
foto: José Mota / JN
É de ganir, sim. Senão, vejamos: o que aconteceria se eu me virasse para vocês e dissesse que achava a Bíblia uma leitura pouco aconselhável para as crianças? Nada. E se dissesse que o deus que lá nos mostram é um pesadelo? Nada. (Apesar da parte do pesadelo ser verdade, porque a verdade é que o deus ali descrito está sempre pronto a castigar, à esquerda e à direita, com requintes de malvadez que ainda não nos explicaram se são mesmo dele ou de quem o interpreta e usa como arma de arremesso…)
O certo é que não acontecia nada porque o Tangas não ganhou nenhum Nobel e portanto é perfeitamente passível de desprezo. O que é que as pessoas ganham em desafiar as minhas opiniões? Nada. E o que é que ganham desafiando o Saramago? Três minutos de tempo de antena.
O certo é que o Saramago escritor e o Saramago pessoa tem o direito de expressar a sua opinião sobre qualquer livro, religioso ou não. E não comete nenhum crime.
Há alturas em que não falar ou não emitir uma opinião é crime. Por exemplo, quando um chefe de governo, um governo inteiro, um partido inteiro e uma mão muito cheia de pessoas muito respeitáveis (ou talvez não tanto), insistem em nada dizer ou opinar sobre os direitos, ou falta deles, de alguns cidadãos a quem juraram proteger e defender quando assumem cargos públicos. Isso é um crime.
Quantos defensores da Bíblia e da sua justiça e de um deus que se assume como a personificação do Bem se insurgem contra esse silêncio? Nenhum.
Então o que é isto agora com o escritor/cidadão José Saramago? Estarão a pensar exigir-lhe uma indemnização por danos morais e psicológicos? E quem indemniza as criancinhas a quem dizem, ameaçadoramente, “Deus castiga!”? Ninguém.
(já agora, vejam aqui)



2 comments
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Outubro 25, 2009 às 8:55 pm
pilantra
Ora bem, dizes o que penso.
Eu só acrescentaria as duas grandes iras que irritam os intelectuais deste país:
Saramago recebeu o Nobel e Saramago é comunista. Estas duas é que não lhe perdoam mesmo!
Não sou fã literária de Saramago e se tivesse de atribuir o Nobel a um português não seria a Saramago (muito menos ao Lobo Antunes, que fique claro!) mas até acho que Saramago tem sido um exemplo enquanto Nobel: pela paciência para aturar o genético preconceito português, pela sua frontalidade até quando assume posições contra o seu Partido, pela constante disponibilidade para o diálogo seja sobre o que for e com quer quer que seja. Só isso já é bastante.
Na sua idade e na sua fragilidade fisica ninguèm estranharia que estivesse sossegado no seu canto, quando muito escrevendo as suas memórias.
Mas acontece que Saramago está vivo, lúcido, continua a escrever e a dizer o que pensa!
lol
Forte e bíblico pecado!
Outubro 29, 2009 às 11:36 am
Belemdeandrade
Nem Saramago nos conta nada novo, nem a igreja emprega argumentos novos para defender a sua postura. Acho que deixei de acreditar nos dogmas quando descobri que as dores do parto que a mulher sofre, som o castigo que Deus deu a Eva por comer da fruta proibida. A minha cadela sofreu no seu ultimo parto, que culpa tem ela do meu pecado?. De qualquer forma, eu, como tod@s @s menin@s, nasci com o pecado original. Sou mulher, lésbica, exijo o meu direito a decidir livremente si quero abortar e nem vou por acaso consentir, que um Deus homófobo, vingativo, cruel e ditador, me convença do contrario. Os meus filhos leram a bíblia, sim, quero que vejam por eles mesmo o que sempre nos contam e nem sempre como deveriam.