua vida está por um fio?
— Não percebi eu outra coisa…
— Dou-lhe uma última chance…
— Não vale a pena. Comi o chocolate pelo caminho. Pronto, já disse.
— Não acredito…
— Se fosse a si, não punha as mãos a dois quilómetros do fogo, sequer.
— Isso é traição, é insuportável!
— Que dramalhão. Inacreditável…
— É melhor desaparecer da minha vista. Não respondo por mim!
— Ui… Parece-me mais interessante do que as últimas semanas, depois do jantar: televisão, cama, beijo de boa noite e até amanhã.
— Está a pedi-las, está mesmo a pedi-las!
— Pois estou mas, se calhar, nem assim tenho sorte.
— Desapareça!
— Não disse? Lá se vai a sobremesa que escondi no quarto antes de vir para aqui atazaná-la.
— Que sobremesa?
— A de chocolate, aquela de que a menina tanto gosta.
— Se estiver a brincar, desfaço-a!
— estou a contar com isso. Vamos lá, então…

 


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— Trouxe amêndoas?
— De chocolate ou às cores?
— Das duas, espero…
— Pão?
— Escuro, claro, com sementes.
— Laranjas?
— Isso não é para o Natal?
— Não. Eram para mim.
— …


Poema de Sappho
Música e interpretação de Angélique Ionatos
Músicos: Henri Agnel, Bruno Sansalone, Renaud Garcia- Fons, J-F Roger
Realização: Litsa Boudalikas


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Filmes Lésbicos no Blogspot.com

— Vamos ao cinema?
— Hum… Está a apetecer-lhe um filme?
— Não desses. Dos das pipocas e refrigerantes.
— Há algum de primas em cartaz?
— Acho que não. Mas encontramos com certeza uma história de amor.
— Apetecia-me mais um filme de primas.
— Então temos de passar num videoclube.
— Vamos lá. Pergunto eu?
— Não pode ser sempre a menina. Hoje faço a pergunta da prateleira dos filmes lésbicos e a menina desfaz as explicações, pode ser?
— Com certeza. Adoro sessões duplas.


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— Já tenho saudades de me apaixonar…
— Para quê?
— É mais ‘pelo quê’.
— Estou a ouvir…
— É aquela coisa de me sentir bem, viva, mais do que de alguém em concreto.
— Entendo.
— Não se sente assim de vez em quando?
— Claro que sinto. Mas não acho que sejam saudades.
— Então o que é?
— Acho que é, finalmente, conhecimento do que é bom para mim.
— Em oposição a alguma coisa?
— Talvez. À agitação habitual, ao desassossego, aos desencontros.
— De acordo, completamente.
— Acho até que o amor é o contrário disso tudo e que passamos a maior parte da vida nesses enredos de ópera dramática, convencidas de que isso é que é paixão, romance, sentir com todas as forças. No fim, é tudo horrível e desgastante. Um saco de péssimas escolhas.
— Concordo. Chega, felizmente, a altura em que nos dão as saudades do que é bom, suave, tranquilo e, nem por isso, menos intenso.
— Calma, senão ainda me apaixono por si.
— Tinha mal?
— Talvez, se fosse inspirado nessa ideia que me está a transmitir e não em alguma coisa que surja naturalmente.
— Está cheia de senso comum hoje…
— Estou, não estou? O melhor é darmos já cabo disso.
— Como?
— …


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— Tome lá uma prendinha para comemorar o dia da mulher.
— Rendeu-se ao marketing da hipocrisia política?
— Não seja mal agradecida e abra lá a prendinha.
— Cheira bem, mas não me parece um perfume…
— E não parece mesmo.
— Café??
— Pelo menos já não tem desculpa para me oferecer aquela zurrapa instantânea quando cá venho.
— Por pouco não me oferecia uma panela ou uma dúzia de colheres de pau, como aqueles pikenos que oferecem aspiradores e máquinas de lavar às mulheres no dia do aniversário…
— Achei que não era preciso nada de tão romântico. O bem café, pelo contrário, é como um bom perfume e usa-se em boa companhia.
— Não ponha mais na carta…
— Claro que não, desde que não se fale mais no marketing político…
— Não lhe passou pela cabeça trazer-me flores?
— Claro que não. Isto não é um encontro romântico e também me lembrei que a menina tem alergias.
— Mas gosto de flores…
— As flores são como os trens de cozinha: amarram as mulheres a um ideal muito retrógrado da feminilidade.
— Insisto: gosto de flores.
— Não seja desmancha-prazeres e deixe-me ir ferver um bocadinho de água para o nosso café.
— Por que será que a menina só me oferece coisas de que gosta muito?
— Nunca ouviu dizer: não faças aos outros o que não queres que te façam? Não sou capaz de oferecer nada de que não goste.
— Passou-lhe pelo menos pela cabeça que podia ser outra coisa que não o café?
— Como chocolates ou uns bilhetes para o próximo espectáculo da Carminho no Coliseu?
— Por exemplo…
— Pensei nisso, mas achei que era assim a modos como um prazer masculino.
— Como assim?
— Comemos os chocolates todos de uma vez e o espectáculo só dura uma noite. O café ainda vai durar uns bons dias, assim como “aquela coisa” múltipla…
— Sabe o que lhe digo? Devia ter trazido os chocolates, os bilhetes e o café, tudo junto, e assim tínhamos uma orgia de prazeres.
— …
— Não acredito que trouxe mesmo tudo…
— Mulheres, mulheres, mulheres…


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— Há imenso tempo que a menina não escreve aqui nada.
— Não exagere.
— Desde o dia a seguir ao dia das namoradas.
— Não diga…
— Não vai dizer porquê?
— Não.
— Deixa as suas leitoras no escuro e não diz nada?
— Não.
— Nem me vai dizer a mim?
— Não.
— Inacreditável!
— …
— O quê?
— Não disse nada.
— Pois eu acho que devia dizer alguma coisa.
— Acha muito bem.
— E?
— O quê?
— Não vai dizer nada?
— Não. E acho que já disse isso uma série de vezes.
— A menina é impossível…
— Hum… Está a ver aquela miúda ali em cima, na imagem, aos pulos, contente?
— A que acabou de desenhar?
— Essa mesmo.
— Que tem?
— Vá lá ter com ela e brinque um bocadinho, em vez de se estar para aqui a gastar toda em recriminações.
— Manda-me ter com uma bonequinha que rabiscou, invenção sua, em vez de me responder?
— É a minha resposta. Vá brincar, ande. Deixe de ser velha e resmungona e vá brincar, como compete a qualquer pessoa sã nesta vida.

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