Aprendemos desde crianças o que devemos ou não devemos fazer através do que os papás ou outras figuras de autoridade nos transmitem que é certo ou errado. É normal e saudável transmitir às crianças os conceitos devidos através da aprovação ou reprovação dos seus actos. Só que há situações em que essa prática está à partida contaminada e tem consequências muito pouco agradáveis.
Refiro-me aqui ao facto de se transmitir, desde a mais tenra infância, noções erradas. Como o facto de meninas não poderem gostar de meninas e meninos não poderem gostar de meninos. As crianças aprendem, mas a sua natureza não se modifica. O que acontece então? Aprendem a mentir sobre si mesmas para não desagradar, a desviar a atenção de todos sobre aquilo que merece reprovação, a não pestanejar quando questionadas sobre coisas que também não são verdadeiras sobre o que se passa consigo.
A mentira acumula-se ao longo dos anos, instala-se insidiosamente em todas as áreas da vida. Assim como a negação. Apesar disso, a natureza continua a impor-se e a mentira vai evoluindo. Porque é necessário ser criativo e ter jogo de cintura para se fingir, durante uma vida inteira o que se não é.
Dessa forma, uma prática grave e perniciosa para a saúde mental de qualquer um, torna-se um facto banal na vida de quem se vê reprovado e confrontado de outra forma. Mente-se a propósito das coisas mais simples, mais naturais, e quando se toma a decisão de fazer a vida para que se está destinado, a despeito de todas as condenações, ainda se mente mais. É-se criativo na mentira. Inventam-se personagens, nomes, mudam-se os factos conforme a conveniência.
Não bastasse já essa tragédia, a decisão de parar de mentir é outro calvário. Uma autêntica desintoxicação, com avanços e recuos, perdas e vitórias, avanços amargos, porque é difícil interiorizar que a culpa não é nossa e é perfeitamente legítimo ser honesto e verbalizar o que se é realmente.
É preciso coragem e determinação, convicção sobre os direitos que nos são subtilmente surripiados durante importantíssimas etapas da nossa formação. E muitas vezes para constatar apenas que a batalha é eterna, que além das nossas mentiras temos também de agarrar as dos outros pela base e arrancá-las como ervas daninhas.
Já aprendi que para viver no meu jardim tenho de manter uma vigilância apertada e expurgá-lo permanentemente das mentiras que teimam em assomar e tomar o lugar das flores.

2 comments
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Agosto 11, 2008 às 2:15 pm
Só Maria
só pra dizer que acho a mentira uma coisa horrível!
boa tarde!
Agosto 11, 2008 às 2:22 pm
tangas
e é. mata-nos por dentro e por fora. abaixo a mentira!