Ser má, dizer coisas horríveis às outras primas, tratá-las a baixo de cadelas — é o que elas fazem para ser cool
Ou seja, ter vergonha de ser boazinha é quase tão importante como ter um iPod ou um iPad, parecer uma personagem estereotipada de BD é, de repente, muito melhor do que ser o que se é.
Gosto de BD, verdade seja dita, que é como gostar de ópera e assistir a histórias em que os heróis são bons quando são bons, maus quando são maus. Raramente a moeda tem duas faces. E os heróis podem ser uns alarves, porque são do bem, mesmo quando se portam como vilões.
É quase uma obrigação: fazer de bom, salvar a Humanidade de grandes perigos e, depois, ir para casa e tratar a namorada como um carroceiro… Ou seja, se é cool, pode ser uma besta. Haja pachorra, sobretudo quando a coisa passa para a realidade e temos primas muito cool que se acham no direito de tratar o resto das primas como menores de tudo, porque sim, porque podem.
Há primas assim, verdadeiras heroínas, acima de todo e qualquer julgamento humano. Não se misturam porque, por divino desígnio, nasceram com uma mão cheia de regalias e clarividências que, obviamente, a comum das mortais não partilha. É uma casta iluminada, que esconde o seu deslumbramento na capa do parece bem.
Onde é que está a virtude, afinal? Nos looks?

Mosquita y Mari Trailer from Augie Robles on Vimeo.

Aurora Guerrero é a autora de Mosquita y Mari, sua obra de estreia que vai estar em no festival de Sundance. É a história complicada de duas adolescentes latinas da comunidade emigrante a sul de Los Angeles, que Aurora tentou financiar com dinheiro local. Mas foram os 82 mil dólares reunidos por 800 apoiantes que lhe permitiram fazer o filme.
Quando ainda estava na escola de cinema, pediram-lhe para escrever sobre alguma coisa que conhecesse. O que lhe ocorreu foi a amizade com uma amiga, aos 13 anos, de onde retirou coragem para se sentir confortável tal como era. Baseou-se nessa experiência pessoal para escrever o guião do filme e retratar uma parte da comunidade chicana marginalizada.

Tirinha Gente Fina, de Bruno Drummond

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As terças-feiras são duras, mas afortunadas. A culpa, claro, é da menina Pagu que vai à aventura por esse mundo fora e deixa este blogue à míngua das suas peculiares participações. A vingança não a poupará, claro, sobretudo se se esquecer de trazer quatro quilinhos de camarão tigre congelado para oferecer às amigas com umas jolitas frescas.
Entretanto, quem quiser juntar-se a nós no chat do tangas para uma conversinha entre o jantar e a ceia, faça o favor de estar à vontade. Aproveitarei para divulgar algumas informações sensíveis sobre primas e outras primas (desta não escapará, menina Pagu).

O princípio de uma semana cheia de coisas para fazer. É sempre bom. Faz-nos sempre pensar que temos uma mão cheia de oportunidades novas e prontas a usar. Até já tenho uma lista, começando por esta noite: experimentar o chat do Tangas numa segunda-feira, dia da lua e das primas :)

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Já não é a primeira criatura de palmo e meio que me aborda desta forma (a culpa é da baby-sitter),; começo a acreditar que há um fado qualquer nesta história. Desta vez foi a adorável filha de mais um amigo, uma menininha de cinco anos, com trancinhas e uma Barbie ao colo:

— Sabes? Quando for grande vou ser como tu.
— Velhinha e cansada?
— Não.
— Hum… Gordinha por causa dos doces que comi na tua idade?
— Também não.
— Assim, sem vontade de brincar com barbies?
— Não.
— Deixa ver… Não digas, que eu adivinho! Chata e sem paciência?
— Não, não…
— Com dores de costas?
— Não.
— A preferir a sopa ao doce?
— Tu comeste doce, mas eu não te vi comer sopa…
— Pois é. Já estou a dizer tudo ao contrário. Deve ser da idade. O que é, então?
— Tu sabes…
— Acho que sim, que sei. E também acho que tu pensas que também sabes .
— Eu sei. Sei muitas coisas.
— Já somos duas. Mas olha: o que tu não sabes é que não precisas de ser como eu, ou como outra pessoa qualquer.
— Não?
— Não. Mas há muita gente crescida que também não sabe. Tu só precisas de ser como és.
— Como?
— Como quiseres ser.
— Posso ser tudo, tudo, tudo?
— Tudinho. Basta achares que podes ser qualquer coisa e, pimba! Podes ser. As pessoas podem sempre ser o que querem. E quando acham que não podem, são muito infelizes.
— Hum… Posso ser má?
— Claro que podes, se não te importares que os outros fujam todos de ti.
— Mas isso não é bom…
— Pois não. Há muita coisa que fazemos que não é nada bom para nós, nem para os outros.
— Está bem. Agora vou brincar.
— Vai lá.

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Escrevo estas linhas, não a bordo do A300 da Ibéria, mas sim na borda do A300.

Tenho para mim que há uma qualquer malícia, para não falar em prermeditada malvadez, de nuestros hermanos, na proporção que equacionam entre a duração das viagens e o conforto do avião. Quanto mais horas demora a aventura aérea, mais pequenos, estreitos e encolhidos são os bichos.

Chamar pequeno a este avião é quase piada. Esperava eu que para uma viagem de dez horas e dez minutos pudesse pelo menos esticar as pernas ou ir buscar qualquer coisa à mochila que levo debaixo do banco da frente, qual o quê. Só o melhor contorcionista do circo Chen conseguiria tal façanha. Ainda bem que tirei o meu livro antes de me entalar neste espaço exíguo senão bem teria que ir a ler a Ibéria Magazine de Enero de 2012, de Madrid até à África do Sul.

Para começar, calhei no lugar 9A, à janela sim senhora, numa fila de dois lugares, só que….sem janela. Nem mais. Deve ser o único sítio do avião em que existe uma parede opaca. Para ver alguma coisa tenho que entalar a cabeça entre o banco e a vizinha de trás, posição essa tão incómoda quanto deselegante. Ainda bem que fui a segunda pessoa a fazer o Check-In e que pedi um bom lugar.

Continuando, tenho ao meu lado uma holandesa de proporções inacreditáveis que felizmente só me dirigiu a fala três vezes: “good evening”, “good morning” e no intervalo destas, “which language are you reading?” esta última pergunta enquanto fazia uma careta terrível ao apontar para O Caderno de Maya (que a minha mana generosamente me ofereceu para a viagem) que eu estava a ler sofregamente, como se a língua de Camões, Eça, Pessoa, estivesse impregnada de lepra. Mas pensando bem, o que esperava eu de uma mulher que além de ocupar o lugar 10A ocupava também metade do 9A e que lê revistas com uma grafia aborígene como por exemplo “staatssecretaris Henkleket is volgens insiders tot over zjin oren verlief op een 32 jaar jogere journaliste Van Handelsblad”.

Mas o que mais me custou foi a guinxaria constante de uma criança com uma birra descomunal, que durante horas e horas berrou como uma hiena histérica. Confesso que quando serviram o jantar olhei com especial enlevo para a faca inox com que golpeava carinhosamente um projecto de lasanha de legumes.

Não sei que lingua falam mas na minha mente passam frases como “mira, puedes dar uns cachacitos a el nino para que cale la matraca?” ou mesmo um menos elegante “sorry, can you kill your son, please?”

Agora são 9:45 da manhã, hora local, o que quer dizer que estamos a 1:35 de Johannesburgo. Lá fora está aquele nubladão que faz adivinhar uma canícula feroz. Aqui dentro destila-se de calor. Ainda bem que vim de tshirt. Quem vem para África, avia-se em Lisboa.

Daqui a pouco devem vir as senhoras do café, passo as tortilhas e tapas e essas coisas mas duas chávenas de café vão fazer maravilhas por mim.

Até já amigas e amigos.

PS. Já cá estou desde 4ª feira. Darei novidades.

Aqui há tempos recebi um email transatlântico, a pedir-me autorização para usar uma imagem do Tangas num postal. O resultado foi:

e ainda:

Não só tive o prazer de ver um boneco Tangas ganhar uma inesperada utilidade, como fiquei a conhecer o Curta o Gênero, que me parece uma iniciativa muito interessante (obrigada, Marjorie). E vou pedir-vos também que a divulguem como merece :)

Se ainda não repararam, na coluna do lado esquerdo, em cima, está o link para um chat do Tangas. Para quem quiser conversar online sobre as tangas do Tangas ;)

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PMA: ”Será legítimo usar o poder repressivo do Estado para veicular preconceitos?”

ILGA Portugal apela à rejeição do projeto do PSD e do projeto apoiado pela Direção do PS e à aprovação dos dois projetos (PS e BE) que respeitam a autonomia das mulheres e a igualdade
Em Portugal, o acesso às técnicas de procriação medicamente assistida (PMA) é proibido – e punido – caso a mulher não esteja casada ou unida de facto com um homem. Estão portanto excluídas do acesso a estas técnicas (incluindo a inseminação artificial) mulheres solteiras ou casais de mulheres.
Discutem-se na próxima 5ª feira no Parlamento quatro projetos de lei sobre técnicas de procriação medicamente assistida (PMA): um do PSD, dois do PS e um do BE.
Em vez de corrigir a atual – e chocante – situação de exclusão, o elemento que é comum a todos os projetos é a introdução da maternidade de substituição.
O projeto do PSD afirma mesmo que “a PMA só se justifica quando tenha por destinatários os membros de um casal heterossexual estavelmente constituído” porque se trata de “um casal que quer ter filhos e normalmente os poderia conceber no seu seio.” O PSD justifica assim a exclusão de casais de pessoas do mesmo sexo por haver “casais normais” que não podem ter filhos e outros casais – que só poderão ser anormais, portanto – que também não podem ter filhos. A discriminação em função da orientação sexual raramente foi tão límpida.
O atual Primeiro-Ministro, Pedro Passos Coelho, manifestou-se publicamente em 2010 a favor da possibilidade de adoção para casais do mesmo sexo. A coerência obrigaria a uma tomada de posição contra este projeto do PSD.
Por sua vez, o projeto apoiado pela Direção do PS apoia e mantém a mesma exclusão, pelo que perfilhará necessariamente e exatamente esta lógica. Ambos os projetos de lei permitem que mulheres solteiras e que lésbicas casadas ou unidas de facto possam emprestar os seus úteros para realizar projetos parentais de outras pessoas – ou seja, os mesmos projetos parentais que lhes são negados. A violência desta exclusão é cada vez mais evidente.
Para além da discriminação em função da orientação sexual, estes projetos de lei reforçam a menorização das mulheres ao não permitirem que mulheres solteiras recorram a estas técnicas. E, mais uma vez, não são coerentes com o facto de existir adoção singular em Portugal. Aliás, a atual lei chega a permitir que uma mulher recorra a técnicas de PMA se o marido ou unido de facto já tiver morrido, mas não se estiver solteira.
Ou seja, a atual lei e os projetos do PSD e do PS (com apoio da Direção) são na realidade a imposição e endosso de uma estrutura familiar única, sem qualquer necessidade de justificação desta posição para além do preconceito. Esta posição significa simultaneamente um juízo de valor sobre todas as famílias que não se enquadram nesta estrutura, que são assim insultadas pelo próprio Estado. Estes projetos são por isso ofensivos e contrários aos princípios da nossa Constituição.
Já o projeto subscrito por deputadas e deputados do grupo parlamentar do Partido Socialista (Pedro Alves, Isabel Moreira, Rui Duarte, Maria Antónia Almeida Santos e Elza Pais) e o projeto do Bloco de Esquerda permitem o acesso às técnicas de PMA a qualquer mulher – e, no caso do projeto do PS, a qualquer pessoa. Mais: ambos os projetos são responsáveis, garantindo o reconhecimento legal das famílias de cada criança que nasça com base nas técnicas de PMA.
Nas palavras de Eurico Reis, atual Presidente do Conselho Nacional para a Procriação Medicamente Assistida, “será legítimo usar o poder repressivo do Estado para veicular preconceitos?”A resposta só pode ser a recusa do projeto do PSD e do projeto apoiado pela Direção do PS e a aprovação dos dois projetos que respeitam a autonomia das mulheres e a igualdade.
A ILGA Portugal estará a assistir à discussão no Parlamento e estará atenta às posições tomadas por cada deputada e cada deputado.
Reiteramos que é tempo de afirmar que o direito à saúde mas também o direito a um projeto familiar, bem como o valor da igualdade, são de todas e todos nós.

A Direção da Associação ILGA Portugal
Lisboa, 17 janeiro 2012

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