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Um tema que enche jornais e televisões, debates e controvérsias, que chega a raiar demissões parlamentares é o orçamento. Ora, creio eu, o papel do orçamento no hamor é tão importante como na figura (in?)suspeita do Estado.
Quero com isto dizer que a manutenção de algum período temporal do hamor, por curto que seja, está directa e proporcionalmente relacionado com aquilo que se estiver disposto a investir nele.
Mas não se pense que é apenas uma questão de quantidade. É muito importante não só o valor do investimento como a sua distribuição.
O muito e mal distribuído pode ser bem pior que o pouco mas que chegue para todas. As necessidades, leia-se!
Vejamos. Numa relação hamorosa há milhentos asteriscos, quero com isto dizer, uma enorme quantidade de coisas a que se tem que dar atenção. Ao hamor propriamente dito, à nossa família, à familia da outra, aos nossos amigos, aos amigos da outra, ao trabalho, nosso e da outra, às actividades desportivas em toda a sua diversidade que vão da prática diária à assistência exaustiva dos vários canais da Sport Tv e da Eurosport, ao ócio, ao tempo a dois, aos programas de fim-de-semana, às compras, às finanças da casa, à saúde, ao humor, às queixas, aos perdões, aos projectos, em suma, à lufa-lufa das vinte e quatro horas do dia.
E para nós? Sim, sim, para o nosso euzinho não fica nada? Ora, logo para nós que sempre fomos a coisa mais importante das nossas vidas,
E aqui, minhas amigas, é que está o sarilho. De uma forma ou de outra, o que temos para dar não é suficiente para tudo isto. Os por quês, cada um sabe dos seus…….e das suas.
O que de facto acontece é que, bem ou mal, cada uma de nós arranja sempre algumas horas para o “eu”, com muito esforço ainda se conseguem uns minutinhos para o “teu”, mas como não somos de elástico, acaba por não haver paciência, dedicação, espaço e tempo para o “nós”. O hamor não chega para tanto.
Afinal a ILGA-Portugal não mudou de nome e não foi apenas o Correio da Manhã que disseminou o erro, partilhado pelo menos pela Lusa e pelo Diário de Notícias.
A autora do artigo do Correio da Manhã, Sónia Trigueirão, teve a gentileza de retribuir o meu telefonema e explicar que a tradução da sigla não foi dela, mas sim do site da ILGA Portugal. Pronto, lá fui ao site da dita e lá está, no banner, com todas as letras, “Intervenção Lésbica, gay, bissexual e Trangénero.
Queres ver que a ILGA Portugal mudou de denominação e não dei conta, pensei eu. E, ainda ao telefone com a jornalista, fui ao site, aos estatutos, à denominação e, lá está: ILGA Portugal. Não mudou, não mudou.
Não mudou, mas a frase do banner, assim disposta ao pé do logotipo com as letrinhas em espelho, fez com que os órgãos de comunicação social colassem à designação da associação um slogan e não a sua verdadeira designação, que é International Lesbian and Gay Association – Portugal, que é como quem diz, delegação portuguesa da ILGA.
Agora vem a pergunta: os jornalistas erraram? E a resposta: erraram sim. Porque, se bem que induzidos em erro pelo sítio da associação, têm obrigação de ir ao fundo da questão e fazer a mesma pergunta que me pus: então a ILGA-Portugal mudou de denominação? E aí descobririam a resposta: não mudou, mas como esta frase vem no sítio deles, deixa cá pegar no telefone e confirmar. Isso aconteceu? Não.
A culpa é do banner, está visto. E não só.
De boa vontade está o inferno cheio, como diz o povo, porque o que começou por ser um artigo bem intencionado e informativo, sobre a possibilidade de, nas declarações de IRS, a associação já poder ser contemplada em igualdade de circunstâncias com outras instituições de solidariedade social, acabou por ser entendido como “Donativos para gays e lésbicas” – um título infeliz que, em vez de alertar para mais um passo para a igualdade, induz os leitores sem tempo para a esmiúça a pensar que agora podem doar euros a gays e a lésbicas e não a uma instituição que defende os seus direitos.
E agora, como se desfaz a confusão?
Não é por nada, mas quando um jornal nacional publica uma coisa destas:
Correio da Manhã, 23 Março 2010 – 00h30
IRS
Donativos para gays e lésbicas
A ILGA – Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero – integra pela primeira vez a lista das entidades autorizadas, pelo Ministério das Finanças, a receber parte dos impostos, 0,5%, dos contribuintes.
Leia mais sobre os donativos deste ano do IRS na edição de hoje do ‘Correio da Manhã’.
Sinto-me, claro, compelida a escrever para lá uma coisa destas:
| Assunto: | Vosso exclusivo “Donativos para gays e lésbicas” |
|---|---|
| Data: | Tue, 23 Mar 2010 10:51:14 +0000 |
| De: | tangas <tangaslesbicas@gmail.com> |
| Responder-Para: | tangaslesbicas@gmail.com |
| Para: | direccao@cmjornal.pt |
| CC: |
Exmos. Senhores Octávio Ribeiro, Armando Esteves Pereira e Eduardo Dâmaso,
Em referência ao exclusivo em epígrafe, da autoria da senhora Sónia Trigueirão, gostava de fazer os seguintes rapros:
1. A ILGA não é a “Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgender de que fala o artigo, mas sim a Internacional Lesbian and Gay Association.
2. Será que a lista do Ministério das Finanças é a responsável pela gaffe?
3. E a ILGA de que falam não é com certeza a associação internacional, mas a ILGA-Portugal, sua associada.
4. Depois, nenhum gay e nenhuma lésbica vão receber donativos em nome individual, mas sim uma associação que defende os direitos de gays e de lésbicas, assim como de bissexuais e trangenders.
5. Se a senhora Sónia Trigueirão deixou escapar estas miudezas, apesar de estes temas estarem já bastamente divulgados e debatidos, qual é o papel do editor, do chefe de redacção e dos directores nestes casos?
6. Qual é o papel da língua portuguesa nos meios de comunicação como o de V. Exas.?
A seguir, o João Paulo da PortugalGay, teve a gentileza de esclarecer “que na listagem do Ministério das Finanças apenas aparece: 503777331 ASSOCIAÇÃO ILGA PORTUGAL.” O João Paulo acha que a minha missiva não esclarece a diferença entre a ILGA e a ILGA-Portugal. Eu creio que a questão não é essa, mas sim a ignorância do que é a Associação, independentemente da designação. Ora, sendo os jornalistas pessoas a quem é exigido, pelo menos, o 12º ano para poderem ter uma carteira profissional e o respeito por um código deontológico, já para não falar de um excelente domínio da língua portuguesa e que a autora da ‘caxa’ pertence à secção Grande Reportagem do CM, que mais deveria eu ter posto no meu singelo email?
Isto é que é bom: primavera e café com leite para começar o dia.
Coisas menos boas: o carteiro acordou mal disposto um destes dias e achou que devia mandar para trás um livro que me foi enviado por uma prima…
Intolerável: o que aconteceu aqui há dias a umas primas que têm um restaurante muito agradável aqui para as minhas bandas. Eis que entra por ali dentro um grupinho de outras primas, uma das quais começa logo por abordar uma das pikenas com um “acho que te conheço de algum lado”. Lugar comum à parte, aquilo foi uma forma de se impor, tipo “somos todas primas, viva o nacional porreirismo!”. Ora, ver uma pessoa na rua ou mesmo num bar de primas e identificá-la não é conhecer. No entanto, usar isso para forçar algum tipo de intimidade é abuso de poder, ou discriminação – a tal coisa de que as primas se queixam bastas vezes e que algumas não têm pejo de usar nestas ocasiões.
Completamente patético: na mesma altura, no mesmo restaurante, duas primas do tal grupinho visitante resolvem levantar-se e desatar aos beijos como se o mundo fosse acabar e a melhor sorte que lhes podia calhar a seguir fosse irem comer bombas para o Vietname. O que não sucedeu, evidentemente, mas deixou as primas que gerem o restaurante a braços numa situação no mínimo desagradável. Ora, desatar aos beijos em público num restaurante não é uma forma de coming out, mas sim confrontar os restantes comensais com a desagradável intimidade da troca de fluidos, ao mesmo tempo que tentam engolir a garfada que se levou à boca. Por muito moderno que se seja, há limites.
Por outro lado, beijos em público para efeitos de coming out não são num restaurante de primas com quem não se tem intimidade nenhuma, mas se sabe que é, definitivamente, território seguro. Na minha opinião, esses beijos públicos devem ser dados em casa, com as famílias, com o marido que em alguns casos nem sequer sabe que a mulher é prima, nas escadas do prédio e à frente dos vizinhos, à frente dos pais e dos irmãos machões, na mercearia do bairro, etc. Isso sim, é que é coming out. O resto é provocação gratuita e à custa dos outros.
Se alguém tem a ilusão de que a pessoa com quem vive e tem uma relação estável é o grande hamor da sua vida, está redondamente enganado.
Pode parecer duro e atroz ler isto assim e ainda muito mais sentir que é verídico mas também, adultos que somos, já sabemos há muito tempo que a verdade é cruel.
O grande hamor da vida é um bilhete para a demência, isto é, conduz-nos irremediavelmente para algo que não resulta, assim a modos que uma espiral da parvoíce.
Somos assolados por sensações estranhas, tudo o que sentimos, queremos, desejamos e sonhamos é vivenciado de forma absolutamente néscia.
É assim como quando estamos cheios de dores e como última opção tomamos um Tramal, analgésico da família dos opiáceos, que atenua a dor mas nos transporta para um mundo onde se vê tudo em dobro e a realidade chega até nós numa forma inexistente.
O grande hamor desinquieta a alma, enlouquece o corpo, faz tudo tão forte e denso que se torna impossível sobreviver a essa onda de emoções que ameaça fazer ruir a nossa sanidade mental.
O grande hamor é aquele para onde nos remete, tão rápido e mortal como um tiro, um pôr-do-sol maravilhoso, uma brisa morna de Primavera, um perfume que passa por nós na rua.
O grande hamor não resiste à loucura dele próprio e por isso se consome e acaba. O grande hamor não cabe em lado nenhum, não se agarra, não se doma, não se domestica, não faz promessas que sabe impossíveis de cumprir.
Para essas “coisas banais”, o que assenta que nem uma luva é o maior hamor, aquele com quem estamos, conversamos, rimos, fazemos projectos, vamos às compras, de férias, ao cinema, com quem passamos os finais de ano, os aniversários dos amigos e família.
O maior hamor é aquele que nos faz felizes. O maior hamor é aquele com quem queremos ficar toda a vida enquanto desejamos nunca mais voltar a cruzar com o grande hamor.
Se por acaso isso acontece, os alicerces da nossa suposta estabilidade emocional tremem como varas verdes, fraquejam, balançam, ou melhor, sacodem, ao ritmo do nosso coração que ameça saltar do peito e fugir para onde afinal nunca saíu.
O grande hamor do mundo não existe. O maior hamor do mundo, com sorte, muita sorte, é esse que temos ao lado.
A diferença entre o grande hamor e o maior hamor é, em palavras, muito ténue e eu temo que não tenha ainda sido inventada a terminologia para a explicar, ou que eu não consiga, mas tenho a certeza que quem ler esta crónica sabe muito bem o que quero dizer.
(Activista séria não tem ouvidos…)
Fui ali à praça às couves e às maçãs e estavam duas matronas a arrazoar:
- Olhe que agora até o Papa vem aí pra casar os homeségzuais.
- Pois isto é que está uma pouca vergonha, é o que é.
- Até a vizinha da minha prima, que é lésbisca, anda pr’ aí a dizer que vai engravidar e coisa e tal. Havia de ser minha filha… Um pano encharcado nas trombas, era o que era.
- Deixe lá, que o filho do meu antigo patrão anda no mesmo, com o namorado de trás prá frente a comprar fraldas descartáveis e biberões pró bebé que há-de vir. Olhe que nunca pensei ver o dia em que dois homens pudessem engravidar.
- Mas não podem, olha que coisa. Diz que vão à sistência buscar as crianças.
- E dão-lhas?
- Com tanta fomeca, que quer? No meu tempo iam buscar-nos para nos pôr a dias. Agora é para passearem com eles com ténis de marca e chatearem os professores.
- É por essas e por outras que o País está o que está.
- É no que dá. Ó vizinho, quanto custa o carapau?
Hoje não é segunda-feira, embora me apeteça bater em alguém. Será pelo facto do diploma do casamento entra pessoas do mesmo sexo andar a saltar de mão em mão como uma batata quente?
Depois dão-lhe com dias disto e daquilo, como o dia da mulher e outras celebrações que são apenas indicativas de que ninguém tenciona considerar ninguém como igual, desde que haja uma oportunidadezinha para não o fazer.
Mas hoje, como me apetece bater em alguém, vou filar as queridas e os queridos que me mandam mil e um pedidos para me juntar ao grupo assim e ao grupo assado, para ajudar estes e aqueles, a favor disto ou daquilo.
Que o façam por desejo de solidariedade e porque não param para pensar que a maioria dessas iniciativas não serve para rigorosamente nada, eu entendo.
O que eu não entendo é que me peçam para me juntar a grupos contra isto e contra aquilo, nomeadamente, contra gente que é contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, que escreve livros sobre isso ou que se manifesta contra os lgbt com uma incauta escolha musical de canções que são símbolo da comunidade contra a qual se declaram.
Que julgam? Que porque sou lésbica estou sempre contra isto e contra aquilo? Contra a liberdade de expressão de quem não concorda comigo? Por quem me tomam? Isso é uma forma de me chamar nomes?
A liberdade de dizer aquilo que entendemos existe e felizmente é uma realidade em Portugal. Foi graças elas que chegámos até aqui e que pudemos protestar direitos que antes disso ninguém achava que tínhamos. A que propósito tentaria eu cortar o pio a quem não concorda comigo?Pelo amor da santa…
- Sim?! Sou eu! Temos que falar rápido, ela está quase a chegar.
- Ok. Então?! Então?! Já lhe contaste?
- Não, ainda não.
- Mas porquê?
- Porque não.
- Mas não ias aproveitar o fim de semana para pôr tudo em pratos limpos?
- Sim, sim, mas não deu.
- Não deu porquê?
- Por que não.
- Isso já está a demorar mais que o previsto…
- Mas o que é que tu queres que eu faça?
- Que lhe digas, diacho!!!
- As coisas não são assim tão fáceis.
- Que coisas?
- É que ela está com problemas no emprego, a mãe também foi operada o ano passado, sabes como é…
- O que sei é que já andas a arrastar isto há que tempos. Decide de uma vez por todas o que queres.
- A questão não é essa. Sabes muito bem que quero ficar contigo mas por outro lado há uma relação de oito anos que não posso abandonar de um dia para o outro.
- Então e quando é que tencionas dizer-lhe?
- É melhor deixar passar um tempo, agora é complicado. Só te peço mais uns dias, umas semanas…..
- Quanto tempo?
-Não sei, não me pressiones por favor, isto é tão difícil para mim como para ti.
- Quanto tempo?
- Mas o que é que isso interessa? Estamos juntas sempre que é possível, não te chega?
- Não, não chega, tinhas dito que lhe contavas antes do Verão passado e já estamos em Março.
- Mas tu sabes que não foi por falta de vontade. Só que as coisas complicaram-se, não se pode acabar um hamor assim do pé para a mão….
- Sabes que mais? Quando acabares essa história, liga-me.
- Vá lá, não faças isso. Não me podes deixar, eu sou louca por ti….
- …………………………………..
- Bom, falamos depois, ela está a entrar, vai pensando onde é que vamos almoçar na 5ª feira.
(Uns dias a seguir ao Dia Internacional da Mulher.)
- Então, pá? Não te esqueceste de oferecer flores à tua mulher?
- Não. Mas mais valia ter ficado quieto.
- Então? Que se passou?
- Em vez de me agradecer, ela perguntou-me se os cabrões que inventaram o dia da mulher também tinham a consciência pesada como eu.
- Mas porquê, pá?
- Porque quando dão alguma coisa é porque já as tramaram.
- Bem, não se pode dizer que seja parva.
- Isso não é. Mas disse mais…
- O quê?
- Que se fosse ela a mandar havia um dia do homem.
- Eheheh… Afinal a tua mulher é uma safada.
- Espera. Um dia mundial do homem assim como um dia de caça livre.
- Hã?
- Um dia para elas dispararem sobre eles à discrição, sem merdas de sorrisos e outras matreirices.
- Eh, pá!…
- Disse que as mulheres têm mais que fazer do que andar a perder tempo com rodeios.
- A tua mulher é perigosa, meu.
- Por que é que julgas que lhes oferecemos dias e flores em vez de direitos iguais?
(Piada de salão contada à mesa de um almoço de quarta-feira só para homens.)











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