Escapa-me por completo o gozo intrínseco das pessoas que na praia colam a toalha à nossa ou das que, na fila dos supermercados, só falta descansarem o cotovelo em cima dos nossos ombros. Talvez por isso nunca me ocorresse casar entre os noivos de Santo António, se fosse hetero, nem fazer declarações num arraial, por mais orgulhosa que fosse.
Essa, no entanto, é uma iniciativa lançada pela Ilga Portugal, que amanhã se presta a pôr a concurso o pedido de casamento mais original do Arrail Pride, com direito a prémio e tudo. Não esperaria melhor da Caras, mas tenho pena que seja a Ilga a promover uma exibição populista dos afectos entre pessoas do mesmo sexo, assim como tenho pena que a associação tenha igualmente estado por trás do casamento da Teresa e da Helena para toda a comunicação social.
Haverá sempre pessoas que, com a mesma simplicidade das duas, não se importem de transformar um momento importante das suas vidas numa foto-legenda de pé de página, para alimentar uma imprensa que jamais esgota a sua sede de muito pequenos faits divers.
Nada disso teria importância se, ao lado dos eventos de feira se investisse em informação com mais lastro. Mas parece que quem manda nos média há muito decidiu que o povo só gosta de trivialidades, demitindo-o assim do livre arbítrio e praticando sem pruridos o que qualquer aspirante a tiranete deliraria pôr em prática tão impunemente.






9 comentários
Comentários feed para este artigo
Junho 26, 2010 às 11:41 am
Tamborim
Claro. Há delírio, populismo, parolice e mau gosto em todo o lado…é a igualdade.
Junho 26, 2010 às 12:01 pm
tangas
é mesmo, menina tamborim. alguém uma vez ficou muito chocado quando eu disse que a democracia nivela por baixo. mas se é esse o preço a pagar pela liberdade, seja, embora eu creia que os média podiam recuperar um pouco a sua missão de informadores/formadores, em vez de optar apenas pela venda de electrodomésticos…
Junho 27, 2010 às 1:28 pm
luis oliveira
Finalmente estás a chegar lá querida amiga…e em continuação, como é agora? “obrigatório a orientação sexual nos sensus”????Porquê?
Junho 27, 2010 às 2:03 pm
tangas
estás enganado Luís. mais uma vez. mas não te preocupes, que não te vou contrariar, porque já percebi que não há maneira de chegares lá. achas que o paternalismo é legítimo por todas as razões erradas e, como estás coquana, não deves mudar. já em miúdo eras reaccionário…
Junho 27, 2010 às 1:43 pm
righpa
Acho que efectivamente o nivelar por baixo é realmente uma evolução triste de ser assistida, mas penso que infelizmente existe muita gente que vive das histórias de vida de outros, do consumo rápido e simples que não obriga a viver para se sentir … penso que os média respondem a isso indo com a corrente em vez de fazer a corrente, informar deixou de ser o objectivo para passar a ser o consumo rápido sem viver.
Esta é apenas mais uma demonstração disso, e sim, deixa-me a pensar !!!
Junho 27, 2010 às 2:05 pm
tangas
note que o nivelar por baixo para mim tem a vantagem de pôr toda a gente em pé de igualdade. essa é a contrapartida óbvia para direitos iguais para todos. e isso é a mais real e valiosa conquista da democracia. é como se zerássemos tudo para construir a partir daí. e podemos fazê-lo sempre que disso houver necessidade.
Junho 27, 2010 às 2:06 pm
tangas
já os média, deviam assumir a sua vocação de entretenimento e não de informação. porque disso já se divorciaram há que milénios…
Junho 27, 2010 às 2:29 pm
righpa
Essa é uma boa forma de aceitação, em vez de tentar mudar constatar que é assim e tentar construir do nada … é uma outra forma de encarar as coisas. Não sei se a mais evolutiva, mas pelo menos permite não gastar esforços com o que já é.
A mim, confesso, continua-me a fazer confusão a nova vocação que os média vêm cada vez mais a assumir e a forma como a adesão a essa nova vocação tem sido em massa.
Junho 30, 2010 às 2:57 pm
pagunatanga
A mim, parece-me totalmente descabido que o hamor entre pessoas do msmo sexo seja trazido assim à praça pública, como se de uma qualquer forma de ser alienigena ou bizarro se tratasse.
Concursos de pedidos de casamento? Mas isto vem a ser o quê? Um festival? Uma mostra de cinema barato? Uma declamação de parolice?
Culpo mais as pessoas que permitem que a sua vida seja devassada do que aqueles que ganham dinheiro a colocar o alheio exposto nas revistas e jornais, com intenções pouco claras.
Cada um sabe de si mas se o hamor é assim uma coisa tão importante, não seria melhor tratá-lo com o carinho, desvelo e porque não a sobriedade que merece?