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Porque este é essencialmente um espaço de partilha, venho aqui contar que uma exposição que gostei muito, mas mesmo muito, foi  a que tive o privilégio de ver em S.Paulo, em pleno Parque de Ibirapuera.

Foi um certame dedicado aos cinquenta anos da bossa nova que em cada “pormaior” se revelava mais esplendorosa, mais brilhantemente pensada e ainda melhor executada.

Durante aquelas horas, eu desejei transformar-me em câmara de filmar, máquina fotográfica, gravador, queria registar tudo o que via e ouvia já que não o podia fazer com o que sentia.

Então, uma das coisas que achei muito engraçada, diz respeito ao jeito como a bossa nova veio reinventar a forma de cantar o hamor (recebi esta informação com um sorriso na cara. Se era de hamor que se tratava lá eu ía rir um bom bocado).

Bom, diziam eles que até determinada altura as músicas eram essencialmente de hamores impossíveis, abandonos e corações desfeitos, mas com o fenómeno da bossa nova o hamor passa a ser a coisa mais linda, leve, colorida e cheia de graça, não só possível mas imprescindível para a felicidade dos homens.

Debrucei-me pois sobre duas ou três pérolas da bossa nova para provar o quanto isto pode ser um mito.

Vejamos: Garota de Ipanema, o grande hino da bossa nova. Por acaso ele fala em ter conhecido uma garota na praia, se apaixonado, casado com ela, tido  filhos e sido muito feliz? Nada disso. A moça que passa é na verdade cheia de graça e de balanço, tem a pele dourada pelo astro rei o que lhe dá por certo um ar saudável, mas ainda assim passa sozinha. Ora, se fosse assim tão jeitosa, que raio andaria ela a fazer por ali, sem uma companhia para a namorar, mimar e proteger do olho alheio? E o coitado fica ali a babar, a tocar viola e a declamar que a coisa está tão triste e ele ainda mais sozinho.

Chega de Saudade. Ah pois é. Ele vai dar muitos beijinhos e abracinhos e carinhos sem ter fim mas é se ela voltar, reparem bem, se ela voltar. Ora, se ela há de voltar é porque entretanto já se foi. Para tanto, canta uma prece para que ela regresse aos seus braços porque não pode mais sofrer tanta saudade. Digam, se encontrarem, onde está a parte hamorosa desta história.

E eis que chega a cereja no topo da bossa: Eu sei que vou te hamar. Esta então é de rir até às lágrimas. O tontinho diz que vai amá-la desesperadamente cada vez que ela bazar, que na ausência dela ele vai chorar e fazer muitos versos e que depois quando ela chegar passa uma borracha no assunto e fica à espera de, leiam com muita atenção, sofrer a eterna desventura de viver à espera que ela fique com ele para sempre. Ridículo até às raias do absurdo. Uma pessoa chega a asfixiar de tanto rir.

Assim se prova, mais uma vez, como estas coisas do hamor são absurdas, patéticas, mitos, ilusões e dogmas perfeitamente descabidos. Qualquer que seja o tom em que se cantem.

Sugestão do Celso Júnior.

 

Poucos objectos nos permitem uma aferição tão certa do peso das coisas como uma balança. O ponteiro, ou os números, dão-nos a indicação exacta do seu “tamanho” , peso, dimensão. De quanto elas valem, independentemente de as carregarmos nos braços, às costas ou no coração.

O problema é que muitas coisas podem pesar o mesmo que uma só. Ah pois é. Estamos nós ali a valorar um monte de coisas boas que um hamor tem, o pratinho da balança já despencou a transbordar de virtudes, agradinhos e doçuras e eis se não quando, aparece uma só coisa que pesa tanto (quando não mais) e que equilibra os pratos, perante o nosso ar estupefacto, incrédulo e zangado.

Então, minhas amigas, estando os pratos da balança lado a lado, equilibradinhos a nível, pesando o mesmo, afinal qual deles vale mais? Aquele a abarrotar de pequeninas coisas? Ou o outro com apenas uma mas enorme?

Aqui está o cerne da questão, o peso às vezes é irrelevante e não tem nada a ver com o assunto. O mesmo se passa na valoração dos hamores.

E com todas estas dúvidas, incertezas, confusões, contas de somar e de sumir, está instalado o sarilho.

Pois sim, dirão vocês, mas então como é que uma pessoa escolhe? Manda moeda ao ar? Por ordem alfabética? Pelo melhor humor? Melhor sexo? Melhor cozinheira?

É exactamente neste ponto da encruzilhada, que me lembro do final de um dos meus filmes preferidos, em que o fulano, tem que decidir entre duas pessoas que hama muito. Quando se tem que justificar perante aquela a quem vai dizer tchauzinho, esta pergunta-lhe se hama mais a outra, que por acaso até é a mulher dele mas isso agora nem vem ao caso.

Atentem bem na resposta demolidora dele:  “hamo há mais tempo”.

Pammm!!!! Será o este o factor de desempate? O tempo? Os anos? A duração da coisa?

Bom, perante isto e a ser assim, até podemos pensar que o berbicacho está solucionado por si mesmo. Assim a modos que uma coisa do género, o tempo cura tudo, o tempo é o melhor remédio, uma mão lava a outra, o hamor resolve-se e dissolve-se no hamor e assim por diante e venha de lá um grande viva ao hamor.

Qual o quê!!!!! 

Todos os finais de tarde quando o dito personagem atravessa a ponte ao voltar para casa, o nome que a brisa fresca lhe trás em surdina não é o da mulher com quem escolheu ficar.

Acontece com todos, seja a atravessar uma qualquer ponte da Carolina do Sul, a  Vasco da Gama, a 2ª circular, o eixo Norte-Sul ou a Estrada da Circunvalação.

Cada um que ache o seu fiel da balança. E, se o encontrar, que saiba o que fazer com ele. Não sei o que será mais difícil.

Há quem ainda tenha a lata de falar pelos outros, como Carlo Giovanardi, secretário de estado de Berlusconi, que teme a violência psicológica inflngida às crianças adoptadas por pais homossexuais. E as crianças homossexuais não passam por uma violência ainda pior? Por que razão não as defendem também?
É como dizer que é preciso proteger as mulheres e depois não lhes reconhecer capacidade para tomar determinadas decisões ou dizer que alguém ainda não está preparado para isto ou aquilo. É sempre fácil e conveniente tomar decisões pelo próximo. Mas, afinal, quem lhes concede esse direito?
Andamos nós por aqui (e por acaso) a dizer que este ou aquele direito são de A, mas não de B, parcialmente de C e talvez, num futuro hipotético, de D? Se bem que aqui a questão são as obrigações: nomeadamente, a obrigação de cada um respeitar o que nunca terá o direito de decidir sobre o próximo.
O mesmo senhor também afirma que as estatísticas provam que a “venda de crianças disparou nos estados em que a adopção por homossexuais é legal”, associando tranquilamente os homossexuais à pedofilia. E ninguém o cala…

 

Esta terça feira foi um dia muito triste para mim. Na minha última viagem de regresso do Brasil, em Julho, a minha vizinha no avião era uma mulher de talvez uns sessenta e muitos anos, educadíssima, elegante, bem falante, apesar de profundamente triste.

Durante as quase dez horas de voo, contou-me, entre lágrimas, que tinha vivido sempre em São Paulo e que há poucos anos se tinha mudado com o marido para uma cidade mais pequena e tranquila, onde queria viver o resto da vida. Pouco tempo depois dessa mudança, um bandido assaltou a casa e assassinou o marido. E ela, volvidos dois anos e meio, continuava inconsolável.

Falou-me de todo o hamor que sentia por aquele homem que conheceu com 17 anos e do momento em que se tinham olhado pela primeira vez e perceberam que seria eterno. E foi. O seu único hamor, o seu único homem, o seu único amante, o seu melhor amigo, o seu grande companheiro e cúmplice de mais de quatro décadas de um casamento perfeito e feliz.

Era a primeira vez que viajava sozinha e sentia-se frágil, perdida, ansiosa, mas queria voltar à terra do marido, Santiago de Compostela,  quem sabe para se despedir de sítios onde tinham estado juntos. Tentei, da forma que pude, acompanhá-la no aeroporto de Madrid e embora nos separássemos ali pois seguiríamos em diferentes voos, procurei deixá-la na porta de embarque não sem antes tomarmos um cafezinho, trocarmos números de telefone, moradas e promessas de futuras visitas.

Ela devia regressar por esta altura ao Brasil e eu queria saber como tinha corrido a viagem. Já tinha tentado telefonar mas só ontem consegui. Disseram-me que infelizmente já não se encontrava entre nós. Suicidou-se, atirando-se de um terceiro andar na cinzenta Sampa.

Fiquei chocada, incrédula, triste, vazia. Lembrei-me de todo o hamor que tinha visto nos olhos daquela mulher quando falava do ser hamado, das saudades, da falta, das recordações.

Perguntei-me mil vezes porquê, queria lhe perguntar porquê, porquê, mas a resposta estava naquele olhar que jazia perdido no imenso vazio que a devorava.

Ironicamente, enquanto o incómodo me fazia rebolar de um lado para o outro da cama, ansiosa e desgastada, escuto uma conversa telefónica entre duas pessoas que se hamam mas que não são capazes de ficar juntas por incompatibilidade de feitios e sinto vontade de as espancar.

Aquela mulher teria passado por cima de qualquer coisa, de enganos, feitios, defeitos,  traições, desilusões, medos, mentiras, para voltar a ter quem tanto hamava. E olharia com pena e profundo desprezo para estes pequenos hamores sem capacidade para ultrapassar tudo em razão de um sentimento maior que todas as razões do mundo.

Hoje não conseguiria escrever mais nada sobre o tema habitual que não fosse partilhar convosco esta história de hamor.

A minha singela homenagem a esta senhora, pelo sua incomensurável capacidade de sentir e pelo tanto que me acrescentou.

Que descanse em paz nos braços do seu hamor.

 

Uma das grandes novidades no mercado da oferta e da procura é o conceito de low cost. No fundo é pagar menos e ter o mesmo, ou quase. Só que este quase está muito bem disfarçado e assim à primeira vista até nos achamos uns espertalhões. Eh eh! ficou baratuxo e temos do bom.

É assim nas viagens de avião sem refeições, nos fins de semana sem direito a  pequeno almoço, nos concertos sem lugar marcado, nos alugueres de automóveis sem km’s incluídos. Tudo low cost, tudo quase  igual a como se fosse o produto genuíno. E, bem vistas as coisas, na maior parte das vezes até passa pelo original dada a fugacidade do evento.

Eis se não quando também surgem os hamores low cost.

Queremos o mesmo hamor, a mesma  atenção, o mesmo carinho, os mesmos mimos, a mesma dedicação, a mesma exclusividade dos afectos, mas investindo pouco. E quando digo pouco, leiam, o estritamente necessário. Afinal de contas o mínimo que pagamos deveria nos dar de mão beijada tudo o que pensamos ter direito. Assim, sem mais nem menos.

Nós nem estávamos à espera, nem queríamos, nem nos calhava nada, nem tínhamos disponibilidade emocional para tal,  até tínhamos outras coisas combinadas mas como estava ali à mão e era tão em conta, o melhor mesmo seria aproveitar. Nunca se sabe se voltamos a ter uma oportunidade assim. E, bem vistas as coisas, se bem não fizer, mal também não há de trazer ao mundo.

Mas, há sempre um mas, como não há milagres, acabamos por receber na exacta medida do que investimos. E nesta parte, minhas amigas, é de salientar o facto de que o fizemos de nossa própria vontade e iniciativa uma vez que o low cost não é uma coisa que nos seja imposta e obrigatória mas surge como uma oportunidade para.

Ah pois é!!  O low cost tem exactamente o alto custo de ser low.

Quando a coisa afinal não é exactamente o que esperamos, pegamos no pior de nós e começamos a reclamar. Não é bem o que queríamos nem foi aquele o pacote que adquirimos. Tinham nos vendido aquilo como sendo de primeira qualidade, fidedigno, autêntico. Sentimo-nos roubados, intrujados, defraudados, espoliados do que gastámos e do pouco que nos foi dado em troca.

Vai daí, queremos nos queixar só que não sabemos exactamente a quem. Estas promoções geralmente não têm cara, fica tudo um bocado na base da confiança e como tal, às vezes corre bem e outras nem tanto. Mas que não dá para reclamar, lá isso não dá.

E é então que feitas as contas e com o coração carregadinho de vazio, chegamos à brilhante conclusão que muitas vezes, investindo mais algumas patacas, as coisas teriam corrido melhor, sido mais doces, mais autênticas, mais requintadamente intensas e até durado mais uns tempos.

(PS. Miúda dos Abraços…..o pedido é devido….)

Parece que está tudo dito sobre o activismo lgbt, não é? Sobretudo depois da aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo. E, de facto, faz muita diferença haver uma lei. Agora já muita gente percebeu, finalmente, que não tem o beneplácito do Estado contra lésbicas e gays. Ficou bastante claro, não ficou?

Tão claro que até me sentiria tentada a deixar andar, como me dizem tantos amigos e gente apaziguadora, que não vê vantagem nenhuma no confronto ou no conflito. Que não vê que se não houver esse confronto, não há razão nenhuma para dar mais um passo na evolução das mentalidades. Que motivação há em viver sempre em águas mornas, evitando os caminhos em que provavelmente teremos de fazer algum esforço para adaptar a nossa forma de estar à daqueles que são diferentes de nós?

Mas, adiante, que não é disso que vos vim falar. Já dizia Gandhi, com grande sentido de humor, que só tinha três inimigos: o Império Britânico, que era o mais fácil de influenciar; a Índia, que era bem mais difícil; e um tipo chamado Mohandas K. Gandhi, sobre o qual parecia ter pouquíssima influência.

Estamos no mesmo pé. Temos os ‘contras’, jurados em nos fazer a vida num inferno, mas a quem fazemos nós a vida negra; temos a comunidade lgbt, que é bem mais ‘dura’ de ouvido; e nós próprios, que estamos sempre em processo de decisão sobre a nossa própria fé na capacidade que temos para viver como homossexuais.

Lembro-me sempre disto quando, à semelhança do sucedido há poucos dias, uma amiga lésbica vem e me diz que odiou ver-me na marcha, que odiou ver as três drag queens que lá estavam e que acha que o ‘nosso’ (não o dela) tipo de luta só favorece a discriminação. E que devíamos todos continuar a portarmos-nos como iguais aos outros – suponho que a vivermos escondidos e sem os incomodar-mos com os factos básicos da nossa vida…

E também me lembro da ‘brincadeira’ do Gandhi quando sinto que perco a energia por estar sempre a repetir as mesmas coisas às mesmas pessoas. Perco a minha capacidade de confronto. Perco a minha luta e a progressão de que nunca devia esquecer-me.

Porque a verdade é só uma: de cada vez que olho para o espelho depois de ter baixado os braços, estou zangada comigo e não é a zanga que me impulsiona para a frente. É pôr os outros à frente do espelho e perguntar-lhes como podem olhar para a vossa cara depois de se negarem de forma tão completa e absurda?

 

Hoje venho aqui partilhar convosco a minha opinião sobre mais um equívoco do hamor:  Morar juntos.

 Isso mesmo. Dividir cama, mesa, cozinha, casa de banho, ferro de engomar, vassoura, frigorífico, compras de supermercado, arrumações, reuniões de condomínio e tudo o que ao lar doce lar diz respeito.

Quando o dito hamor atinge proporções patéticas, somos atingidos pela ideia peregrina daquilo que na linguagem popular se chama de juntar os trapinhos. Cada despedida no final do dia, cada beijo interrompido, cada frase abobalhada que fica pela metade, dilacera-nos a alma até aos confins da imbecilidade e julgamos só poder ser salvos pela convivência diária, ou pelo menos nocturna.

Começamos a fazer contas a abrir o jornal nas páginas dos arrendamentos, a ver revistas de decoração  e depressa o entretenimento passa a ser ir visitar apartamentos entre olhares cúmplices e nervoso miudinho disfarçado com sorrisos.

Quase sem darmos por isso estamos a passar o cheque da primeira renda e da caução, com uma felicidade que comoveria o mais pétreo dos homens e lá arranjámos maneira de viver com o nosso hamor, nem que seja uns dias sim outros não, umas noites sim e outras também.

Nos primeiros tempos damos graças perante as bênçãos até então fora do âmbito da nossa condição de mortais desconhecedores das grandes paixões, de viver com outra pessoa. Tudo é perfeito, lindo, arrebatador.

A falta de cama, de um maple, os roupeiros improvisados, as estantes feitas de caixotes, os livros e cd’s empilhados, a televisão no chão…..hum…..há lá coisa mais bonita que isso?! Há lá maior hamor que o nosso?!

O problema surge quando as mobílias começam a chegar. Começamos a ver entrar móveis pela casa fora e alguma coisa dentro de nós começa a dar sinal de si. Uma tensão medonha, uma pressão na zona do miocárdio, uma falta de ar, parece que o até então nosso hamor, está agarrado ao nosso pescoço a apertar com quanta força tem.

A graça e a perspectiva de eternidade do hamor vai decrescendo à medida que a casa vai ao sítio. A nossa impaciência começa a tamborilar sobre cada móvel e entre cada estatueta e inutilidade que antes julgámos ser imprescindível.

E claro, como não há hamor que resista a tanta cómoda e cadeira e cortinado e psiché e futuro e sabe-se lá mais o quê, quando colocamos o último quadro na parede achamos que a nossa missão ali está terminada, pegamos na trouxa e vamos rapidamente à procura de ar fresco.

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