Ora, estava eu aqui tão sossegada na minha vida e fui meter-me nisto para quê? Mas por que é que eu não fiquei como estava? Mal por mal….
Se bem que no começo o hamor engane e se comporte como ovelha, toda a gente sabe que mais tarde ou mais cedo o lobo come a ovelha, a avozinha e, se não nos pusermos a pau, nós também marchamos.
Sem uma explicação científica ou mesmo filosófica, toda a gente ambiciona o hamor. Encontrar o hamor, de preferência o grande hamor. Isto desde logo nos remete para a possibilidade de quantificar o hamor, mas disso falaremos outro dia.
Então, andamos nós de olho aberto sem saber bem o que procurar mas certos que o destino nos colocará na frente o imenso hamor.
Quando ele aparece, disfarçado com o seu pêlo branquinho e carinha doce, rendemo-nos às evidências. Era mesmo aquilo que nos faltava. Em casos graves de loucura, conseguimos acreditar que é a nossa outra metade. Possivelmente a metade da insanidade, penso eu escarninha.
Lá andamos com os sacos às costas em fins-de-semana alucinados, gastamos um horror de dinheiro em jantares românticos e presentes que acreditamos serem únicos, fazemos uma ginástica financeira apreciável para juntar os trapos e, quando finalmente pensamos que fomos os mais bafejados do mundo e nos preparamos para calçar as pantufas e sermos felizes, o lobo já está a afiar os dentes.
Passado pouco tempo, o que tínhamos por certo está agora transvertido de perene e por um fio.
Quase sem darmos por isso, começamos a lembrar outros tempos em que éramos livres para sentir, pensar, procurar e, sobretudo, ser.
O puzzle ajardinado do hamor começa a perder as peças, já não encontramos o sol e as flores antes viçosas e radiantes, aparecem agora sem pétalas e quase murchas. E, mais importante que tudo, nós já não estamos lá, nem mesmo em sombra.
Aos poucos nada em redor faz sentido e tudo o que queremos é recuperar a liberdade de ser quem éramos nos dias de outrora. Éramos tão, tão felizes…..e não sabíamos.
E só então nos damos conta que não queremos o hamor para nada mas sim a esperança de um dia o encontrar.
É o desafio, ou o mais comummente descrito como nunca se estar bem como se está.





14 comentários
Comentários feed para este artigo
Fevereiro 26, 2010 às 1:24 pm
Luanda69
A pergunta é pertinente! Para que te quero? Para nada, claro, é o que todos pensamos. Mas a coisa, como escreve, não é mesmo nada clara pois anda meio mundo à procura do “hamor” e outro meio às voltas sem saber o que fazer com ele. Tenho para mim que é uma doença, uma infecção, uma praga e como tal deveria poder ser curada com comprimidos, xaropes, vacinas ou mesmo com preces e esconjuros.
Camões é que percebeu bem a patologia da coisa:
- “é fogo que arde sem se ver” – azia
- “é ferida que dói, e não se sente” – gangrena
- “é dor que desatina sem doer” – depressão
- “é um andar solitário entre a gente” – esquizóidia
- “é querer estar preso por vontade” – masoquismo
Era preciso dizer mais? Não devia, mas é… Obrigada pelo alerta! Vou já dar as rosas à empregada e desmarcar o jantarinho à luz de velas. Mas posso ficar com os chocolates, certo?
Fevereiro 27, 2010 às 1:09 pm
tangas
eu cá não alterava nada se fosse a si. há que respeitar combinações e planos – mostrar respeito é coisa muita linda…
Fevereiro 26, 2010 às 1:29 pm
Tamborim
Hum, que isto lembra-me a Marina Lima a dizer que talvez o fim não seja nada e a estrada seja tudo. Mas então anda a gente nesta trabalheira para concluir que nada quer ter, mas que apenas quer querer? Cebion não seria mais lesto e prestimoso em questão de apetites/revigoramento? Ademais, ainda daria uma mãozinha em caso de resquício teimoso da patologia supra e camonianamente descrita pela compincha Luanda (69?). Bah. Amei a verve do post que, se non è vero, é bene trovato.
Fevereiro 27, 2010 às 1:14 pm
tangas
confesso que tive de googlar a tal marina lima e não vou descrever aqui a reacção que tive aos vídeos dela no youtube…
Fevereiro 27, 2010 às 1:32 pm
Tamborim
Fevereiro 26, 2010 às 1:49 pm
pagunatanga
Cada crónica que passa, mais contente fico. O hamor começa a ser visto como a coisa a evitar que é.
Menina Luanda, é claro que deve ficar com os chocolates…..e com as rosas. Do jantar romântico nem falo, só a ideia me dá náuseas.
Menina Tamborim, deixe-se lá dessas trabalheiras à toa e canalize as suas energias para o que interessa.
E o post é vero, claro. Consegue imaginar a quantidade de gente que engoliu em seco?
Fevereiro 27, 2010 às 1:15 pm
tangas
vou aqui dizer uma verdade comprometedora: a menina está sempre contente. para que raio sugere às primas que fica mais isso?
Fevereiro 26, 2010 às 6:02 pm
Luanda69
Se diz que não faz mal então também fico com as flores… E estive cá a pensar que se calhar também não é lá muito bonito desmarcar um jantar tão em cima da hora. Não acha? Não quero que pensem que sou mal-educada.
Assim vou mas deixarei bem clara a minha posição. Que o ‘hamor’ é o ópio do povo e coisa e tal. Ser pedagógica, no fundo.
E depois é sexta-feira, estou cansada, não quero pensar em cozinhados e louça suja…
Fevereiro 27, 2010 às 1:18 pm
tangas
ajuizada decisão
Fevereiro 26, 2010 às 6:08 pm
Tamborim
Dilecta Pagu, tenho estado até agora a imaginar…o,o
Fevereiro 27, 2010 às 1:28 pm
Tamborim
Ai eu tenho de intervir, ai agarrem-me: a Marina Lima é uma das mais maravilhosas compositoras brasileiras, e intérprete insigne. A meu ver e ouvir, claro
Meninas, levantem-se em harmas ihihih
Fevereiro 27, 2010 às 1:36 pm
tangas
está a presumir o pior cenário? eheheheh…
Fevereiro 27, 2010 às 3:34 pm
Tamborim
Ahhhhhhhhhh…já nos entendemos ihiihih Des-harmar!-)
Fevereiro 27, 2010 às 3:56 pm
pagunatanga
Isto estava a correr tão bem e tinham logo que me desassossegar o espírito….
Até me veio à mente que poderia escrver uma crónica sobre a Marina Lima mas temo que fechassem o blog à Tangas….rsrsrs
Mas menina Tamborim, nada de des(h)armar. Nem pense numa coisa dessas. O perigo ronda em cada esquina, ou mesmo em cada”googlamento”…rsrsrs