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All rights reserved @ Tangas Lésbicas

Foi ontem, com um frio de rachar, embora estivesse um sol radioso: cinco graus e um grupo de primas dentro da água, a manobrar as suas pranchas de bodyboard.
É ou não é lindo?

Somos por natureza um país cinzento. Apesar da geografia nos ter sido particularmente generosa, do céu azul brilhar na maior parte dos dias, das praias e natureza convidarem a almas leves, desfrutáveis, ávidas de vida, ainda assim as nossas nuances rondam o negro, ora denso e abrupto, ora cinzento chumbo, ora nos melhores dias cinza clarinho.

Somos por natureza um país cinzento. De alma, de sentir, de expectativas, de sonhos, de esperanças, na demonstração de quem somos, no aceitar o que os outros são.

Eventualmente, sou de todas as pessoas que visitam este blog, a que menos conhece a noite lésbica e gay. Não por decoro ou qualquer outro motivo “honrado”, mas apenas por falta de tempo, oportunidade e muitas vezes, quiçá a maioria, paciência.

Os poucos locais que conheço são absurdamente claustrofóbicos, tensos, escuros, ghettos, antros de engate e de intensas demonstrações tão teatrais quanto patéticas de posse e de um “machismo” que não lembra a ninguém.

Visitei mais uma vez São Paulo e vi, dentro da mais elementar forma de bom senso que a vida em comunidade implica, pessoas do mesmo sexo andarem de mão dada na rua, beijarem-se, demonstrarem afecto, serem cúmplices à luz do sol, à vista de todos, sem culpas nem recriminações.

Estive em bares GLS bonitos, com luz, sol, claridade, portas abertas para a rua, esplanadas observadas por quem passa, locais onde convivem perfeitamente homossexuais, lésbicas, heterossexuais, tias, filhos, pais, sem constrangimentos de qualquer ordem ou vontade de cavar trincheiras para esconder “diferenças”.

E senti, mais uma vez,  a enorme diferença entre o samba e o fado, entre a alegria de ser apesar de tudo e a tristeza de não querer ser por causa de nada.

Já disse isto uma vez, mas imagino-me na Avenida Paulista a trautear, “eu faço samba e hamor a qualquer hora, por que não agora?!” e sinto-me nas nuvens.

 

Mesmo em férias não poderia deixar de partilhar convosco uma novidade de que ontem fui conhecedora. Existe, há provas disso, o casamento colorido. Não, não me enganei, é mesmo o casamento colorido.

Que havia a amizade colorida, isso já eu sabia. Independente do número de cores e das próprias nuances das mesmas, sempre houve casos em que as pessoas são tão, mas tão “amigas”, que uma vez por outra confundem tudo e do abraço fraternal ao colchão da cama mais próxima vai um pulinho que é visto como uma coisa normal, sem mal, sem consequências, sem problemas, discreta e que ainda por cima não pede satisfações. O chamado bom para todos.

Agora, minhas caras parceiras destas crónicas, o aparecimento da figura do casamento colorido, no acervo das relações amorosas, deixou-me assim a modos que de queixo caído. Não se trata de ingenuidade, é mesmo uma questão de “mas o que é que esta gente tem na cabeça?”

Cada um dos parceiros aceita que o outro tenha namoradas e namorados fora do casamento, desde que, reparem bem, os intrusos sejam mais bonitos que o corno ou a corna que, obviamente não se sentem traídos mas sim complementados e portanto ainda agradecidos. Mas, que fique bem esclarecido para todos, “o marido é meu”, “a mulher é minha” e ninguém ouse sequer pensar que pode, por mais encantos ou recursos técnicos que tenha, posições ou malabarismos de que disponha, que pode quebrar o laço do sagrado matrimónio.

O que me deixa mais perplexa não é o facto deste tipo de comportamentos existirem. Sou uma liberal por excelência e quero mesmo é que toda a gente seja feliz na forma que melhor encontrar.

O que me surpreende é que este tipo de pessoas possam chamar casamento ao que têm e que pensem que uma coisa desse género possa sobreviver ou resistir perante o redor. Se manter uma relação requer amor, esforço, empenho, carinho, cuidado permanente, imaginem o que será quando a pessoa a quem dissemos sim anda por aí enquanto nós andamos por aqui e com um bocado de sorte, nos encontramos de vez em quando.

No meu caso, prefiro os amigos e o amor que dão cores lindas, variadas, fortes, berrantes, à minha vida, mas cada um no seu devido lugar. Sou assim um bocadinho à moda antiga.

Queria aqui deixar palavras muito amargas e mal dispostas sobre os nossos candidatos à Presidência da República. Queria dizer mal, mas não me apetece. Prefiro acreditar que um deles vai cair em si e perceber que o País vais ser mais feliz sem os preconceitos que defende; outro vai finalmente praticar a qualidade que o seu nome apregoa; um terceiro sofrerá uma epifania e abandonará, finalmente, a cortina de ferro; o quarto vai formar mais uma ONG e deixar-nos os ouvidos em paz e sem os ecos da sua vozinha de caridade cristã; o quinto fundará uma nova escola de mornas e chorinhos; o sexto ganhará o euromilhões e salvará as ilhas do tubarão florido. Está tudo encaminhado. Vou tomar um chocolate quente.

 

É coisa que devia ir de mão dada, embora não seja obrigatório: que uma lésbica, reconhecendo-se como tal, tenha consciência de que é alvo de discriminação; por conseguinte, como lésbica, por uma questão de coerência mental, se reconhecer como feminista e contra qualquer tipo de discriminação contra mulheres e outros seres.

O bónus: não lhes crescer pêlo no peito, nem lhes engrossar a voz, nem sofrer da obrigatoriedade de ficarem para tias, ao contrário da mais popular crença…

O mais difícil de entender e de pôr em prática, no entanto, é o dever de não cair em nenhuma outra forma de discriminação. Isto porque, entendido o mecanismo da discriminação como uma prática que se faz sempre num único sentido − de cima para baixo ou, mais claramente, de mais fortes ou mais numerosos para mais fracos e menos numerosos −, está iniciado o iluminadíssimo processo de não se fazer aos outros o que não queremos que nos façam a nós.

Um dia a menina Tangas perguntou-me porque não colocava a minha foto neste blog. Não soube muito bem o que lhe responder. Nem eu mesma sabia o porquê, mas se for sincera, poderei alegar dois bons motivos, não sei se exactamente pela ordem correcta. Querer preservar a minha identidade e não saber, em termos práticos, como fazer aparecer a minha fotografia no quadradinho.

Na conversa, a menina Tangas fez-me perceber a importância de não ter receio de dar a cara, ou melhor, o bom que é mostrar que o que escrevemos, o que opinamos, tem um rosto que se orgulha do que pensa e escreve publicamente.

Vem tudo isto a propósito daquelas pessoas que a troco de não se saber quem são, que se escondem atrás de um computador e que difamam, blasfemam, mentem, descredibilizam, fazem mal a outras, resguardadas na covarde máscara de um nickname, de um IP, de um email falso, de um teclado que deixa que o pior de si apareça de forma incógnita e difícil, quando não impossível de se pedir contas.

É muito giro comentar em blog, facebook, twitter, essas coisas? Até pode ser sim, desde que tenhamos coragem e vergonha na cara, para darmos à comunidade cibernáutica hipótese de nos pedir responsabilidades e de nos fazer pagar pelo que ali escrevemos.

Eu posso dar-me ao luxo de escrever aqui o que penso, o que quero, o que me apetece, porque a “dona” deste blog sabe o meu nome, a minha morada, o meu BI, o meu número de contribuinte, o meu telefone, onde trabalho e pode, caso eu seja mentirosa, mal educada, grosseira, ou difame alguém, pedir-me satisfações e processar-me judicialmente, na forma que bem entender. E está por mim autorizada, embora de tal não precise, a fornecer os meus dados a quem se sinta ofendido e alvo de calúnias da minha parte.

A minha cara é pública e eu não tenho nada pelo que, ou de que me esconder.

Agradeço à menina Tangas ter-me feito entender a importância de eu ter um rosto e dos outros o conhecerem.

Quanto aos que se escondem, aos coitadinhos que aproveitam o anonimato para debitarem a sua alma pequena, a sua insatisfação por existirem, a tristeza de não terem ninguém quem goste deles, a sua infindável colecção de fracassos, faço minhas as palavras do Grande Cazuza:

“VAMOS PEDIR PIEDADE, SENHOR PIEDADE! PARA ESSA GENTE CARETA E COVARDE!”

All rights MMF/Tangas Lesbicas

Nós aqui gostamos de confrontos. E não é para andarmos à batatada, que isto aqui é gente afectuosa, de respeito e melada tanto quanto se pode ser. Nunca partimos mais do que fatias de bolo, e isso é apenas nas comemorações.

Também temos por aqui conciliadores, gente que acha melhor pôr toda a gente de acordo. Claro que, se não fossem os confrontadores, ninguém se dispunha a ser conciliado, mas isso são outros quinhentos.

Depois há os pusilânimes, aquela espécie de vermes sem espinha dorsal que baba tudo com o seu desagradável ranho. Mas sempre a coberto de uma capa, de uma identidade falsa, de anonimatos cobartes.

É gente muito feia, essa da pusilanimidade. Medíocre. Incapaz. Seca. Árida. Não têm nada para dar e ainda gastam o seu parco tempo de vida à procura de gente que nem sequer conhecem, para descarregar a sua ignóbil nhanha. Gente que produz alguma coisa está na sua mira. Gente criativa aguça-lhes a sede, a raiva, a cegueira, a impotência.

Quem arranca uns sorrisos aos outros, uma palavra amistosa, uma graça, uma conversa, está na mira desses invertebrados destinados à sua própria tristeza, à sua auto-miséria. São gente que só merece a nossa pena. Mas não o perdão. Porque já vimos muita gente dessa a destruir coisas boas. Aliás, a destruição é o seu infernal alimento.

Não julguem, no entanto, que se acercam de nós e nos desafiam, de luvas de boxe postas. Não. Vêm por trás e batem apenas quando podem fugir. E são tão esvaziados de propósito que nem sequer o fazem por terrorismo. Apenas porque é a única coisa que se conseguem propor fazer.

Quando era criança, costumávamos gritar-lhes coisas assim: vermes miseráveis da terra nojenta! Ah… Era uma boca cheia de desprezo, vos garanto. E é o que vos repito aqui, gentinha pusilânime, que nem sequer acredita no seu próprio valor.

Vão bater a outra porta, que aqui reina quem cria boa disposição, motivos para viver esta vida e chegar ao céu e reclamar mais!

Só gostava de saber por que razão os jornais portugueses permitem tantos comentários de ódio, insultuosos e difamatórios nas notícias sobre o crime de Nova Iorque, em que a vítima. segundo as vozes populares e a coberto do anonimato, destilam a sua homofobia impunemente. Mas não são só eles. Os responsáveis pelos jornais calam e consentem, assim como as autoridades portuguesas. Será normal? Será saudável? Será de justiça? Pelos vistos, há muito que não se aplica o código deontológico dos jornalistas, nem deontologia (= “déon, déontos” que significa dever e “lógos” que se traduz por discurso ou tratado.
Tratado do dever ou o conjunto de deveres, princípios e normas adoptadas por um determinado grupo profissional – Dicionário InFormal) nenhuma.

É espantoso e assustador constatar que muita gente acha aceitável andar com alguém por dinheiro do que por ser gay. Ou confessar um assassinato por “já não se ser gay”. Ou achar que alguém ainda pode ser inocente depois de tirar a vida a alguém com requintes de brutalidade.

Isto é indicativo do imenso preconceito que ainda grassa por aí. E que é o que vem ao de cima quando acontece alguma coisa que envolva homossexualidade. A justiça,a polícia e os governos, felizmente para nós e por muito preconceito que os seus agentes sintam, não pensam assim. O crime, a brutalidade, o assassinato são coisas reconhecidamente inaceitáveis e puníveis.

 

Triste esta história de CC, um final violento que envolve um jovem, total desgoverno de emoções e relatos públicos de pormenores que não deviam ser separados da intimidade das vítimas, apesar da sua notoriedade. Não faltará quem ligue esta infeliz notícia à inevitabilidade dos divinos e outros castigos tidos como merecidos pela gente que não cabe no maniqueísmo (ainda) vigente dos dois sexos. A verdade é que não há causa e efeito neste episódio. Apenas duas vítimas: CC, cuja vida terminou brutalmente, e o do seu assassino, incapaz de controlar os seus ímpetos. Para o primeiro não há solução e, para o segundo, talvez alguma forma de expiação e aprendizagem, por via de um castigo mais do que merecido.

Carlos Castro foi um activista lgbt. De uma forma que nem sempre colhia a nossa simpatia, mas que deu visibilidade à causa da não-discriminação e fortaleceu a vontade e a determinação de muitos de procurar e pôr em prática outras formas de visibilidade e luta.

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