Enquanto estudante fiz algumas vezes de baby-sitter. É fácil, diziam-me os amigos mais velhos e já com família, ficas com as crianças enquanto a gente vai jantar e beber uns copos. A facilidade consistia em pegar num livro e ir até casa deles, dizer-lhes adeus da janela com um bando de putos sorridentes e felizes por me terem à mão de semear.

Mal os pais desapareciam, instalava-se o caos. As crianças desatavam a guinchar e a pular por cima de tudo o que era mobília, a correr e a fazer orelhas moucas ao que fosse que eu tentasse dizer. As horas seguintes eram uma versão teletubbie do inferno dantesco, passadas a tentar evitar que os istapores se magoassem e que destruíssem a casa por completo.

O fim da loucura chegava quando olhava para o relógio e gritava os vossos pais vêm daqui a nada! O programa mudava então para um melodrama capaz de abalar os céus e a terra. Os delinquentes infantis viravam um bando de choramingas ensonados, a exigir ajuda para lavar os dentes e vestir os pijamas entretanto despidos para correrem nus pela casa fora, refazer as camas que tinham desmanchado só para me verem deitar as mãos à cabeça e arrumar os brinquedos inexplicavelmente atirados para todos os cantos por um qualquer ciclone sem menção nos manuais de meteorologia.

Quando os pais entravam, a casa tinha voltado ao normal e eu andava pelos cantos a ver se descobria o livro que tinha levado. As mães atalhavam os meus esforços indicando-me os esconderijos habituais usados pelos seus rebentos para pôr à nora as baby-sitters. Delícias dos trabalhos fáceis…

Um par de anos depois, num jantar com alguns desses casais que se tornou de repente numa apaixonada discussão entre deves e haveres de mamãs e de papás, com as habituais acusações mútuas sobre quem fazia e deixava de fazer, a filha dos anfitriões veio até à sala e declarou, com grande determinação, que eu, quando for grande, vou ser como a M. e a M.C.!

Referia-se a intrépida candidata a prima, na altura com cinco anos, a mim e à minha namorada, que assistíamos placidamente à troca de galhardetes familiares. Fez-se um silêncio sepulcral entre os pais, enquanto a miúda retirava dignamente em direcção ao seu quarto, para o seu seguro território de casinhas, brinquedos, jogos e livros infantis.

Anos depois, num evento lgbt, uma das participantes veio ter comigo e cumprimentou-me efusivamente e com grande familiaridade. Era a filha dos meus amigos, que entretanto tinha cumprido o seu auto-anunciado destino e estava ali com a namorada. Confessou-me que os pais nem sonhavam e que nem sabia como havia de lhes dizer.

Lembrei-lhe que não podia ser assim tão mau, uma vez que me tinham aceite sempre, quando ainda não havia sequer a visibilidade dos dias de hoje. Uma coisa são os amigos, outra são os filhos, respondeu-me ela muito sabiamente. Acrescentou que um dos seus amigos de infância, de quem também fiz de baby-sitter, se tinha assumido e que tinha sido uma tragédia, com a mãe psicóloga a recorrer a todos os seus manuais de boas práticas parentais para tentar descobrir a origem de tão inesperada e descabida revelação.

E eu, que já me tinha oferecido para fazer de possível mediadora entre a jovem e os pais, arrepiei caminho, não fosse dar-se o caso de se lembrarem de deitar as culpas para cima da baby-sitter