Texto Pedro Burgos
Em janeiro deste ano um grupo de cientistas britânicos da Universidade de Newcastle mostrou como é possível fabricar um espermatozóide a partir de uma célula-tronco adulta feminina (a medula, por exemplo).
Com isso, via inseminação artificial, um casal de lésbicas poderia procriar. Imagine agora se metade das lésbicas optasse por esse método para ter filhos. Ou melhor, filhas: homens têm um par de cromossomos XY e mulheres, XX; a união de dois gametas femininos só pode resultar no nascimento de uma fêmea.
Fizemos as contas para você: em apenas 350 anos, já haveria um desequilíbrio significativo, com dois terços das pessoas no mundo sendo mulheres. “Com o aumento da população feminina, podemos ter o relacionamento entre mulheres como uma regra social mais tranqüila. Cresceria, talvez, o número de lésbicas”, especula Débora Diniz, professora de bioética da UnB.
Para tudo isso fazer sentido, a fertilização in vitro precisa ser uma realidade acessível. Isso já começou a acontecer em alguns lugares. “No Brasil, o tratamento ainda precisa ser pago pelos pacientes, mas na França, por exemplo, ele é coberto pelos planos de saúde”, diz o médico Roger Abdelmassih, dono de uma clínica de inseminação artificial que pesquisa a criação de espermatozóides a partir de células-tronco.
Na Inglaterra, onde 1 em cada 100 crianças nasce de inseminação artificial, a procura de casais de lésbicas por esse método cresce mais rapidamente que entre heterossexuais. “É uma procura que os médicos não calculavam acontecer”, afirma a socióloga Martha Ramirez, pesquisadora de Novas Tecnologias Reprodutivas da Universidade Estadual de Londrina, Paraná.
Com o desequilíbrio populacional e uma maioria heterossexual, os homens sobrando iriam se dar bem. “Especulando de novo, a poligamia seria necessária. Talvez a população tivesse que apelar a esse tipo de estratégia”, diz Martha.
A superioridade numérica das mulheres significaria também uma humanidade mais sadia, pelo menos no que diz respeito a doenças hereditárias cuja manifestação está relacionada ao cromossomo Y. “Haveria uma redução de doenças graves num primeiro momento, como daltonismo, distrofia muscular ou hemofilia tipo A. Mulheres podem ser portadoras, mas não têm essas doenças”, explica a professora de genética Maria Rita Passos-Bueno, da USP.
Do ponto de vista sociológico, é provável que postos de liderança começassem a ser ocupados por mulheres, refletindo a nova composição populacional. Isso significaria, para começar, governos menos autoritários e belicosos. “Pesquisas apontam que as mulheres gostam mais da colaboração e do consenso do que os homens. Elas têm grande disposição para prevenir e parar conflitos por serem motivadas a proteger os filhos”, afirma a ativista americana Marie Wilson, autora de Closing the Leadership Gap: Add Women, Change Everything (“Acabando com a Diferença na Liderança: Adicione Mulheres, Mude Tudo”, sem tradução para o português).
9 comments
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Abril 1, 2008 às 10:36 am
Sílvia
E a evolução da espécie onde fica? Um mundo só de mulheres…não, acho que não era nada bom.
Abril 1, 2008 às 11:00 am
tangas
mas isto é a evolução da espécie, menina sílvia.
claro que a sua opinião é mais do que válida. mas não quer explicar por que acha que não era nada bom?
Abril 1, 2008 às 11:34 am
Duca
Artigo interessante, sem dúvida e que nos faz reflectir nas consequências de um mundo composto por uma grande maioria de mulheres.
Os valores ligados à Deusa - a paz, a convivência na diversidade, a cultura, as artes, o respeito por outras formas de vida do planeta, etc. - sobrepor-se-iam aos valores ligados ao Deus - a competição selvagem, a supremacia do mais forte, a violência, o predomínio da razão - e que nos levou ao completo descalabro em que vivemos?
A polaridade entre o feminino e o masculino não tem sido respeitada e, o que tem prevalecido é o princípio masculino causador de um terrível desequilíbrio com as nefastas consequências a que todos assistimos.
Será que a predominância dos valores ligados ao feminino não nos levariam também a um desequilíbrio?
Abril 1, 2008 às 12:11 pm
Só Maria
por acaso tive oportunidade de ler uma série de artigos diferentes sobre este mesmo tema que aborda aqui a menina tangas, mas não li em lado nenhum que esse sistema de reprodução só produzisse mulheres, como parece que se chega a aventar nos comentários acima… creio que os homens continuariam a nascer… ou não?

uma coisa é a forma de chegar à reprodução, outra é o resultado dela…
quanto ao equilibrio desejado… já são outros 500!
todos sabemos que é necessário, mas estamos ainda muito distantes!
Abril 1, 2008 às 2:01 pm
aNa
é por estas coisas que, às vezes, a ciência me assusta!!!
e a cabeça de algumas pessoas ainda mais, porque a ciência não é um ser dotado de vida própria!
mas uma coisa me descansa, egoista como só eu: isso não se deve passar nesta minha vida.
Abril 1, 2008 às 2:29 pm
Catia
Agora que fala aqui no concurso de contos pergunto: Já que o prazo ja terminou, não ha nenhum feedback?
Abril 1, 2008 às 2:31 pm
tangas
a ciência não é uma entidade por si só, tem razão. portanto, o que a pode assustar são os cientistas ou aqueles a quem eles servem. certo?
já se passa menina iaNa, já se passa.
nada se fala nestes casos sem que já tenha sido muitas vezes testado. como julga que decorrem os ensaios científicos? a gente só pode comprovar com provas, certo? repetindo muitas vezes os acontecimentos para ter a certeza de que eles se repetem sempre, ou a maior parte das vezes, da mesma maneira.
então…
Abril 1, 2008 às 3:51 pm
aNa
sim, sim. mas essa catrefa de mulheres em barda, só lá mais para diante, não?
é que não me estou a ver com mais mulheres no mundo, cruzes!
o equilíbrio deve ser isso mesmo, não? equilíbrio!
não é haver mais de uns do que de outros!
Abril 1, 2008 às 4:09 pm
tangas
não se preocupe, menina iaNa, que se for preciso também se inventa um vírus para dar cabo de metade delas…