Já tinha escrito isto aqui:
Quês e porquês do casamento lgbt
Por que é que esta história do casamento é tão importante para a comunidade lgbt? A pergunta é frequente, como frequentes são as evasivas, vagas e frágeis respostas dos nossos adorados líderes lgbt quando com ela confrontados. Para mim, a resposta é esta:
- Quando os lgbt reivindicam o casamento, muito mais do a questão dos direitos legais e de propriedade que, em teoria, podem ser resolvidos por outras leis, e além da legitimação da união ou, se preferirem, a sua validação oficial e perante a sociedade, o que está aqui em causa é:
a capacidade de criar uma nova família.
Isto, queridas e queridos, é o cerne da questão. É este o conceito que nos está vedado e contra o qual, inconscientemente, pontapeamos. Porque, ao contrário dos lgbt, qualquer gato-sapato pode criar uma nova família e ver assim inequívocamente estabelecidos os laços familiares.
A partir do casamento, não há amantes, não há namorados, não há a pessoa em questão, não há companheiras e companheiros. Há um consorte de pleno direito, há sogros, há tios e sobrinhos, há filhos e enteados. Os parentes de uma ou de um tornam-se os parentes da outra ou do outro.
Há um clã e a sua respectiva força que, naturalmente, se vê dessa forma alargada.
É isso que torna o contrato legal do casamento único face a qualquer outro contrato legal que possa ser celebrado entre duas pessoas. É isso que fez, desde sempre, dos casamentos poderosas amas de conquista de aliados, um forjador de laços muitas vezes mais eficiente e completo do que o próprio sangue.
Os laços biológicos (de sangue) são, em todas as épocas e em todas as sociedades, os ‘formadores de família‘. A seguir vem o contrato do casamento e o único que o iguala, no sentido da capacidade de legalizar os laços familiares entre as pessoas, é obviamente o da adopção.
A família e os laços familiares definem muita coisa na nossa sociedade. Há direitos e obrigações legais, sociais e morais para com as pessoas da nossa família que simplesmente não se aplicam a estranhos. Nem o facto de coabitar com uma pessoa não nos obriga a vê-la como um membro da nossa família e vice-versa. Com o casamento, no entanto, as coisas mudam substancialmente de figura:
O clã!
Os laços familiares não se desfazem. Nem o divórcio tem esse poder. Poder, poder, poder… Afinal é por isso que não nos querem casadas e casados?
(vejam o embrulho que vai pelas notícias…)

10 comments
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Julho 3, 2008 às 10:23 am
Cátia
Sempre pensei que não casaria, não percebia muito bem o cerne da questão. “Não é preciso assinar um papel para ser feliz”, pensava. Mas de facto após ler e reler este seu post, acho que percebo agora a sua importancia. Acho que tem razão sim.
Quanto as noticias que por aqui andam, fico triste que a “Tia Manuela” tenha dito o que disse… Acho que perdeu nessa noite, e o pior é que não reconhecerá facilmente que errou…
Julho 3, 2008 às 10:39 am
tangas
pois, menina cátia… não andamos a brincar ao álbum de fotografias e aos bouquets atirados para o meio dos amigos.
o casamento é, desde tempos imemoriais, uma aliança. não apenas entre duas pessoas, mas entre famílias, entre clãs, estados e países.
estabelece direitos como a herança, sucessão e quem as recebe. as casas reais usaram-no sempre como uma arma política e económica.
é poder até perder de vista.
Julho 3, 2008 às 11:12 am
Cátia
Eu sei que não são brincadeiras de albuns de fotografias nem tão pouco de bouquets. Quando me referia ao casamento era de forma genérica, e contemplando os casamentos heterossexuais. Mas de facto é poder sim, é um poder de partilha mais intenso. É uma união que vai para além daquelas duas pessoas, vai para além das famílias e dos amigos… Obrigada por me fazer outro lado.
Julho 3, 2008 às 11:45 am
tangas
de nada, menina cátia. as tangas aqui são para divertir e informar, aprender e escutar.
Julho 3, 2008 às 12:12 pm
Cátia
Há tangas e tangas…
Gosto das que vou encontrando por aqui…
Julho 3, 2008 às 12:29 pm
cosmopolita
Cara Tangas:
Desculpa, mas não concordo de uma maneira geral contigo. A minha família é um clã na verdadeira acepção do termo. E têm aceitado os meus casamentos homossexuais tal como aceitaram o meu casamento heterosexual. Tal como os meus amigos de longa data. Tal como a minha família mais próxima: filhos, pais, irmãos, sobrinhos.
Quer se queira quer não, é a genuídade, intensidade e naturalidade dos afectos que se vai impondo às pessoas que nos estão ligadas. É a responsabilização mútua, é o estar-se lado a lado, firmemente, nas agruras da vida. Para o mal e para o bem, na saúde como na doença.
Tal como escrevi aqui (http://azinhagadacidade.blogs.sapo.pt/47023.html), estou convencida de que toda esta resistência à união de duas pessoas homossexuais se deve fundamentalmente a questões relacionadas com a propriedade privada e a sua transmissão por vias consanguíneas. O que está totalmente de acordo com a posição da Manuela Ferreira Leite. Acredita que não tem nada a ver com posições morais ou religiosas, esta gente é profundamente hipócrita! O que lhes dói é mesmo a possibilidade de uma pessoa não unida por um casamento “legal e normal” poder herdar, partilhar, usufruir dos bens de outra.
Julho 3, 2008 às 12:36 pm
tangas
a menina cosmopolita aqui está à vontade. diga de sua justiça
não vejo em que possa de estar em desacordo consigo, uma vez que falamos do mesmo: herança, consaguinidade, ou seja, a legitimação de um tipo de poder.
falamos do mesmo, claro, só que a senhora manuela ferreira leite diz que é por isso mesmo que não nos legitima. poder para uns portugueses e para outros não. discriminação.
para informação geral, quando há muitos anos os deputados começaram a pôr na mesa a união de facto – e ainda nem se falava da dos lgbt -, ficaram imediatamente de lado as heranças, porque essas só reguladas por um determinado tipo de poder…
Julho 5, 2008 às 1:16 am
x-pressiongirl
A este propósito o sembikini respondeu assim:
http://sembikini.blogspot.com/2008/06/por-que-que-os-gays-no-devem.html
Julho 5, 2008 às 1:36 am
tangas
menina x-pressiongirl, é muito interessante o texto referido, mas o que trata este post é de direitos iguais e das razões por que os negam.
ser contra a instituição do casamento é outra coisa.
a não ser que a menina queira elaborar um pouco sobre as razões por que pôs aqui este comentário.
direitos básicos são uma coisa. o significado das instituições – e neste caso da que define a relação homem/mulher no casamento, que entretanto se alterou profundamente -, são outra.
a lei não deve diferenciar as pessoas porque são homo ou heteros. aliás, é inconstitucional o que acontece em Portugal.
as diferenças entre homens e mulheres também o são. a discriminação tem sempre a mesma base. é abuso de poder, puro e simples.
confundir as formas em que se apresenta e o impacte directo que tem a legislação correspondente é o tema aqui proposto, sobre um detalhe concreto. que há que erradicar.
o que se escreve sobre outros detalhes são outros quinhentos. sobretudo, há que resistir à confusão mental e usar de muita assertividade quando se quer pôr qualquer coisa no lugar.
Julho 7, 2008 às 1:44 pm
rosa
Cara tangas, vou ter o maior cuidado neste solo armadilhado que é a família.
E chamar a atenção para uma ou duas propriedades da lei local.
A impossibilidade da grávida recusar a paternidade legal a um homem (omitir), e a subsquente investigação policial que daí decorre.
A criminalização (com 3 anos de gaiola) da fertilização caseira (uma das possíveis origens dessa gravidez).
A excepção é a clínica, que está autorizada a manipular o estatuto paternal, dador>pai-de-afecto>pai-de-lei.
A condição deste acto clínico é a possibilidade de “enganar” a criança face á sua origem, razão da discriminação da homoparentalidade. (equiparar a presença de penis ao conjunto das demais caracteristicas da parentalidade)
Esta condição legal tem efeitos surpreendentes. Investigação policial da (vida sexual da) grávida que se recusa a cooperar, assignando como parente um homem que é para ela dador. Sobreposição da parentalidade com o acto (hetero)sexual em si (e isto explica a anterior lei do aborto).
A clínica aparece como A mediadora legítima entre homens e mulheres. Mesmo a autodeterminação dos homens, que parece a razão de ser destas leis, está sob ataque.
Faço um repto para que, a começar na comunidade lesbica, se dê um aval preguiçoso às instituições que já estão publicamente a defender o casamento, e se concentre esforços nesta situação.
Porquê? (se necessário ainda)
Porque a legitimação da homoparentalidade antecede a legitimação proveniente do casamento, mesmo no caso da adopção.
Porque excede a “questão” LGBT, incluindo-a.