foto: José Mota / JN

foto: José Mota / JN

É de ganir, sim. Senão, vejamos: o que aconteceria se eu me virasse para vocês e dissesse que achava a Bíblia uma leitura pouco aconselhável para as crianças? Nada. E se dissesse que o deus que lá nos mostram é um pesadelo? Nada. (Apesar da parte do pesadelo ser verdade, porque a verdade é que o deus ali descrito está sempre pronto a castigar, à esquerda e à direita, com requintes de malvadez que ainda não nos explicaram se são mesmo dele ou de quem o interpreta e usa como arma de arremesso…)

O certo é que não acontecia nada porque o Tangas não ganhou nenhum Nobel e portanto é perfeitamente passível de desprezo. O que é que as pessoas ganham em desafiar as minhas opiniões? Nada. E o que é que ganham desafiando o Saramago? Três minutos de tempo de antena.

O certo é que o Saramago escritor e o Saramago pessoa tem o direito de expressar a sua opinião sobre qualquer livro, religioso ou não. E não comete nenhum crime.

Há alturas em que não falar ou não emitir uma opinião é crime. Por exemplo, quando um chefe de governo, um governo inteiro, um partido inteiro e uma mão muito cheia de pessoas muito respeitáveis (ou talvez não tanto), insistem em nada dizer ou opinar sobre os direitos, ou falta deles, de alguns cidadãos a quem juraram proteger e defender quando assumem cargos públicos. Isso é um crime.

Quantos defensores da Bíblia e da sua justiça e de um deus que se assume como a personificação do Bem se insurgem contra esse silêncio? Nenhum.

Então o que é isto agora com o escritor/cidadão José Saramago? Estarão a pensar exigir-lhe uma indemnização por danos morais e psicológicos? E quem indemniza as criancinhas a quem dizem, ameaçadoramente, “Deus castiga!”? Ninguém.

(já agora, vejam aqui)