novas cartas portuguesas

A propósito deste post, lembrei-me duma conversa tida aqui há uns anos com uma pikena activista dos direitos lgbt que afirmava, convicta, eu sou lésbica mas não é por isso que sou feminista
Pronto, cada um tem os pontos de vista que tem. O certo é que, depois da luta liberdade-igualdade-fraternidade na França em tempos de tomada da Bastilha e o anti-esclavagismo do Novo Mundo, a luta das feministas abriu as portas da batalha global anti-discriminação.
A queima dos sutiãs no Parque Eduardo VII, em que foram apupadas as pioneiras do movimento em Portugal perante a pusilanimidade de alguns dos grandes revolucionários da época, tem tudo que ver com os direitos das minorias em que as lésbicas se incluem.
O gesto simbólico de deitar fogo aos porta-mamas teve origem num protesto de 1968, em Atlantic City, onde decorria a eleição da Miss América, e em que de facto não chegou a haver queima alguma. A repressão policial da manifestação chegou ao extremo de acusar as manifestantes pela utilização de ‘linguagem ofensiva’ nos posters em que se viam escritas frases como “Boring job: Woman wanted”, “Low Pay: Woman wanted”, “Get a whole new face, a whole new look”, e “Buy! Buy! Buy!”.
Em terras lusas, a censura proibiu em 1972 “As Novas Cartas Portuguesas” como obra obscena e subversiva, por descrever pela primeira vez as mulheres como insubmissas perante o poder do homem. Numa altura em que as mulheres precisavam da autorização dos maridos ou dos pais para se ausentarem do País, fosse qual fosse a sua idade ou estado civil…
Era luta anti-discriminação, evidentemente. Como se pode distinguir um abuso de poder de outro, por princípio, convenhamos? E não é pela anti-discriminação que as lésbicas surgem como comunidade, conceito ou forma de estar?