Só a só maria se lembraria de me desafiar para uma coisa destas. Descanse, não a deixo ficar mal. E vocês, que aqui espreitam, se quiserem sigam o caminho do desafio e vejam lá com o que a gente se entretém.

E ao desafio em que é que te inspiras para debitares no teu blogue, o que tenho para vos dizer pode não vos interessar rigorosamente nada, mas vou procurar corresponder a alguma expectativa que por aí ande perdida.

A mim sempre me encantaram as histórias. E como nasci em África, habituei-me a ouvir histórias em todo o lado, em muitas línguas, em muitas entoações. Fui educada, portanto, nessa coisa de ouvir e contar as coisas, com consciência de que o que se diz e o que se escuta faz parte de um encantamento geral, a quem ninguém escapa. A minha vida é, portanto, mágica, sempre rodeada de contos e ditos, de situações que só pedem para que a gente lhes dê forma, as molde em palavras. Um blogue é, por isso um prolongamento natural do resto da minha vida.

Lembro-me, por exemplo, de ainda muito catraia, estar sentada no chão da sala a ouvir falar a minha mãe e uma amiga (a minha faz anos hoje – parabéns, ma!). Essa amiga sofria de encantamento pela minha mãe e eu sofria de encantamento por ela, que piava grosso e fumava como uma chaminé e cruzava a perna como eu já sabia que as senhoras não deviam cruzar. Tudo qualidades para mim, que estava no raiar da apreciação das primices e achava tudo aquilo absolutamente divinal. Elas falavam, falavam, falavam e eu não percebia patavina do que elas diziam, nem me interessava, mas estava completamente embalada naquele vozeirar que me transportava para um mundo completamente diferente do meu. Tal é o encanto que exercem em mim as palavras.

O embalo acabou quando a amiga da minha mãe deu por mim e ainda estás aí, perguntou ela no seu tom enrouquecido. E a minha mãe, mas que é que lhe deu, a esta criança, que passa a vida pendurada nas árvores e hoje parece que tem cola. Vá lá para fora menina, vá ter com as suas irmãs. E eu, muito contrariada, lá obedeci.

Estão a ver como é fácil encontrar inspiração para debitar aqui?

Antes de terminar queria contar-vos que o Tangas Lésbicas nasceu precisamente de uma conversa inspirada até às quatro e muitas da manhã, com duas igualmente inspiradas bloguistas da nossa comunidade e uma das minhas ex. Era para ser um blogue a quatro mãos e, quando dei por ela, tinha-o ao colo e tive de o pôr a andar. Não me importei nada, porque o boneco da Tangas é extremamente fácil de manipular.

Porque a Tangas é um boneco, amigas. Representa muita coisa do que sou e do que penso, mas tem vida própria e malícia suficiente para esconder também muito do que sou. Mas é uma excelente contadora de histórias e eu gramo-a à brava por causa disso. Ainda há um bocado estava ali sentada à janela a contar-me as ganas que tem de dizer isto e aquilo a fulana e sicrana, e eu a pôr água na fervura, ó mulher, não me desgraces, lá vens tu a cuspir lava e a atirar pedras pelo ar. Outras vezes é ela que me acalma e diz vamos lá pôr isso num post e arrumar essa coisa fora do coração, que esse guarda-se para as coisas boas, não para rosnar como os cães.

Vêem como é fácil? Não imaginam as coisas que eu ouço e vejo e não me chega o tempo nem muitas tangas para tanto conto e tanto ponto.