Há uma nova página de Sondagens no Tangas, para facilitar a consulta e votação nos temas que aqui vão sendo postados.

E cá fica a do Verão:

Sempre que estou com alguém que sabe, ou que fica a saber que sou lésbica, recebo de imediato um manancial de informações sobre quem também é lésbica ou gay, assumido ou não. Às vezes é uma forma de nos porem à vontade mas, na maior parte dos casos, as pessoas chegam ao pé de mim e debitam uma série de informação não requisitada, com um entusiasmo e uma prontidão que nunca deixam de me surpreender. Fico assim a saber, de fontes muito bem informadas e seguras, completamente heterossexuais, quem é quem nesta vida.

Nos idos tempos do armário, nunca me passou pela cabeça que a melhor e maior quantidade de informação sobre outros homossexuais estivesse justamente nas mãos dos outros, dos heterossexuais. Os mesmos que, em público, fazem sempre de conta que é tudo raro, que não sabiam, que não imaginavam, que não entendem nada sobre essas coisas.

Isto vem a propósito de terem feito questão de me informar, muito recentemente, que um dos políticos emergentes da nossa praça é gay. Digam-me lá: como é que eles sabem sempre primeiro do que nós? Até me dei ao trabalho de rebobinar as minhas memórias e confirmar que, de facto, a maior parte das vezes que me dizem que fulana ou sicrano são assim ou assado, essa dica é-me passada por um hetero. Isto não dispensa, claro, a consulta aos próprios:

- Desculpe, mas bomessê é guei?

- Tem alguma coisa que ver com isso?

- Directamente, não tenho, não senhor. Mas ali o meu primo, que tem um amigo que é, diz que sim, que bomecê é guei e até namorou com o amigo dele.

- Isso é uma calúnia!

- Pois deve ser. Eu também achei. Por isso vim saber se era mesmo guei.

- Não sou, já disse.

- Já ouvi, sim. Mas mesmo assim quis saber, porque, como eu sou guei, podia ser que pudéssemos tomar um copo ou outra coisa que lhe apetecesse.

- Também não bebo, por isso, não tomo copos com ninguém.

- Claro, nem se justifica. Para isso é que a gente pergunta, não é?

- É mesmo.

- Então adeusinho e desculpe qualquer coisinha.

- Ora essa… Amanhã passa um filme da Marylin Monroe no cine-teatro aqui ao lado. Se quiser aparecer…

- Adoro a Marylin! A que horas?

- Às quatro e meia. Encontramo-nos na bilheteira?

- Combinado.

- Até amanhã, então.

Foto: ILGA Portugal

Foto: ILGA Portugal

No fim de semana de 27 de Junho, véspera do dia do Orgulho Gay, rumei a Belém para passar algumas horas no Arraial Pride.
Para quem chegou ainda no final da tarde, a localização em Belém  trouxe um ambiente descontraído, quase campestre. Confesso que foi quando gostei mais do Arraial.
Por outro lado, não pude deixar de sentir que o Arraial deveria ser mais citadino e reivindicar o seu lugar em Lisboa, tal como todas as festas populares de Lisboa que o precedem. Em Belém o Arraial perde o contacto com o resto do mundo, o que tem vantagens (só se deslocou lá quem era gay ou simpatizante), mas cria inevitavelmente uma certa sensação de gueto.
Da minha parte, confesso que as expectativas não eram tão elevadas quanto as criadas pela Marcha. A mensagem que é transmitida pela Marcha é muito forte, pois basta o simples acto de andar e de participar para transmitir a mensagem correcta; a mensagem é tão forte que pode ser silenciosa: basta andar…
Tudo isto leva-me a  concordar que os dois eventos deviam ser no mesmo dia, com a marcha a acabar no Arraial.
Voltando ao Arraial.
Tive pena de não ter visto o Arraialito. Diz quem viu que foi muito giro e divertido.
A maior parte da comida que pude experimentar estava muito boa, o que só comprova a máxima que os gays sabem cozinhar; eu devo ser a excepção…
Nada de muito positivo posso dizer sobre os grupos que vi actuar. Pouco gostei do que ouvi e suspeito que as cargas de água que teimavam em cair sempre que alguém actuava também tiveram a mesma opinião. Foi pena pois sempre que os DJs estavam a pôr música, boa por sinal, gostei muito do ambiente que se criava.
Por volta das duas da manhã viemos embora, claramente em contra corrente.
O Tango Assumido
PS Um amigo meu lá ganhou o prémio anunciado pela Brussels Airlines, de uma viagem para dois a Bruxelas. Não lhes invejo o destino turístico mas é bom saber que começam  a apostar no mercado gay em Portugal.

É importante saber o que acham sobre a cobertura feita pelos média às celebrações do orgulho lgbt. Por isso aqui fica uma sondagem em que podem assinalar várias respostas que vos pareçam mais de acordo com o que pensam. E deixar em comentário as que acham que não foram incluídas.

"Love in the name of Pride" - by deaHpHage

"Love in the name of Pride" - by deaHpHage

Para alegrar as memórias, um trabalho de deaHpHage.

Tradução: Love is a 6 colour feeling ou o amor é um sentimento de seis cores.

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(fotos times.co.uk)

No Ípsilon, do Público, a história de Jan Morris, que já foi homem e vive há 60 anos com Elizabeth:

“Um momento, debaixo do piano

James era pequeno, a mãe estava a tocar piano, e ele, como gostava de fazer, estava sentado debaixo do piano, com as notas a choverem sobre a cabeça. Foi nesse momento que soube: “Tinha três ou talvez quatro anos quando percebi que tinha nascido no corpo errado, e que devia ser uma rapariga. Lembro-me bem desse momento, e essa é a mais antiga memória da minha vida”. Era uma criança feliz, foi “criado com gentileza e sensibilidade”, e não vale a pena procurar nessa infância sinal de trauma ou desajustamento que explique esse pensamento “tão bizarro” que se instalou nele.

Foi um longo, e muitas vezes doloroso, processo que o levou desse momento, debaixo do piano, rodeado pela música que a mãe tocava, até um estranho quarto numa clínica em Casablanca, onde um dia adormeceu homem e no outro acordou mulher. Ou melhor, acordou sem os órgãos genitais, o último passo que faltava para completar, até ao limite do possível, a sua mudança. A transformação começara muito antes da operação em 1972. “Cálculos rápidos indicam que entre 1954 e 1972 engoli pelo menos 12 mil comprimidos e absorvi no meu sistema qualquer coisa como 50 000 miligramas de matéria feminina”, escreve em “Conundrum”.

(…)

Militar e jornalista

Ser transsexual, escreve, “não tem nada a ver com preferências sexuais”. Não é uma questão sexual. “É uma apaixonada, permanente e profunda convicção, que nunca ninguém conseguiu retirar a um verdadeiro transsexual”. É simplesmente uma evidência – mesmo que só para o próprio. “Para mim esta é uma questão que vai muito para além do sexo: não reconheço nela qualquer carácter lascivo, e vejo-a, acima de tudo, como um dilema que não é do corpo nem da cabeça mas do espírito”.

Na infância, quando não confessara a ninguém o que sentia, atravessavam-lhe o espírito dúvidas tão desconcertantes como esta: “Ocorrera-me que talvez a minha condição fosse perfeitamente normal, e que todos os rapazes gostariam de ser raparigas. Parecia-me uma aspiração suficientemente lógica [...]“.

(…)

James/Jan é essencialmente uma pessoa feliz. Apesar da angústia que sentiu durante anos por achar que tinha nascido no corpo errado, aproveitou sempre o melhor possível o muito que a vida lhe deu – e mesmo o que um corpo de homem lhe ofereceu. Aos 17 anos ingressou como voluntário no Exército inglês, foi oficial do 9º Regimento de Lanceiros da Rainha – “paradoxalmente a vida militar sempre me atraiu”, escreve num capítulo de “Conundrum” em que confessa a sua admiração pelas “virtudes militares, a coragem, a força, a lealdade, a auto-disciplina” além de um fascínio especial por tanques.

Mais tarde tornou-se jornalista e percorreu o mundo em reportagem ao serviço da “Arab News Agency” do Cairo, do “The Times” e do “Manchester Guardian”. E se se sentia desconfortável no “Manchester Guardian” porque “era como trabalhar para uma mulher e não para um homem”, o “Times” agradava-lhe precisamente por ser “muito britânico e muito masculino”.

(…)

Jan Morris parece ter, mais do que a maioria das pessoas, uma consciência aguda do sexo de coisas, de acontecimentos, de cidades. É através dessa perspectiva que lê momentos determinantes da sua vida como a expedição do topo do Everest, que acompanhou como jornalista em 1953. “O corpo masculino pode ser pouco generoso e pouco criativo de uma forma mais profunda, mas quando está a funcionar bem é uma coisa maravilhosa de habitar”, escreve a propósito desse momento em que sentiu que nada a podia derrotar. E, no entanto, aquele feito extraordinário deixava-a “insatisfeita, como provavelmente à maioria das mulheres”, porque era uma vitória no vazio – “nada fora descoberto, nada feito, nada melhorado”.

O casamento, os filhos, a operação

Encontrar Elizabeth Tuckiness mudou-lhe a vida. Foi um “encontro de iguais”. A descrição que faz é a de um grande amor e da descoberta de uma alma gémea. Casaram em 1949 e tiveram cinco filhos, três rapazes e duas raparigas. “Ouve-se agora falar no conceito de ‘casamento aberto’ [...] O nosso foi sempre um acordo desse tipo”, e “pela natureza das coisas, o sexo era subsidiário”.

Jan sabia que queria ter filhos e, não podendo ser mãe, assumiu com prazer o papel de pai, mesmo reconhecendo que nunca foi a típica figura paternal. Elizabeth soube sempre o “enigma” da vida do marido, e os filhos souberam, de forma gradual, mais tarde. “Espero ter-lhes dado, se nada mais, pelo menos uma compreensão do amor”, escreve.

(…)

As reacções mudavam conforme o lugar do mundo em que se encontrava. “Os gregos pareciam muito divertidos. Os árabes convidavam-me para passear. Os escoceses pareciam chocados. Os alemães preocupados. Os japoneses não reparavam”.

(…)

E assim James deu lugar a Jan. Só então, sentindo-se completa, percebeu o “quão profundamente tinha ansiado pelos braços e o amor de um homem”. Mas era “demasiado tarde” porque os homens que amara estavam “já casados, ou mortos, ou longe, ou indiferentes”.

(…)

Aliás, tudo correu surpreendentemente bem. Jan acredita que foi assim porque faz parte da categoria dos “transsexuais do tipo clássico”, aqueles para quem o que está em causa não é uma questão sexual, aqueles que “não oferecem nenhum objectivo racional às suas compulsões”, mas limitam-se a ser “guiados, cegamente, e sem alternativa, até à mesa de operações”.

Nunca se arrependeu da decisão que tomou. Aliás, escreve, “se me visse presa nessa gaiola outra vez, nada me afastaria do meu objectivo, por muito assustadoras que fossem as perspectivas, por muito pouca que fosse a esperança, correria a terra em busca de cirurgiões, subornaria barbeiros ou abortadeiras , pegaria numa faca e fá-lo-ia eu própria, sem medo, sem dúvidas, sem pensar duas vezes”.

E aos que a invejam acreditando que tomou em mãos o seu destino, e lhe citam W. E. Heney – “I am the master of my fate,/I am the captain of my soul”, responde que isso é uma ilusão e que se avançou por aí foi porque esse era o único caminho que lhe era possível percorrer.

(…)”

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É o décimo terceiro Arraial Pride organizado pela Ilga-Portugal e, este ano, é nos jardins de Belém, a partir das 16 horas.

Por mais que o mudem de sítio, a intenção é a mesma: proporcionar convívio e contacto, diversão e visibilidade. Levem os vossos amigos, a famíla, os quase desconhecidos.

O mais aterrador sobre este vídeo do exorcismo do ‘demónio gay’ realizado a um puto de 16 anos numa igreja do Connecticut, é pensar que isto é feito por pessoas em que ele confia e de que depende. E que tudo isso foi registado em vídeo com algum propósito.

É abuso de confiança, abuso exercido sobre um menor, que ainda por cima não foi tido nem achado sobre a realização deste vídeo na altura e muito menos o terá sido sobre a sua divulgação.

Quanto ao exorcismo, nem vale a pena comentar, porque isto é simplesmente um atentado contra a integridade física e psicológica individual. E quando o indivíduo tem 16 anos, não deviam estar todos em pé de guerra e a investigar isto?

Também pode dar-se o caso de a igreja ter filmado isto com o propósito de propagandear as suas ’santas’ actividades, sendo que lhe saiu o tiro pela culatra…

Devo dizer que nada disto me convence. Desde que o jornalismo e os médias em geral revelaram toda a sua potencialidade propagandística, cada vez desconfio mais de documentários e revelações afins. É tudo em nome de mais 15 minutos de fama, sem nenhuma consideração pelo que está realmente envolvido nas questões e que já é, de si, difícil de abarcar.

Podem ver aqui alguns vídeos sobre este mesmo assunto.

Cá por coisas, lembrei-me: e se ainda existisse o copcon? Será que nos enfiavam a todas e todos no Campo Pequeno e nos liam manifestos pelos altifalantes e havia um major a assinar guias de marcha para Peniche, depois de passarmos por uma fila onde fôssemos grosseiramente carimbados a tinta vermelha e negra com epípetos dignos de reaças e depois sabe-se lá que mais se passava?

Às vezes o obscurantismo é mesmo uma luz que se apaga, a modos que como um punhado de vidas que se apagam ou coisa assim. Se isto fosse uma novela da vida real, ainda vinha aqui alguém contar-nos uma história mirambolante com deves e haveres de outras épocas em que ainda não se chamava timing político inconveniente ao facto de se lixar alguém não conforme com ‘a norma’ de alguns, sempre poucos, mas sempre senhores de uma verdade única e absoluta.

Foto: António Subtil

Foto: António Subtil

Sábado passado foi dia de marcha. Para muitos, esta foi a primeira vez que participaram, já que a marcha deste ano foi a mais concorrida.
Confesso que foi também o meu caso. Após vários anos de hesitações, lá decidi participar no que se tornou num passeio com alguns amigos que me acompanharam.
Sobre um Sol abrasador, a sombra das árvores do Príncipe Real era bem vinda, tornando a meia hora de espera num momento de convívio e de encontros.
A marcha partiu do Príncipe Real, seguiu pela Rua da Misericórdia e Rua Garrett, tendo acabado no Rossio após passar pela Rua do Carmo. Foi nesta última rua que se passou um dos momentos mais marcantes da marcha: do passadiço do elevador de Santa Justa, voluntários largavam confettis, muitos deles com pequenas frases. Ficámos inundados por um mar de papelinhos.
Para mim, a marcha revelou-se um dos actos mais francos e genuínos de mostrar a todos o que eu sou e o que pretendo da sociedade.
Neste fim de semana temos o Arraial. O importante é participar. Sem medos.
O Tango Assumido