Ó mãe, o que é uma revolução? É uma coisa assim de virar as coisas ao contrário. Ah… Então os cravos e as flores viraram-se ao contrário? Mais ou menos. Já que não virou muito mais. Mas não te preocupes que as coisas estão a voltar muito rapidamente ao que eram antigamente. E o que eram antigamente? Olha, eram tanta coisa que a nós não nos cabia ser grande coisa. Não estou a perceber, mãe… E achas que eu, por ser tua mãe, percebo muito mais? Não. O pai da minha amiga, lá da escola, diz que as mães são todas burrinhas. O pai da tua amiga é um reaccionário. E o que é um reaccionário? É uma espécie de alergia que algumas pessoas provocam nas outras. Ah… E também têm de tomar o xarope das alergias? Não, não têm. O que é uma grande desgraça, porque ficam assim toda a vida e os outros é que pagam. Não se pode fazer nada, nada? Nada mesmo. Mas de vez em quando podemos fugir deles. Só de vez em quando e não é por muito tempo. Ó mãe, esses reaccionários são mesmo perigosos, não são? São, são. Quando vires um, foge. Olha, mãe, acho que não quero saber mais nada da revolução. É natural. Há revoluções que não são grande coisa. Mas outras que têm mesmo de ser feitas. Por exemplo, no teu quarto. Queres que vire as coisas do meu quarto ao contrário? Quero. Mas não vai ficar tudo desarrumado? Isso já está. Pode ser que fiquem algumas direitas. Ai, mãe… Cada vez gosto menos da revolução. Ninguém gosta. Vá, desanda para o quarto e faz lá a revolução.