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(fotos times.co.uk)

No Ípsilon, do Público, a história de Jan Morris, que já foi homem e vive há 60 anos com Elizabeth:

“Um momento, debaixo do piano

James era pequeno, a mãe estava a tocar piano, e ele, como gostava de fazer, estava sentado debaixo do piano, com as notas a choverem sobre a cabeça. Foi nesse momento que soube: “Tinha três ou talvez quatro anos quando percebi que tinha nascido no corpo errado, e que devia ser uma rapariga. Lembro-me bem desse momento, e essa é a mais antiga memória da minha vida”. Era uma criança feliz, foi “criado com gentileza e sensibilidade”, e não vale a pena procurar nessa infância sinal de trauma ou desajustamento que explique esse pensamento “tão bizarro” que se instalou nele.

Foi um longo, e muitas vezes doloroso, processo que o levou desse momento, debaixo do piano, rodeado pela música que a mãe tocava, até um estranho quarto numa clínica em Casablanca, onde um dia adormeceu homem e no outro acordou mulher. Ou melhor, acordou sem os órgãos genitais, o último passo que faltava para completar, até ao limite do possível, a sua mudança. A transformação começara muito antes da operação em 1972. “Cálculos rápidos indicam que entre 1954 e 1972 engoli pelo menos 12 mil comprimidos e absorvi no meu sistema qualquer coisa como 50 000 miligramas de matéria feminina”, escreve em “Conundrum”.

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Militar e jornalista

Ser transsexual, escreve, “não tem nada a ver com preferências sexuais”. Não é uma questão sexual. “É uma apaixonada, permanente e profunda convicção, que nunca ninguém conseguiu retirar a um verdadeiro transsexual”. É simplesmente uma evidência – mesmo que só para o próprio. “Para mim esta é uma questão que vai muito para além do sexo: não reconheço nela qualquer carácter lascivo, e vejo-a, acima de tudo, como um dilema que não é do corpo nem da cabeça mas do espírito”.

Na infância, quando não confessara a ninguém o que sentia, atravessavam-lhe o espírito dúvidas tão desconcertantes como esta: “Ocorrera-me que talvez a minha condição fosse perfeitamente normal, e que todos os rapazes gostariam de ser raparigas. Parecia-me uma aspiração suficientemente lógica [...]“.

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James/Jan é essencialmente uma pessoa feliz. Apesar da angústia que sentiu durante anos por achar que tinha nascido no corpo errado, aproveitou sempre o melhor possível o muito que a vida lhe deu – e mesmo o que um corpo de homem lhe ofereceu. Aos 17 anos ingressou como voluntário no Exército inglês, foi oficial do 9º Regimento de Lanceiros da Rainha – “paradoxalmente a vida militar sempre me atraiu”, escreve num capítulo de “Conundrum” em que confessa a sua admiração pelas “virtudes militares, a coragem, a força, a lealdade, a auto-disciplina” além de um fascínio especial por tanques.

Mais tarde tornou-se jornalista e percorreu o mundo em reportagem ao serviço da “Arab News Agency” do Cairo, do “The Times” e do “Manchester Guardian”. E se se sentia desconfortável no “Manchester Guardian” porque “era como trabalhar para uma mulher e não para um homem”, o “Times” agradava-lhe precisamente por ser “muito britânico e muito masculino”.

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Jan Morris parece ter, mais do que a maioria das pessoas, uma consciência aguda do sexo de coisas, de acontecimentos, de cidades. É através dessa perspectiva que lê momentos determinantes da sua vida como a expedição do topo do Everest, que acompanhou como jornalista em 1953. “O corpo masculino pode ser pouco generoso e pouco criativo de uma forma mais profunda, mas quando está a funcionar bem é uma coisa maravilhosa de habitar”, escreve a propósito desse momento em que sentiu que nada a podia derrotar. E, no entanto, aquele feito extraordinário deixava-a “insatisfeita, como provavelmente à maioria das mulheres”, porque era uma vitória no vazio – “nada fora descoberto, nada feito, nada melhorado”.

O casamento, os filhos, a operação

Encontrar Elizabeth Tuckiness mudou-lhe a vida. Foi um “encontro de iguais”. A descrição que faz é a de um grande amor e da descoberta de uma alma gémea. Casaram em 1949 e tiveram cinco filhos, três rapazes e duas raparigas. “Ouve-se agora falar no conceito de ‘casamento aberto’ [...] O nosso foi sempre um acordo desse tipo”, e “pela natureza das coisas, o sexo era subsidiário”.

Jan sabia que queria ter filhos e, não podendo ser mãe, assumiu com prazer o papel de pai, mesmo reconhecendo que nunca foi a típica figura paternal. Elizabeth soube sempre o “enigma” da vida do marido, e os filhos souberam, de forma gradual, mais tarde. “Espero ter-lhes dado, se nada mais, pelo menos uma compreensão do amor”, escreve.

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As reacções mudavam conforme o lugar do mundo em que se encontrava. “Os gregos pareciam muito divertidos. Os árabes convidavam-me para passear. Os escoceses pareciam chocados. Os alemães preocupados. Os japoneses não reparavam”.

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E assim James deu lugar a Jan. Só então, sentindo-se completa, percebeu o “quão profundamente tinha ansiado pelos braços e o amor de um homem”. Mas era “demasiado tarde” porque os homens que amara estavam “já casados, ou mortos, ou longe, ou indiferentes”.

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Aliás, tudo correu surpreendentemente bem. Jan acredita que foi assim porque faz parte da categoria dos “transsexuais do tipo clássico”, aqueles para quem o que está em causa não é uma questão sexual, aqueles que “não oferecem nenhum objectivo racional às suas compulsões”, mas limitam-se a ser “guiados, cegamente, e sem alternativa, até à mesa de operações”.

Nunca se arrependeu da decisão que tomou. Aliás, escreve, “se me visse presa nessa gaiola outra vez, nada me afastaria do meu objectivo, por muito assustadoras que fossem as perspectivas, por muito pouca que fosse a esperança, correria a terra em busca de cirurgiões, subornaria barbeiros ou abortadeiras , pegaria numa faca e fá-lo-ia eu própria, sem medo, sem dúvidas, sem pensar duas vezes”.

E aos que a invejam acreditando que tomou em mãos o seu destino, e lhe citam W. E. Heney – “I am the master of my fate,/I am the captain of my soul”, responde que isso é uma ilusão e que se avançou por aí foi porque esse era o único caminho que lhe era possível percorrer.

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