Estava aqui de converseta online com uma amiga toda anti casamento entre homossexuais. Acontece que está de namoro novo e, muito feliz, foi-me dando a apreciar o anel que acabou de receber da namorada. Ela retribuiu com um igual.
E agora pergunto eu: qual é a diferença entre casar de papel passado e trocar votos e anéis para assinalar um compromisso que se pretende sério?

13 comments
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Agosto 30, 2008 às 11:36 pm
Maria Oliveira
não querendo julgar, até porque não sou minimamente vocacionada para isso, diria que falta coerência a dessa tua amiga, minha querida.
Agosto 30, 2008 às 11:41 pm
tangas
também lhe digo o mesmo, mas ela é irredutível.
já que assume os compromissos e as obrigações, não era natural que quisesse também beneficiar dos direitos de todos os outros?
Agosto 30, 2008 às 11:52 pm
Maria Oliveira
seria natural, sim, minha querida, mas essa seria uma tomada de posição bastante mais desconfortável, porque exigiria lutar por esses direitos que ainda não nos foram reconhecidos.
é mais fácil assim.
Agosto 30, 2008 às 11:56 pm
tangas
eu acho que é mais difícil assim, porque cansa ter de ser só meia pessoa…
Agosto 31, 2008 às 1:59 pm
Pagu
A sério que acho esses comentários bem pertinentes. Falo a sério. Mas viajando até ao cerne da questão, alguém poderá informar essa moça apaixonada, com direito até a anel, que estas coisas não duram? Que não interessa o anel, o fiel, o papel, que tudo acaba em poucos dias? Quase seria engraçada uma aposta em quantas semanas isso vai durar. Ou meses, visto ter anel no meio.
Agosto 31, 2008 às 2:08 pm
tangas
eheheh…
eu diria que poderá durar bastante, visto que as moças em questão são crentes e professam a fé do amor para sempre.
apaixone-se lá depressa e muitas vezes menina pagu, a ver se a sua fé também se manifesta de vez em quando
Agosto 31, 2008 às 2:20 pm
Maria Oliveira
ah… o anel então traz mais longevidade à “coisa”!? menos mal que temos 20 dedos!
Setembro 1, 2008 às 12:20 am
femmepiano
não acredito que seja “natural” que as pessoas queiram se beneficiar dos direitos de “todos os outros” (heterossexuais, rs). para mim, este é uma das críticas centrais aos movimentos que pleiteiam direitos políticos a partir da identidades… é uma espécie de emboscada que eu não sei como resolver. se por um lado é uma forma de conquistar um espaço na arena política, cai no erro das generalizações (de intenção”comum”, de associar indivíduos a categorias baseadas nas suas práticas sexuais, de criar essa idéia de que existe uma “classe” homossexual engajada de forma coesa nessa luta, etc)…
respeito o direito daquelas pessoas que, independente do sexo ou preferência sexual, não desejam se casar no papel, adotar, ter conta conjunta ou registro como dependente de seus/suas companheir@s no acesso à previdência. desde que nós que o queremos possamos ter nosso direito reconhecido, não é nada absurdo que as demais pessoas possam escolher maneiras distintas de levarem as suas vida e os seus relacionamentos.
modos de viver e pensar que fogem à “regra” vão sempre existir e é legítimo que existam, desde que haja espaço garantido para o dissenso. seria opressor pensar o contrário, e estaríamos alimentando a mesma lógica que queremos hoje combater.
quanto ao anel, ele carrega ao mesmo tempo o sentido da normatização e da quebra de tabus sociais. sim, estamos “definindo” uma relação de acordo com os preceitos de um paradigma cristão e tradicionalista, ao tempo que o questionamos em sua essência.
de qualquer modo, eu e minha mulher usamos há quase dois anos, pois para NÓS é importante, uma forma de demonstrar afeto, amor e união. penso que seu uso sem que cultivássemos isto de fato em nossas vidas seria hipócrita, e que o anel “EM SI” não traz longevidade à coisa. mas vale lembrar que seu uso está inscrito dentro de um sentido mais amplo, que pertence a cada casal e a mais ninguém.
Setembro 1, 2008 às 11:31 am
Maria Oliveira
femmepiano, é lógico que um anel não tem a capacidade de trazer longevidade a uma relação, seja ela qual fôr, trata-se apenas de uma observação “humorística” na sequência do comentário da Pagu. é claro também que cada um saberá e escolherá aquilo que acredita ser melhor para viver a sua relação, e se o casamento fôr um obstáculo, não vejo porque não obstar a ele. é, e deverá ser sempre uma opção de cada um, de preferência consciente e sentida. mas olhando de uma forma directa para a questão, e o ponto a que fiz referência, é que “casar de papel passado e trocar votos e anéis” no âmbito estritamente pessoal, acaba por ser exactamente a mesma coisa, pois existe um compromisso assumido de forma “visível” em qualquer das situações – nem sequer falo do compromisso inerente a qualquer relação.
no nosso caso, enquanto lésbicas, as opções continuam a ser mais reduzidas… trata-se de querer usar anel ou não, uma vez que o casamento ainda não pode ser equacionado no nosso país.
Setembro 1, 2008 às 2:50 pm
Pagu
Ah tangas! Porque não me deseja “romancei-se” depressa ao invés de apaixone-se depressa? Mas sim, tem razão, sou completamente desprovida de fé nestas coisas. Seja como for, alguém terá que assumir a responsabilidade de garantir a todas estas pessoas “aneladas” que, por mais anéis e juras eternas, a “coisa” está irremediavelmente condenada. Terá que ser dito com jeitinho e carinho, não queremos assustar ninguém mas também acho mal deixarmos tanta gente iludida. Eu até podia tentar dizer alguma coisa a esse respeito mas sei que iriam dizer de imediato que sou tendenciosa nestes assuntos. Então, alguém que lhes dê a entender, assim tipo, olha lembrei-me agora deste assunto, que o anel pode ser um meio de se atingir o fim. Fim literal, leia-se. Para bom entendedor…..
Setembro 1, 2008 às 6:00 pm
Citadina
Concordo que, se o compromisso está na cabeça, então é indiferente estar (ou não) também no dedo ou no papel.
Mas na prática, a questão tem de ser abordada de outro modo, porque afinal de contas, anéis de ex-relações vendem-se no Ebay, já os divórcios têm muito mais que se lhes diga.
Na verdade, a questão do casamento homossexual tem muito mais a ver com direitos sociais do que com compromissos pessoais.
Essa amiga não tem (?) problemas em comprometer-se pessoalmente com alguém mas, pelos vistos, considera que não deve ter os mesmos direitos que os casais hetero de assistência à família na doença do cônjuge, por exemplo. Acha que deve ficar à porta do hospital, como uma proscrita, sem direito de acesso à pessoa amada.
Pronto, é uma escolha pessoal possível, ninguém a impede de exercê-la, mas alguém lhe devia explicar que ser contra o casamento dos homossexuais é ELA estar a imiscuir-se na vida dos OUTROS obrigando-os a aceitar as escolhas dela, em detrimento das próprias!
Ou seja, ninguém a impede de ser masoquista, mas já não se pode afirmar o mesmo quanto à sua faceta sádica. Eu, pelo menos, vou continuar a lutar para que esse tipo de sadismo se erradique da face da Terra.
Setembro 1, 2008 às 11:48 pm
tangas
menina pagu: eu só assumo a responsabilidade de continuar a acreditar que é para sempre, de cada vez que me apaixono. assim como a de acreditar que devemos ser coerentes na nossa forma de estar. de que vale ser anti-casamento se se anseia por tudo o resto? qual é a glória de se ter apenas meia cidadania?
menina citadina: estou em total sintonia consigo no que diz respeito aos direitos, que se querem iguais para todos e, depois, o que cada um faz com eles é outra conversa.
Setembro 2, 2008 às 6:58 pm
femmepiano
concordo plenamente com os últimos comentários.
que indivíduos (gays, bis, trans, travestis, cross dressers, etc) não queiram exercer em suas vidas os direitos que pleiteamos, é uma questão exclusivamente del@s.
mas lutar contra o fato de que sejam concretizados para os demais é um ato de violência sem tamanho.