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- Truz! Truz! Truz!
- Quem é?
- Sou eu, o hamor. Posso entrar?
- O hamor?! Aqui? Mas o que é que vem a ser isto?
- Olhe, para dizer a verdade nem eu sei, mas mandaram-me bater aqui.
- Hummmm! Isto só pode ser brincadeira. Diga-me cá, isto é para os apanhados?
- Bom, só se a apanhada for você. Eu só estou a cumprir a minha função.
- Mas o que é que eu faço consigo?
- Sei lá. Acho que deve fazer o mesmo que os outros e as outras. Primeiro diverte-se, depois manda-me embora, chora e espera pelo próximo colega meu.
- E isso tem alguma lógica? Ficar consigo e depois mandá-lo dar uma curva?
- Eu também acho que não mas o que quer que lhe faça? O patrão diz que isto é a vida ou lá o que é….
- Não, não e não. Não me parece nada boa ideia. Olhe, porque é que não vai fazer uma visitinha ali à rua de baixo e me deixa em paz?
- Porque estas coisas não são como a gente quer. Isto acontece, é assim a modos que um furacão, uma tempestade, um tsunami, ninguém os deseja nem manda vir mas eles apresentam-se avassaladora e desajeitadamente e deixam marcas.
- Aqui entre nós, diga-me lá só mais uma coisinha. Isto é negociável? Você podia fazer um preço e eu…
- Não se preocupe com isso. Pagará mais cedo ou mais tarde, é sempre assim. É bom que esteja preparado para isso.
- Imploro-lhe! Por favor! O que é que eu posso fazer para se esquecer de mim e fazer de conta que não me viu?
- Ah! Não sabe a quantidade de gente que já me pediu o mesmo….lamento! Parece que as pessoas têm mesmo que passar por isto.
- E se eu me recusar? Se fugir?
- Para onde? De quem?
- Não sei, não sei, deixe-me só pensar um bocadinho a ver se me habituo à ideia. Entre, entre, não fique aí especado à porta, já que não há outro remédio….
No sábado passado, estava eu de rolo em punho a dar a primeira de mão num muro com algumas dezenas de metros, quando uma pequenina de seis anos, filha de um quase primo da aldeia, me fez a seguinte pergunta: “porque é que os teus pais estão juntos?”
Rapidamente lhe passei o rolo para as mãos rechonchudas e pequenas e lhe disse como deveria actuar na obra mas a expressão persistente dela indicou-me que queria uma resposta. Pigarreei, abri e fechei a boca várias vezes, abanei a perna lateralmente o que em mim é sinal de alguma impaciência misturada com tensão e por fim lá arenguei qualquer coisa do género, “é pá, é a vida, sabes como é, as pessoas casam e às vezes ficam juntas, bora lá pintar mais um pedacinho para ver se despachamos isto hoje”.
Enquanto ensopava o pobre do rolo afanosamente no alguidar da tinta, com muito mais vigor que o necessário, perguntava-me em silêncio tenso, se a míuda teria entendido alguma coisa.
Nem cinco minutos e mais dois metros de muro tinham passado quando eis que veio a estocada final. “Olha, porque é que os meus pais se separaram?”
Esborrachei o rolo contra o muro à procura da resposta. Deixei passar uns longos segundos para ver se ela desabelhava dali mas qual o quê. Lá estava a figura mínima, imóvel, seráfica, com uns olhos inquietos e inquisitivos a trespassarem a minha aflição.
Como é que eu agora me safava daquilo? Recorrer de novo à manobra do rolo não me pareceu boa ideia. Vai daí, ganhei tempo, tossiquei, limpei o suor que me jorrava em bica, voltei a abanar a perna e com um ar professoral e entendido na matéria, saí-me com este miminho elucidativo:
“É pá, sabes como é (como se ela soubesse…ou eu……) estas cenas do hamor são complicadas, os adultos são esquisitos, às vezes ficam juntos, outras vezes separam-se, mas uma coisa não é melhor que a outra, entendes? É diferente mas no fundo é igual.”
Esta última frase então é de arrasar. Sentem o drama?
E, enquanto lha dava uma pancadinha cúmplice no ombro, não me atrevi a perguntar outra vez se ela tinha percebido pois tive medo da resposta.
Agarrei no balde da tinta e no rolo e zarpei dali a toda a mecha.
Longe vão os tempos em que o poder dos sentidos fazia realmente sentido. Ver, ouvir, cheirar , apalpar e degustar tinha o condão de despertar verdadeiras tempestades de emoções e delírios. E de parvoíces, acrescento eu.
Aquele olhar de soslaio, o sorriso dissimulado por trás de segundas e terceiras intenções, o leve toque das mãos mais que premeditado mas que deve parecer casual, o jeito de falar, a entoação martelada, doce ou súbtil das sílabas, a voz que faz estremecer, enfim, o tomar nas próprias mãos o objecto do encanto e do desejo.
Mas isso era no tempo em que as relações duravam mais que os hamores e as pessoas se mantinham juntas até que a morte as separasse. Com ou sem hamor.
Nos tempos que correm, tudo isso foi substituído pelo poder endemoinhado da internet e cada enter que damos é um provável passo a mais para o abismo. E quando aqui falo em despencarmos no precipício, sei que todas vocês já entenderam muito bem a que me refiro.
Blog após blog, chat para cá chat para lá, comentáriozinho aqui mas também ali e vai daí o caos está instalado na nossa vida. De um momento para o outro, entre um site e um link, lá estamos nós a pensar naquele interessante dixote que alguém colocou por lá, naquela míuda que nos parece tão engraçada, no próximo encontro das lesgiras.
Ah! O que é um olhar profundo e emocionado nos olhos da outra, perante o efeito magnetizante e paralizador de um LOL, um RSRSRRS ou mesmo um KKKKKKKK?
E pronto, o caldo entorna-se como quem não quer a coisa mas querendo. Será que me faço entender?
Portanto minhas queridas parceiras destas linhas, em vez andarem para aí a deixar cair lencinhos e a seduzir as incautas, vão mas é ver sites de montanhas, culinária, rendas de bilros….sei lá…..assim coisas menos complicadas que as mulheres.
é assim:
De todas as intrujices de que o hamor é capaz, creio que, “dar um tempo”, é talvez a mais recatada cretinice de que há memória nesta ciência hamorosa.
Dar um tempo, não é mais nem menos do que, “olha, eu agora vou ali só dar uma voltinha mas depois volto”.
Claro que seria um bocado complicado dizer isto assim, a seco, sem um minímo de rodeio. Então, a coisa fica assim num “nin”, não é nem deixa de ser mas há que intervalar para afugentar o tédio e saber do que ainda se é capaz.
E lá vamos nós, hamar adentro, aproveitando a maré cheia, sem pensarmos nas correntes que depressa nos obrigarão a esforços olímpicos para voltarmos a terra e que certamente nos deixarão mais esgotados, frágeis,menos capazes.
O pior de tudo isto é que quase sempre nos achamos tão únicos e especiais que podemos jurar que a tal pessoa a quem pedimos um tempo, daqui a semanas, meses, ainda vai estar ali à nossa espera, ávida de nos passar a mão na cabeça, de nos perdoar e de ainda nos hamar mais, na proporção directa do tanto que sofreu quando virámos as costas.
O mais engraçado e que não deixa de ser curioso e até irónico, é saber que a todos estes comportamentos cravejados de puro egoísmo está sempre associada a ideia do relacionamento hamoroso e. por consequência e segundo dizem os entendidos no tema, está subentendido o gostar de alguém, querer agradar, mimar, respeitar, fazer tudo para que dê certo.
Como já sabem, eu cá não acredito em nada destas patranhices mas que las hay las hay.
E por aqui me fico hoje, deixando apenas em nota de rodapé que muitas vezes apesar de tanto hamar, há sempre um ir mas já não há para quem voltar.






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