Há 80 anos a escritora inglesa Radclyffe Hall lançou The Well of Loneliness (Poço da Solidão), a história de Stephen Gordon, uma mulher inglesa da classe alta cuja inversão sexual (homossexualidade) é notória desde tenra idade. Gordon apaixona-se por Mary Llewellyn, condutora de ambulâncias na Primeira Grande Guerra. A felicidade das duas é marcada pela rejeição social e pela solidão. O romance defende a inversão como natural e foi alvo de uma campanha no Sunday Express, cujo editor escreveu que preferia dar ácido a beber a um rapaz ou a uma rapariga saudáveis do que deixá-los ler o livro.
O livro tornou-se então motivo de uma batalha legal e, apesar de a única menção explícita nele contida ser a frase “and that night, they were not divided” (”e, naquela noite, elas não ficaram divididas”), um tribunal inglês considerou-o obsceno por defender práticas anti-naturais entre mulheres. O romance conseguiu, no entanto, sobreviver à lei da época no Estado de Nova Iorque e ao United States Customs Court, tornando-se uma obra de referência, embora tenha sido censurada por muitas lésbicas por defender a imagem butch (camionista) e masculinizada das mulheres que gostam de mulheres.
A história de vida de Radclyffe Hall (Marguerite Radclyffe-Hall, 1880-1943), autora de várias obras poéticas e romances, também foi recheada de episódios de contornos novelescos. Os pais separaram-se quando era ainda uma bebé e foi praticamente ignorada pela mãe e pelo padrasto. Estudou no King’s Colledge de Londres e na Alemanha, onde viria a conhecer Mabel Batten, uma cantora lírica de 51 anos (Hall tinha 27). Mabel era casada, tinha uma filha e netos. Quando o marido de Batten morreu, as duas começaram uma vida em conjunto. Foi Mabel que começou a tratar a escritora por John, nome que nunca mais abandonou.
Em 1915 apaixonou-se por Una Troubridge, prima de Mabel e escultora, casada com um almirante. Mabel Batten morreu no ano seguinte e as duas começaram a viver juntas. A relação durou até à morte de Hall, embora a escritora tivesse mantido vários casos com outras mulheres.


2 comments
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Junho 19, 2008 às 1:07 am
Só Maria
foi uma mulher com uma vida bastante “preenchida”, digamos.
o conceito de inversão sexual creio que foi mesmo criado por ela e adoptado na época por estudiosos na matéria. foi mais um campo que essa senhora desbravou. só com Freud se viria a adoptar o termo homossexualidade.
Junho 20, 2008 às 11:32 am
tangas
na verdade, a pikena foi roubar o termo (congenial invert) a Havelock Ellis, um muito pouco convencional da época, já que se confessou como impotente até aos 60 anos, altura em que descobriu que conseguia uma erecção vendo uma mulher urinar…
o senhor Ellis era um adepto do eugenismo e foi casado com Edith Lees, uma notória lésbica e defensora dos direitos das mulheres. os dois mantiveram, segundo definição de ambos, um casamento aberto.