No sábado passado, estava eu de rolo em punho a dar a primeira de mão num muro com algumas dezenas de metros, quando uma pequenina de seis anos, filha de um quase primo da aldeia, me fez a seguinte pergunta: “porque é que os teus pais estão juntos?”
Rapidamente lhe passei o rolo para as mãos rechonchudas e pequenas e lhe disse como deveria actuar na obra mas a expressão persistente dela indicou-me que queria uma resposta. Pigarreei, abri e fechei a boca várias vezes, abanei a perna lateralmente o que em mim é sinal de alguma impaciência misturada com tensão e por fim lá arenguei qualquer coisa do género, “é pá, é a vida, sabes como é, as pessoas casam e às vezes ficam juntas, bora lá pintar mais um pedacinho para ver se despachamos isto hoje”.
Enquanto ensopava o pobre do rolo afanosamente no alguidar da tinta, com muito mais vigor que o necessário, perguntava-me em silêncio tenso, se a míuda teria entendido alguma coisa.
Nem cinco minutos e mais dois metros de muro tinham passado quando eis que veio a estocada final. “Olha, porque é que os meus pais se separaram?”
Esborrachei o rolo contra o muro à procura da resposta. Deixei passar uns longos segundos para ver se ela desabelhava dali mas qual o quê. Lá estava a figura mínima, imóvel, seráfica, com uns olhos inquietos e inquisitivos a trespassarem a minha aflição.
Como é que eu agora me safava daquilo? Recorrer de novo à manobra do rolo não me pareceu boa ideia. Vai daí, ganhei tempo, tossiquei, limpei o suor que me jorrava em bica, voltei a abanar a perna e com um ar professoral e entendido na matéria, saí-me com este miminho elucidativo:
“É pá, sabes como é (como se ela soubesse…ou eu……) estas cenas do hamor são complicadas, os adultos são esquisitos, às vezes ficam juntos, outras vezes separam-se, mas uma coisa não é melhor que a outra, entendes? É diferente mas no fundo é igual.”
Esta última frase então é de arrasar. Sentem o drama?
E, enquanto lha dava uma pancadinha cúmplice no ombro, não me atrevi a perguntar outra vez se ela tinha percebido pois tive medo da resposta.
Agarrei no balde da tinta e no rolo e zarpei dali a toda a mecha.





21 comentários
Comentários feed para este artigo
Agosto 19, 2010 às 9:28 pm
righpa
Este post conseguiu enternecer-me e construir um vazio … porque no fundo acho que é isso mesmo, os adultos são complicados e misturam tudo, tentam dar lógica onde só existe sentir … mas o sentir duro e puro é assustador e não tem rede. Mas quando uma criança nos pede algo assim, não existe lógica que nos valha. Parabéns pelo post Pagu.
Agosto 20, 2010 às 10:08 am
pagunatanga
Ah Righpa, Righpa, a coisa foi aflitiva mesmo…rsrs
Ternura, vazio, complicação, lógica, sentir…..o difícil é saber onde tudo isto encaixa no mundo hamoroso dos adultos.
Quando se fala na crueldade das crianças, porque dizem o que pensam, há que lhes tirar o chapéu e aprender com elas.
No fundo no fundo, nós é que estamos na idade dos porquês!!!
Agosto 20, 2010 às 3:09 pm
righpa
Pois que acho que também não me posso queixar da criança traquinas que anda a brincar aqui dentro … graças a ela quando sorrio é de orelha a orelha e quando choro consigo inundar o meu mundo … mesmo que na idade dos porquês, há que conservar a criança que existe em nós
Estes posts são decididamente pequenas guloseimas para elas
Agosto 20, 2010 às 4:12 pm
pagunatanga
Fico contente em saber que tem uma criança a tomar conta de si….rsrs…está em boas mãos. Essa do sorriso de orelha a orelha é das melhores coisas da vida.
Quanto aos posts, chegue-se aqui que lhe vou contar uma coisa. Aqui há umas semanas falei com a menina Tangas e comentei que estava na hora de acabar com eles. As suas palavras gentis fizeram-me ficar mais um pouco. Grata!
Apareça sempre e traga a criança.
Agosto 22, 2010 às 9:19 pm
righpa
Pagu é com muito prazer que continuarei a ler os seus posts … não é sempre que se encontram posts sinceros e interessantes como os seus.
Espero voltar com a minha criança muitas e muitas vezes.
Grata eu pelos seus posts …
Agosto 23, 2010 às 9:55 am
pagunatanga
Ora menina Righpa, deixou-me corada e assim a modos que atrapalhada com essas suas gentis palavras. Nem sei que lhe diga.
Espero então por si e pela sua criança. São fundamentais neste blog.
Agosto 19, 2010 às 10:52 pm
Silence
Retenho a seguinte frase do comentário da Righpa:
“Tentam dar lógica onde só existe sentir…”
Conseguíssemos nós olhar o mundo através dos olhos de uma criança. Simplicidade de pensamento e de sentir, vivendo uma realidade sonhada.
As crianças são o melhor do mundo.
Agosto 20, 2010 às 10:20 am
pagunatanga
Menina Silence, concordo em absoluto consigo. As crianças não têm medo de perguntar, de se expor e sobretudo de errar e tentar de novo. Vão ao chão, esfolam as mãozinhas, choram baba e ranho mas levantam-se prontas para recomeçar.
Eu por mim, nem tenho muito de que me queixar, tenho uma criança dentro de mim que me dá conta do miolo…rsrs
Agosto 20, 2010 às 12:21 pm
Luanda69
Bolas, essa é mesmo difícil de explicar a uma criança. Mas porque já vivi o drama na versão ‘filha’ sei que juntos ou separados não é a mesma coisa e, definitivamente, uma é muito melhor que a outra. Acho que para um filho, um mau casamento será sempre melhor que um bom divórcio. Não parece racional, não é? Mas o ‘hamor’ de filho também é assim. A casa de família nunca mais será a mesma. Nunca mais entraremos nela e nos sentiremos inteiros, completos.
E é porque no fundo o sabemos que ficamos sem palavras face a uma garotinha de 6 anos.
Agosto 20, 2010 às 4:24 pm
pagunatanga
Menina Luanda, o seu comentário diz-me que a menina poderia ter ajudado bem mais a pequenina do que eu.
E achei muito pertinente a colocação do hamor de filho. O hamor esquece-se muitas vezes disso, como aliás, se esquece de tudo o resto.
Mas olhe, foi o melhor que se arranjou…..como calculará, dessas coisas eu não percebo muito……melhor seria se ela me tivesse pedido para lhe ensinar a fazer um nó de oito….rsrs
Agosto 21, 2010 às 2:15 am
Tamborim
Pagu…sois um miminho autêntico! Estas crónicas estão de fazer exasperar de choro o mais rude calau da calçada. E creio que respondeu com gande acerto à criancinha…Hamar é também perceber a necessidade dos outros darem livre curso às hesistências. Ou sera hinsistências? Ai Pagu, o seu coração de melaço me deixa baralhada.
Agosto 21, 2010 às 2:16 am
Tamborim
calhau—as teclas falham-se-me.
Agosto 21, 2010 às 12:49 pm
pagunatanga
Ó menina Tamborim, sabe que gosto muito de a ver por aqui e dos seus comentários pertinentes mas por favor, evite de me chamar miminho, melaço, coração, enfim, essas coisas das quais sou completamente desprovido e que me fazem vomitar, só de as ler. Ora, miminho…..bahhhhhhhhhhhhhhh
Mas voto em sim, gostei muito da associação de hamor à “hinexistência” como diz.
Ou será que fui eu que liguei uma coisa à outra?…rsrsrs….
PS. Miminho, coraçãp…ora…ora….faça-me um favor……
Agosto 21, 2010 às 2:34 pm
Tamborim
Pois foi Vexa. q associou, foi Vexa….qual V.Exa. , foi o torrão de açúcar q há em si, sim, sim, indómito, imparável, tão fofinho!
Agosto 21, 2010 às 7:26 pm
pagunatanga
TORRÃO DE ACUÇAR FOFINHO???????????????????????
BAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
Já vomitei 4 vezes só de ler essa infâmia.
Vou me atirar deste blog abaixo e nunca mais aparecerei aqui.
Adeus amigas, companheiras destas crónicas e das desventuras do hamor.
Vou embora. Culpem a menina Tamborim e não lhe perdoem a ofensa que me fez.
ADEUUUUUUUUUUUSSSSSSSSSSSSSSSS!!!
FFFFUIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!!!!!
Agosto 24, 2010 às 4:03 am
irina
Na realidade, as crianças vivem uma simplicidade mais complicada do que qualquer fase adulta.
A sua simplicidade é demasiado sincera, e em perguntas como estas as nossas respostas podem parecer demasiado frias, porque o são!
Como se explica a uma criança que por exemplo o pai traiu a mãe, ou vice versa?
Como lhe diriamos que os pais não se amam quando nem mesmo nós sabemos bem o que isso é? Já para não falar que a situação ficava ainda mais feia com a seguinte pergunta. Porque é que eles ja não se amam? A culpa é minha?
Definitivamente, foi uma boa resposta!
“Não é melhor nem pior!
É diferente, mas no fundo é igual!”
As coisas acontecem, não porque tem que acontecer, mas porque nós fazemos com que aconteçam, o resto aprende-se com o tempo!
Parabéns pelo texto!
Agosto 24, 2010 às 8:05 pm
pagunatanga
Menina Irina, muito obrigada pelas suas gentis palavras e por partilhar connosco a sua opinião sobre as explicações do hamor.
Tem razão quando questiona: como explicar o que não se entende? Acho que no fundo, estas minhas singelas crónicas versam exactamente sobre isso, tentar arrazoar sobre o inexplicável.
Espero vê-la aqui mais vezes.
Agosto 24, 2010 às 10:23 pm
irina
Poderá ter a certea que sim!
Em primeiro lugar adoro as crónicas, em segundo lugar a escrita e devo mesm acrescentr que este é um daqueles blogs viciantes xD
Dá sempre vontade de espreitar para ver novidades!
Para além disso, doro o conceito e parece me que é de louvar a coragem de o abordar!
ps: não me tate por você só tenho 18 anos, ainda sou uma menina xD
Cumprimentos, Irina Lopes
Agosto 25, 2010 às 4:46 pm
pagunatanga
Menina Irina, muitos parabéns. Não sabia que nos dias que correm, pituxas de dezoito anos pudessem ser tão “boas cabeças”….rsrsrrs…perdoe, estou a brincar. Mas a sério que me surpreendeu.
Apareça mais vezes, bora lá falar do hamor….rsrs
Agosto 26, 2010 às 1:27 am
irina
Ainda bem que sim, e faço questão de voltar, desde que não leia mais nada que, estando direccionado para mim, fale na terceira pessoa! =)
Quanto ao Hamor há sempre muito para falar sobre ele, por isso mesmo, continuo a visitar este blog diariamente, prometi a mim mesma, que não perderia mais nenhuma crónica!
Entretanto, parece me adquado fazer o câmbio de opiniões, por isso deixo desde já o convite, para que visite e comente o meu blog, que ainda tem pouco tempo de nascença!
(Devemos sempre apoiar os mais pequeninos! x)
Por isso, deixo aqui o link, esperando, como é óbvio, pela sua visita e de toda a gente que tenha curiosidade!
http://wwwomenworld.blogspot.com/
(Agora chega de publicidade, e já sabe, continuo ansiosa por novas crónicas)
Vamos então enfrentar este mostrengo dos sete mares, e desmascará-lo, até ao nosso limite, porque o Hamor, esse nunca têm limites…
E mesmo que os tivesse, ultrapassar-nos-iam e à nossa limitação Humana e física!
Cumprimentos, Irina Lopes
Agosto 26, 2010 às 10:00 am
pagunatanga
Pois menina Irina, acabaram-se as terceiras pessoas….rsrsrs…..podes ter a certeza que visitarei o teu blog e opinarei muitooooooo. Pelos vistos, tenho mais uma compincha para desmascarar o dito cujo monstro…rsrs
E longe de mim não apoiar as mais pequeninas…..rsrsrs
Saudações e volta sempre.