Anda aqui uma pessoa aos papéis, entre o eterno sonho da princesa encantada e a realidade desesperada (que é mais ou menos quando a gente olha para o lado e vê uma pikena que não é a princesa encantada mas que nos dá umas ganas desgaçadas de lhe dizer que é, só para aquilo que a gente sabe, claro), sem conseguir decidir por um ou por outro caminho quase uma vida inteira.
Andamos aqui sempre a balançar entre o recto e o correcto, que a vós pode não vos parecer, mas são completamente distintos, sendo que o primeiro nos atira para a fidelidade ao sonho e o segundo para a fidelidade aos outros…
Isto só para vos dizer que, a propósito da tertúlia poética espontânea desencadeada por este post da rfilgueira, lembrei-me da lindíssima Pastorale da Teresa Alvarez. Imaginem quem as palavras são todas as coisas belas que vemos na nossa namorada. E que é quase assim que lhas dizemos…
Pastorale
Rasgo as árvores até perceber
como foi
antes das vogais e
regresso a casa.Tenho um rebanho de palavras à minha espera
Conheço-as bem
como o cajado onde me encosto enquanto
penso
Cubro os ombros de Sol e
fico-me de longe a olhar o rebanho.
As palavras correm livres pelo pasto
É com as mãos que eu as chamo
e elas vêm submissas
É com as mãos que as afasto
«Vão-se embora palavras»
Magoadas, adormecem depois.
Se uma está acordada
eu ponho-a no meu colo
e fico ali
sentada a embalá-la.Alguém lavra, ao longe, um campo de palavras
e o arado estremece a cada consoante
E passo assim
a tarde toda a dobar-lhes os fios
cantando
enquanto doboAos dias ímpares
Vem uma feiticeira e rouba-me o rebanho
para fazer rezas e ladainhas
- eu finjo que não vejo.Por vezes
as palavras aproximam-se demais umas das
outras
e o vento chega e
põe reticências nas frases.
E é então que o rebanho estremece.
Eu levanto o cajado
e fico a desenhar lírios e urze brava
e o pasto
é agora o grande sonho que alimenta as
palavras.
Uma palavra emigrante
Vem súbita e descalça
desfazer-se em sentidos para me convencerE eu digo
Vem-me cá, oh palavra!
de que estrada chegaste?
quantas bocas te disseram?
quem te chorou, palavra?
quem te deixou partir, sozinha e frágil?
Ela prende-se a mim
e suga-me no peito as desgastadas fomes
Inclinada
cai depois num fio de leiteFaz-se um parágrafo na tarde enfraquecida
e eu chamo o rebanho
que caminha agora em rima emparelhada
Sigo as passadas bíblicas
com o cordeiro
a baloiçar-se às costas
e é um livro que entra pelo quintal.O título é a palavra adormecida
As aves que se recolhem ao silêncio da noite
são a pontuação
e os acentos agudo e grave
são os meus dedos com que, agora, abençoo o
rebanho.Um deus vem
e assina com tinta invisívelEu ponho-me ao postigo
em silêncio
a ouvir o poema.
in “Do Tempo e do Silêncio”, Teresa Alvarez, Editorial Caminho,

32 comments
Comments feed for this article
Março 4, 2008 às 11:02 am
Só Maria
“Eu ponho-me ao postigo
em silêncio
a ouvir o poema.”
Março 4, 2008 às 11:07 am
tangas
é lindo, não é? a minha prospectiva vai ter de mo dizer ao ouvido, nem mais, nem menos.
dá gosto ler português assim…
Março 4, 2008 às 11:30 am
Só Maria
lindo, sim senhora menina tangas!
e olhe, que se a sua prospectiva for mulher para lhe dizer tudo isso ao ouvido a menina é uma mulher afortunada!
vá balançando entre o recto e o correcto que vai bem!
Março 4, 2008 às 11:37 am
tangas
já me calhava bem um afortunanço desses, calhava sim…
(suspiro)
Março 4, 2008 às 11:40 am
Só Maria
não me parece que a menina seja pessoa de desistir!
Março 4, 2008 às 11:42 am
r.filgueira
A los que amo y me aman
sin dependencia
a los que no temen que los caminos nos separen
porque saben de los reencuentros
a los que quieren ser felices
… a pesar de todo
Março 4, 2008 às 11:54 am
tangas
mi pele eres tu
que de tus manos
me sale el deseo…
(daqui não vai sem resposta menina r.)
ó só maria… francamente, desistir de quê? que verbo absurdo esse…
Março 4, 2008 às 12:03 pm
Só Maria
exactamente menina tangas!
Março 4, 2008 às 12:27 pm
tangas
Aos dias ímpares
Vem uma feiticeira e rouba-me o rebanho
para fazer rezas e ladainhas
- eu finjo que não vejo.
Março 4, 2008 às 1:29 pm
Só Maria
[...]
Secretas vêm, cheias de memória,
inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
In O Sal da Língua – Eugénio de Andrade
Março 4, 2008 às 1:31 pm
r.filgueira
e o vento chega e
põe reticências nas frases.
Março 4, 2008 às 2:04 pm
tangas
ai.. que seria da vida sem umas reticências aqui e ali, não é?
Março 4, 2008 às 3:03 pm
aNa
seria um ponto final!
Março 4, 2008 às 4:15 pm
Só Maria
adoro reticências!
aqueles três pontinhos aqui e ali ao longo do texto, acho que ficam muito bem!
Março 4, 2008 às 4:23 pm
tangas
pronto, está decidido: a prospectiva tem de ter reticências…
Março 4, 2008 às 4:54 pm
tangas
ah, menina iana, não me fale em pontos finais que me estremece o coração e eu já ando tão abalada com as prospectivas e outras efectivas…
Março 4, 2008 às 5:08 pm
aNa
ufa! já morria de claustrofia lá nos confins do spam!
ai as prospectivas…
Março 4, 2008 às 5:11 pm
r.filgueira
oh tangas plenamente de acordo
a prospectiva tem mesmo reticencias…
Março 4, 2008 às 5:12 pm
tangas
iana chèrie, no fundo, como sabe, oisjhoiga oiguvp9eih+0aei5aga5ouaoe5ghaigh…
por outro lado, iosrgd9r8ghaeghpaihaigv48t04t09.
mas é sempre ozidrjhoaieuh+i5e0a5h0a9e5ha0h05ha’0tkghzab.
entende?
Março 4, 2008 às 5:15 pm
tangas
r.filgueira, eu não sei onde a menina as vai buscar, mas lá que acaba por ter razão, isso é indiscutível. tem feito upgrades com elas ultimamente?
Março 4, 2008 às 5:26 pm
r.filgueira
oh se tenho…
Sin prisa pero sin pausa…
Março 4, 2008 às 5:43 pm
tangas
sin prisa me lo dices todo sin decirme nada…
Março 4, 2008 às 5:53 pm
aNa
eu vim aqui, e pensei “este comentário não é para mim”.
afinal era…
sabe, eu agora é mais efectiva.
mas concordo consigo.
na verdade, sogadueinr adsb bufaftja.
embora, kitghui gfredopç gyqert.
mas lá está, juhrtye gfr çartuyim.
Março 4, 2008 às 6:14 pm
tangas
deve ser da lua, menina iana, só pode.
Março 5, 2008 às 7:57 am
Só Maria
coitada da lua… agora a pobre é que paga!…
Março 5, 2008 às 8:08 am
tangas
ó menina só maria… dê lá espaço.
se não for lua, que acha que é? hã?
Março 5, 2008 às 8:42 am
Só Maria
dou espaço, dou… concerteza, a menina explane aí sobre a influência da lua à vontade!
de caminho, pode ser que o tal do relatório completo fique ainda mais á sua beira e finalmente se encaminhe para cá… sei lá… pode ser que a lua ajude também! 
a não ser a lua, tem que ser algo assim belicoso, como marte, por exemplo, ou vénus na casa errada!
Março 5, 2008 às 9:00 am
tangas
vénus na casa errada assim como quando a gente apanha uma ganda narseja e acorda na cama da outra com quem nunca pensou beber café, quanto mais deitar-se?
Março 5, 2008 às 9:45 am
Só Maria
isso seria literalmente na casa errada! e já não seria tanto a influência do astro!
Março 5, 2008 às 10:24 am
aNa
porra! marte é capaz de fazer essas coisas??
chiça!!!
e quando é a vez de marte? está quase? tenho que me precaver…
Março 5, 2008 às 10:26 am
tangas
não. era mais influência do espírito…
Março 5, 2008 às 10:30 am
Só Maria
menina aNa, calculo que marte surgirá a partir de sexta-feira ao fim da tarde, estendendo-se até segunda feira de manhã!… acontece algumas vezes, mas também não é dramático!