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Em primeiro lugar convém dizer que não venho aqui defender e muito menos acusar qualquer das partes. E são muitas, podem crer.
Que se deve, que se têm, que é obrigação, que nem pensar, que um dia talvez, que nem é equacionável, que não se pode, que é obrigatório, que é uma questão de respeito, que é uma burrice, que é arranjar um monte de problemas, que pode justificar tudo, que pode não dar em nada, enfim, um sem número de causas justificados por uma quantidade ainda maior de motivos.
Assumir perante o mundo que se é homossexual, ainda é, na minha modesta opinião, um acto de coragem. Não vale a pena estar para aqui a dizer que o mundo mudou, que tudo é aceite, que as pessoas já nem ligam, tudo isso é conversa da treta e qualquer pessoa que ler estas palavras sabe bem do que falo.
Se o mundo no seu todo considerado já nos assusta e faz meter a marcha atrás, a família então é quase sempre o nosso calcanhar de Aquiles. É aquele ponto em que nos sentimos frágeis, vulneráveis, indefesos.
Então, adiamos, empurramos com a barriga, inventamos, contornamos, damos jeitos de cintura e andamos nesta roda viva até que um dia nos perguntamos porquê.
E entramos em ebulição mental, emocional, racional e eu sei lá que mais. E vamos ficando sem graça, insonsos, tensos, presos dentro de um sítio onde só a verdade nos pode libertar.
É aí que damos conta de que contar ou não contar não tem nada a ver com os outros, ou pelo menos que esse não é o verdadeiro nem principal motivo.
Nós somos o motivo.
Mas só sabemos isso quando encontramos aquela pessoa por quem vale a pena contar. E, se calhar, só aí faz sentido. Digo eu, claro.
Nós, as primas bloguistas, não somos como os funcionários bancários. Não vestimos, todos os dias, a mesma coisa que muitos outros: fatinho cinzento, escuro, neutro, camuflado, gravata igualmente indiferente, mesmo quando enganosamente engalanada com uns salpicos de cor, sapatinhos engraxados, pelos escanhoados.
Essas coisas não são para nós, que gostamos de cores abertas, sorrisos garridos e camisolas vermelhas por cima ou por baixo dos abafos e casaquinhos à moda. É a nossa farda de combate, essa mancha de vermelho energético e pronto a reagir à mais pequena insinuação contra os nossos mui legítimos interesses.
(se alguém souber do que trata este post, faça o favor de se adiantar e explicar)
Não gosto que digas isso, diz-me uma amiga chegada. Isso o quê? Isso, que és lésbica.
Pronto, parece que agora basta conhecer-me um pouco mais, para vir, muito à vontade, a censura adoçada com a amizade.
Acontece que eu gosto de dizer que sou lésbica. Nem que seja só para ver, espelhado na cara dos outros, o desconcerto, a fuga dos olhares para coisas aparentemente mais interessantes.
E por que não o hei-de dizer? Por que não hei-de escolher o rótulo que mais me interessa? Acaso impeço os outros de fazer o mesmo? Haja coerência.
Fiquem sabendo que, se uma camionista vier ter comigo e disser que não é lésbica, sou obrigada a concordar com ela. O aspecto exterior de uma pessoa, somado a uns quantos actos, não é a verdade definitiva sobre essa pessoa. Temos não só de respeitar a imagem que cada um tem de si próprio, como o rótulo que escolhe para si.
Se não tivéssemos todos sido educados e programados em função da escassa existência de dois sexos e da sua pseudo-complementaridade, não haveria, provavelmente, esta necessidade de rotular cada um em função do que se é, ou se vai sendo, em termos de sexualidade. E se calhar também não teríamos tantas pessoas a sentir a necessidade de mudar o seu corpo em função se uma identidade sexual que não é forçosamente a sua.
Há que entender e educar as pessoas para perceber que aquilo que são é sempre bom e único. E que a opinião dos outros, vale o que vale. Não é necessário calar ninguém para recusar outro rótulo que não o que escolhemos para nós.
E assim sendo, vou continuar a dizer que sou lésbica, mesmo quando sentir que não sou. Reservo-me o direito de, a todo o instante, decidir da minha vida e do meu rótulo.
Antes de o Dia dos Namorados se tornar nesta feira económica, só comparável ao Natal, as coisas faziam-se de maneira muito diferente. Julgam que é engraçado fazer de um dia especial um circo? Então não sabem nada de nada.
Aqui há umas dezenas de anos aproveitava-se o dia de S. Valentim para mandar postais anónimos às pessoas de quem gostávamos. Era o que fazíamos com as pessoas com quem namorávamos, sim. Mas também com aquelas pelas quais tínhamos um fraquinho e nenhuma coragem ou intenção de o confessar. Às pessoas de quem gostávamos e que receávamos não virem a receber postais de ninguém.
No dia seguinte, entre amigas e amigos, contávamos os postais recebidos e aproveitávamos para partilhar uns momentos deliciosos, de conjecturas românticas e brejeiras sem outras consequẽncias senão as de alimentar os nossos egos e fazermos de uma saudável coscuvilhice o centro do nosso universo por um bom punhado de minutos. E isso tinha um sabor requintado.
Agora, com as montras atulhadas de balões, bombons, postais, copos, canecas e outros objectos muito kitsch, o que resta da quase secreta conspiração de amores desejáveis, imaginários e tolos, como o é a alegria de poder fazer disparates sem consequências?
Longe vão os tempos em que as pessoas se esforçavam, inventavam e faziam trinta por uma linha para que as coisas funcionassem. Não se mediam esforços para que o resultado final fosse o esperado e, para tanto houvesse engenho e arte, empenho e persistência nunca faltariam.
Talvez por isso, durante gerações as relações evoluiram, as familias solidificaram laços, as pessoas partilharam e partilharam-se no objectivo último do bem comum.
Estavam assim as coisas neste pé quando eis que a humanidade percebe que se pode demitir de pensar e de inovar porque há muito por onde escolher para nos fazer felizes. Não em nós, não naquilo que construímos até aqui, não nos projectos que sonhamos durante uns bons tempos. Nada disso.
O milagre chama-se upgrade.
Há vidas de sonho, há carreiras brilhantes, há carros incriveis, há maridos fieis, há mulheres sempre esbeltas, há filhos perfeitos, há patrões justos, há sogras queridas, há amigos presentes, então porque não fazer tudo isso nosso? Afinal de contas, tudo isso está ao nosso alcance através de um simples click ou de uma ida à Worten comprar o software mais indicado.
Instalado o novo programa e quando já esfregamos as mãos pela novidade que não só nos permitirá outros desempenhos como até melhorar aqueles com que já fomos bafejados, esperamos trasportar para a nossa vida uma realidade que não é nossa e que portanto não combina com a nossa anterior versão e por mais downloads que se façam nunca vão encaixar na nossa vida.
Esta incompatibilidade pode ser difícil de aceitar. Mas se com os outros resulta….mas se os outros têm……mas se eles conseguem….. mas se….então e se…..
O cerne da questão é compreender e aceitar sem mágoa, que a felicidade não se compadece de carros topo de gama, de jóias, de mulheres deslumbrantes, de homens musculados, de férias nas Maldivas, de casas na Expo, de piscinas de água quente, da última versão do último modelo da ultima novidade de tudo o que o dinheiro possa comprar.
Bem melhor que tudo isso é saber que o upgrade da felicidade é feito dentro de nós. E por nós. E em nós. Porque só dessa forma ele é compativel com o que somos, fórmula única de podermos ser felizes.
E podemos fazer isso todos os dias, conversando mais, rindo mais alto, abraçando com mais força, amando com mais alma, beijando com mais paixão, dizendo mais vezes o quanto se gosta, se quer, se deseja, cozinhando mais vezes os pratos favoritos de alguém, ajudando sem esperar troco, partilhando essa fórmula mágica sobre a benção que é querer ser feliz.
Um destes dias ainda vou ser uma prima/lésbica a sério, juro que vou. Assim a acreditar que mais ninguém sabe, a não ser eu e umas quantas eleitas para um meu círculo exclusivo de amizades. A desdenhar todas as outras criaturas que acham que merecem o mesmo rótulo, dessas que dão nas vistas e não são, evidentemente, dignas de o ostentar.
− Mas o que estás tu para aí a dizer, mulher?
− Não me interrompas o raciocínio.
Ainda vou ser uma prima daquelas que têm uma ideia claríssima do que é ser prima, sem essas pindériquices próprias de gente de subúrbio, vestidas assim como se as primices fossem uma questão de camisa xadez e bonés de beisebol, sapatões e cabelo cortado à macho.
− Então tu agora é que sabes quem é que pode ou não ser prima?
− Bem sabes que não é por aí. Há é coisas ridículas de mais para serem aceitáveis.
− E tu, evidentemente, tens o monopólio da verdade e do aceitável…
Essa gente há-de perceber, um destes dias, que eu não tenho nada que ver com as camisas vestidas por cima das t-shirts, com os modos machões e associações que só nos dão mau nome. É tudo uma questão de nível.
− Ah… Já percebi. No fundo, és contra a democratização do nível.
− Não digas disparates.
− Não só não é disparate, como estou siderada com a sua capacidade discriminatória.
− Discriminatória? Eu?!?
− Claro. Há quem nos discrimine por sermos primas. A menina discrimina não só as primas como o seu nível social, segundo os seus parâmetros claro.
− Que disparate! Esta conversa está terminada.
− Ditadora, fascista, discriminadora, homófoba!
Perde uma prima o seu tempo a tentar melhorar a imagem para acabar nisto. Um destes dias…
Só para vos comunicar, a vós que me enviais tantos links para clicar em favor da revolta dos povos norte-africanos:
- Sou pela libertação dos oprimidos e pelo derrube de toda e qualquer ditadura;
- Quero muito que todos os norte-africanos tenham as mesmas liberdades que eu, aqui nas lusas e confusas terras;
Mas:
- Recuso clicar em links que vão dar o poder a irmandades muçulmanas que o modesto mediterrâneo nunca conterá e que, daqui a uns anos, estarão dispostos a matar-me à pedrada por ser prima, mulher e aspirar à minha liberdade.
No entanto:
- Clicarei em todos os links para manter o mundo livre de ditadores de qualquer tipo, incluindo os que apenas me imaginam burkada;
- Clicarei em todos os links que me prometam fantásticas liberdades feministas;
- E clicarei em links pró orgasmo e anti mutilação genital feminina;
- Assim como clicarei em todos os links que me prometerem que os adeptos da violação correctiva de lésbicas sofram mentalmente e de forma pavloviana as dores das sevícias que provocam a quem tentam emendar.
Ao contrário do que é habitual, hoje venho aqui desdizer um adágio popular que justifica muitos não ter, não ser, não viver, não poder, nas vidas de todos nós.
Longe de mim defender a tese de que o hamor e o querer muito são directamente proporcionais aos quilómetros entre as partes. Nada disso.
O que eu quero dizer é que estar longe não justifica deixar de hamar, gostar, respeitar e querer que resulte.
Muito menos servirá para dar como desculpa face a comportamentos desviantes, cobardes, menos nobres que eventualmente se escondam atrás do facto de que “o corpo é fraco”.
Hamar ao longe é antes de mais nada um desafio. É querer de forma mais forte, é investir ainda mais, é dar corpo e alma pelo que realmente desejamos.
É saber gerir saudades, desejos, faltas, com um grande sorriso, com força, com coragem, é dar colo e mimo quando as fragilidades do outro nos aparecem a pular ao telefone, no monitor, nos sms’s.
Hamar à distância é o dobro
É ser mais forte, mais poderoso, mais generoso e transformar por artes mágicas a falta que sentimos no prazer do abraço que nos aguarda daí a dias ou meses.
Hamar à distância é uma coisa assim a modos que impensável mas acontece aos melhores. E pode ser a melhor coisa que nos aconteceu na vida.










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