- Diga-me lá uma coisa, por favor: a menina importava-se se eu fosse lésbica?

- Amanheceu com os azimutes desarrumados, foi?

- Responda, vá.

- Que quer lhe responda? Se a menina fosse lésbica… Que raio de pergunta! Terei eu acordado na casa errada, com a namorada errada?

- Não é nada disso.

- Então o que é? Responda depressa antes que eu perca totalmente o fio à meada.

- É que estive a fazer uma pequena investigação do que se sabe sobre as mulheres que amam mulheres e a coisa vai bem além da Ilha de Lesbos, da Safo e das suas protegidas. Os casos de amor entre mulheres são tão antigos como a história que se conhece. Assim como as denominações. O facto de o termo lésbicas pervalecer, neste momento, como o preferido entre as mulheres que gostam de outras mulheres e se assumem como tal, é no mínimo, surpreendente, se tivermos em conta que ela poderá ter sido bissexual. Nesse caso, faria mais sentido que as bi se chamassem lésbicas e não nós. Desconfio, por isso, que a denominação se prende com o facto de às tantas, os homossexuais terem ido buscar os exemplos da antiga Grécia e dos romanos para justificar as suas opções de vida, conferindo-lhes ao mesmo tempo uma “legitimidade” clássica. Até porque há que concordar que os padrões artísticos dessas civilizações continuam a valer como modelos de perfeição e beleza. Assim sendo, é natural que queira saber se a menina se importa que eu me assuma como lésbica e, logo, um modelo de perfeição e beleza.

- Jasus… Isso tudo só para eu lhe dizer se a acho bonita?

- Trocado em miúdos, sim. E com a respectiva validação da tal beleza clássica e intemporal também.

- Venha cá, que eu dou-lhe um tratamento intemporal e clássico em beleza…