Cara Hillary,

Confesso que estou muito preocupada com a sua possível derrota amanhã no Texas. Como portuguesa, mulher, lésbica, europeia, ocidental e todas essas coisas que tendem a ser um sinal de menoridade no mundo de hoje, cheio de economias e poderes emergentes, nacionalismos, totalitarismos e conservadorismos mais acirrados do que nunca.

Porquê tanta preocupação, amiga não-eleitora, perguntar-me-à. Ora, como a Hillary bem sabe, é determinante a influência do resultado das eleições norte-americanas no Velho Continente. E nos outros.

Bem sei que não ganha o candidato republicano, que para conservadores encartados chegou o jovem Bush. Mas também não é preciso, pois não? Que dos males o menor, mais vale então apoiarem o “novo Kennedy”, que ainda por cima é negro (embora os irlandeses lhe tenham descoberto uma incómoda costela das suas ilhas), o que quase iliba a possível discriminação. E nessa delicada matéria, confesso que até eu hesitei. Se em terras ianques elegesse, discriminaria as mulheres votando num negro, ou os negros votando em si?

O problema está, no entanto, ultrapassado. “Minoria” por “minoria”, deu-se a vez à diferença da cor da pele, assim como que a piscar o olho à igualdade entre todos – sendo que um presidente dos Estados Unidos jamais será igual a qualquer outra pessoa, mas isso são outros trezentos. E depois também não nos podemos esquecer que se passa a mão pelo pelo aos radicalistas mundiais, porque apesar de negro é um homem e não pode, como se sabe, abalar tanto como isso as estruturas.

Portanto, Hillary, lá ficámos de novo relegadas “para a próxima”. Para quando as conquistas femininas já tiverem andado mais uns quantos anos a marcar passo e a bater o pé e a engolir óbvias injustiças.

Mais assusta ainda saber que aí, no distante Oeste, comparam o jovem Obama ao Kennedy e que ninguém se rala que ele lhe tenha até surripiado uns nacos de discurso. Sobretudo porque o tal Kennedy viveu há quarenta anos atrás e pelos vistos nada mudou tanto assim para o mesmo discurso servir nos dias de hoje. Vê como anda mascarada com fatinhos novos a política actual? A Hillary também esteve muito bem no departamento da moda, justiça lhe seja feita.

Para irmos a factos mais concretos, também me assusta bastante que a eleição desse pseudo-democrata deite por terra as ínfimas conquistas do direito feminino e lgbt, a tão grande custo conseguidas na última década. Porque, como sabe, não chega apenas conseguir mudar a lei. Há que ver, a seguir, como ela é, de facto, aplicada. E as suas consequências práticas em sociedade. É preciso dar-lhe tempo para crescer, fortalecer-se, ser podada, crescer ainda mais e vê-la então vigorar em pleno.

Será que teremos tempo para isso com o senhor seu adversário, Obama de seu nome e da minoria masculina? E se ele, muito naturalmente, tiver de negociar direitos fundamentais em nome das boas relações mundiais, não está com certeza a ver a velha e gasta Europa a fazer-lhe frente, pois não? Muito menos o resto das regiões do globo em que, realmente, uma mulher, lésbica ou não, é o que é: melhor mas menor do que qualquer outro ser humano.

Está a ver o meu dilema? É que quando se é pobre ainda se pode ter a esperança de imigrar para um país rico como o seu. Mas quando se é mulher, para onde é que se imigra? Para Vénus?

Também estou muito zangada consigo. Acho, sinceramente, que lhe faltou um bocadinho de visão. Devia ter antecipado este desfecho e devia ter, no mínimo, ter tido a presença de espírito para se divorciar do Bill, declarado publicamente a sua homossexualidade, conquistado a Oprah com voluptuosos bouquets de rosas e jantares românticos, para garantir com firmeza os votos de várias minorias e a cadeira da Sala Oval.

Assim, com a sua mais do que provável derrota amanhã, só me resta esperar que no rescaldo desta aventura quase presidencial, considere uma singela demanda: juntar-se a nós, aqui no Tangas, para partilhar com esta minoria a sua vasta e rica experiência pessoal.

Até breve.