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Resolvi falar das ideias associadas ao meu nickname no Tangas por hoje ser um dia repleto de símbolos: um casamento real.
Quando me foi feito o convite/desafio para participar nas Tangas Lésbicas pensei em arranjar um nickname. Deambulei por várias possibilidades e acabei por me decidir por Köttur.
Köttur (Felis silvestris catus) é gata em Islandês.
Gata porque gosto de gatos e gatas (mais uma achega para o tema do post sobre cães ou gatos?) em Islandês porque a Islândia é um exemplo neste momento de crise económica global, pela forma como reagiu, e porque a Primeira-Ministra Jóhanna Sigurðardóttir é lésbica e a primeira chefe de governo que assume a sua homossexualidade.
Voltando aos símbolos que hoje pintam o mundo de vermelho, azul e branco: o casamento real. Para além do espectáculo da cerimónia, este acontecimento reflecte uma determinada realidade social e política. Sabiam que a monarquia britânica reina em diversos países do mundo, alguns tão distantes como a Austrália e a Nova Zelândia? Este ainda é um reflexo do imenso império britânico e do seu período colonial. E se pensarmos na hegemonia da língua inglesa, o império continua
e ainda mais alargado do que nunca.
Em relação ao simbolismo do casamento é interessante verificar que Elton John e o seu companheiro David Furnish foram convidados enquanto casal. No entanto, no Reino Unido o casamento entre pessoas do mesmo sexo não é legal, existe apenas a figura de “parceria civil”. O movimento “Equal Love” ofereceu um cartão de casamento aos noivos com a seguinte mensagem: “Congratulations William and Kate on your Wedding Day. We wish you a happy life together. You can get married, gay people can’t. We are banned by law. We ask you to support marriage equality. Equal=Love.”
Podemos não concordar com alguns símbolos, podemos questionar as suas origens e significados, mas mais difícil é negar o seu impacto na forma como vivemos em sociedade.
Acham importante/desejável que o novo casal real apoie abertamente o casamento entre pessoas do mesmo sexo?
… e eu até gostava! Sentia-me mais destemida e ousada que as outras raparigas, capaz de proezas que me enchiam de auto-confiança.
Gostava de andar de calções, de subir aos muros e às árvores, de jogar à bola, de brincar com carrinhos, de construir gruas e guindastes com o Meccano, de andar com o cabelo curto e de jogar hóquei com os rapazes. Magra, magríssima, com o mundo todo por descobrir nos olhos castanhos e no sorriso que teimava em não me deixar.
Foi esta … se calhar … a primeria caixinha onde me instalei, confortável por saber o que esperavam de mim e de alguma forma, quem eu era.
Foi passando o tempo e as caixinhas foram mudando de forma, já não era só maria rapaz, era distraída e estudiosa, um pouco sonhadora, gostava de andar sózinha e ter amigos mais velhos. Não me conheciam namorados nem entusiasmos típicos das adolescentes, só o gosto pela vela e pelo mar. Boa aluna e certinha, que encanto para os pais
Mas … uma colega de olhos de amêndoa e o meu imaginário rico em fantasias fizeram-me explodir de ansiedade e receios. Apaixonei-me pela primeira vez, estava na idade certa, mas o sexo era errado. Amava uma rapariga e não um rapaz. E não escondia essa paixão!
Então de facto eu até tinha um ar um pouco masculino, via-se logo na minha forma de olhar as raparigas, na forma de andar e vestir, nos gostos que tinha, claro que era lésbica, não havia dúvidas. Para os outros foi mais fácil entender-me e lidar comigo se me “encaixassem” naquela caixinha, lésbica, não só amava uma mulher como tinha as outras características que, sem sobra de dúvidas, faziam de mim lésbica.
Mesmo que eu me apaixonasse por um rapaz, seria provavelmente entendido como um deslize e que em breve voltaria à minha verdadeira “natureza”, amar mulheres. A imagem estava criada e seria muito difícil sair da caixinha, deixar de ser vista como lésbica. Era mais fácil para os outros e para mim. Quando se sabe o que se espera de nós sabemos melhor quem somos. E fui-me instalando na caixinha.
O problema com as caixinhas é que nos reduzem a uma dimensão da nossa personalidade, a um único aspecto, como se só esse contasse ou fosse o mais importante de todos. É uma questão de economia mental. É o princípio de funcionamento dos estereótipos: as mulheres são assim, os homens assado, as lésbicas cozido e por aí fora.
Ousar pensar e viver fora das simplificações e dos limites das caixinhas, arriscar sair da zona de conforto do conhecido e previsível, desconstruir as representações estereotipadas com que vemos a realidade, esse é o grande desafio.
A luta que é necessário travar não tanto é pela igualdade entre lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros, hetero, … , a luta mais importante e urgente é no sentido de cada uma de nós poder ser diversa e múltipla, rica na sua própria diversidade, com o verdadeiro direito à diferença dentro de si própria.
Apesar do que à primeira vista possa parecer, “não esquecer” uma coisa não tem nada a ver com “lembrar” dessa coisa.
Sei que para muitos dos fieis leitores destas humildes crónicas, eu às vezes pareço superar a lógica, o bom senso e outros quesitos bem visto no dia a dia normal de pessoas ainda mais normais, mas creiam que este momento é apenas mais um de superação da loucura que brota dentro de mim descontroladamente. E vejam lá, em surdina e sem confessarem, se não tenho uma infíma razão.
Ai não me posso esquecer de marcar dentista, não me posso esquecer de ir trocar as pastilhas do carro, não me posso esquecer de ir buscar as calças que ficaram a limpar, não me posso esquecer que este mês tenho que pagar o seguro do carro, não me posso esquecer de comprar sal e fósforos……
Agora reparem:
Tenho de me lembrar de comprar o presente para o aniversário do Lucas, tenho de me lembrar de ir buscar aqueles bolos de chocolates deliciosos de que a minha irmã tanto gosta, tenho de me lembrar se a minha mota já está pronta, tenho de me lembrar se os voos para as férias estão confirmados, tenho de me lembrar de fazer aquela surpresa….
Sentiram a diferença? Estou louca, por acaso?
Não esquecer encerra em si mesmo uma aura de esforço, de obrigação, de inevitabilidade, de ter de ser.
Pelo contrário, lembrar é leve, é doce, é cheio de esperança, de desejo, de querer, de risos, de sonhos e de vida.
Se houvesse ideais, escolheriamos poucas coisas para não esquecer e muitas, muitas mesmo para lembrar.
Mas às vezes, acho que é preciso dar o dito pelo não dito, que é como quem diz, dar um lembrar por um esquecer ou vice-versa, para que tudo volte a fazer algum sentido. Porque por pequenino que seja, é esse sentido que nos vai fazer levantar e seguir em frente. Até que se torne tão grande e tão forte que sejamos nós a correr atrás dele. E aí sim, estará tudo bem.
Por enquanto prefiro não esquecer , para um dia, quem sabe, poder lembrar.
Dizia um amigo ontem, que todas as lésbicas têm gatos. Pensei de imediato que, se todas as primas têm gatos (generalização não sustentada por qualquer verificação estatística válida), será porque todos os gays têm cães? Ora, além de ser este outro facto não verificado cientificamente, posso dizer que conheço primas com gatos e primas com cães; primos com gatos e primos com cães. Já agora, reconheço como possível o facto de haver quem apenas conheça primas só com gatos ou só com cães; assim como primos só com gatos ou apenas com cães.
Mas o que raio quererá dizer, de facto, a afirmação todas as lésbicas têm gatos? Ou outra coisa qualquer? O que faz com que, de repente, alguém se torne subitamente mais consciente de primas e primos com gatos ou com cães? Será uma questão de moda, ou de simples embirração, com um facto que se torna mais comum ou mais conhecido? Sim, porque eu cá também conheço primos e primas que não têm gatos nem cães. Assim como primos, primas e homos diversus que têm pássaros, coelhos, porcos, iguanas, cavalos, vacas ou porcos.
Alguma importância há-de ter esta questão, para que se diga que todas as lésbicas têm gatos. Assim como se fosse uma coisa quase negativa ou determinante para o facto de se ser lésbica. Será? Qual é a diferença entre se ser dono de um gato, de um cão ou de qualquer outro animal? Além, obviamente, de todos terem de partilhar o ciclo de sonos das suas criaturas de estimação, de as alimentar, de limpar os seus dejectos e outras coisas que normalmente não fazemos por seres humanos com quem, aparentemente, temos mais afinidades? Será que, implicitamente, quando se diz que todas as lésbicas têm gatos, se está a insinuar que fazem mais pelos seus amigos peludos que pelas namoradas ou amigos diversos?
Mesmo assim, se todas as lésbicas têm gatos, de verdade, de verdade, o que é que isso contribui para a nossa felicidade? E o que havemos de pensar das lésbicas com gatos que antes tiveram cães, e antes disso tiveram coelhos, e ainda antes disso tiveram porquinhos-da-Índia e por aí fora? Haverá também uma insuspeitada categoria de promiscuidade associada a esta coisa dos animais de estimação?
Tudo isto são questões de grande peso e ainda insuficientemente pensadas e debatidas. Há que voltar a esta temática com maior informação, disposição, tempo e capacidade de análise.
(A propósito, conheci uma prima que só gostava de polvos e, antes disso, tinha a mania dos peixinhos dourados. Isso, claro, depois de passar pela experiência de ter cães e gatos, peluches, chupetas e outras coisas…)
Houve tempos em que as lésbicas eram o papão, mas se divertiam com isso. Nos EUA, duas etiquetas de música empenharam-se em lançar nomes como Meg Christian e Sue Fink, cantautoras activistas e bem humoradas.
Este vídeo, que não se pode ver fora do YouTube, retrata um dos clássicos lésbicos – a paixoneta pela profe de ginástica: http://www.youtube.com/watch?v=msIP4k_0QGs&feature=related
Aliar a profissão ao percurso activista
Eduarda Ferreira faz parte da geração que acompanhou de perto a evolução do movimento lgbt em Portugal. A sua contribuição para o seu desenvolvimento não foi pequena, tendo participado activamente em associações e eventos que ficarão para a história social portuguesa. Actualmente procura espaços e formas de intervenção fora do circuito das associações, aproveitando a sua experiência na área da orientação sexual e de género, encarando isso como uma necessidade.
Tangas Lésbicas (TL): O que a levou a tomar parte activa no movimento lgbt?
Eduarda Ferreira (EF): A necessidade de participar na conquista de direitos para as pessoas LGBT, o acreditar que está nas nossas mãos podermos contribuir para a mudança, o sentir que no caso das lésbicas em particular existia um vazio enorme na área do trabalho associativo e da intervenção social e política.
TL: Em que altura isso se deu?
EF: Por volta de 1997, já com “alguma” idade. Até essa altura tinha andado afastada das questões LGBT, mas sempre com alguma inquietação, com vontade de fazer algo. Foi por essa altura que em Portugal começaram a surgir as associações LGBT e eu juntei-me a esse movimento.
TL: Fez parte do Grupo de Mulheres da ILGA-Portugal?
EF: Cheguei a ir a algumas reuniões iniciais, mas como me envolvi com o Clube Safo desenvolvi a minha actividade nesta associação. Mas foi no Grupo de Mulheres da ILGA-Portugal que tive a minha primeira reunião numa associação LGBT, foi um momento marcante
e foi o primeiro passo.
TL: Como se deu a sua ligação ao Clube Safo?
EF: Conheci algumas pessoas do Clube Safo num Pride em Lisboa. Achei interessante o projecto e fui ao acampamento desse ano. Fez todo o sentido para mim participar num grupo que trabalhava especificamente questões lésbicas. Desde o início que assumi uma postura activa e participei na organização da associação.
TL: Para si, qual foi a importância de um grupo como do Clube Safo para o desenvolvimento de uma forma de estar mais assumida entre as lésbicas portuguesas?
EF: Em primeiro lugar o Clube Safo foi fundamental para a minha visibilidade enquanto lésbica. Foi nesta associação que desenvolvi o que se pode chamar uma “identidade lésbica positiva”. O existirem espaços de interacção entre mulheres onde se sentiam livres e confortáveis para assumirem a sua orientação sexual, teve um efeito contaminador para outros contextos de vida facilitando o processo de visibilidade. Também foi extremamente importante existir um discurso público, como por exemplo entrevistas nos jornais e na TV, em que várias mulheres deram a cara e assumiram ser lésbicas.
TL: Concorda com o uso do termo “lésbicas”, tão contestado até pelas mulheres homossexuais?
EF: Eu posso dizer que passei de mulher homossexual a lésbica. Esta mudança de designação reflecte uma mudança de entendimento das questões relacionadas com os direitos das mulheres lésbicas. O apropriarmo-nos da palavra “lésbica”, que tem uma conotação negativa, e transformá-la na palavra que escolhemos para nos identificar é uma atitude fracturante que provoca o esvaziamento do insulto.
TL:É realmente importante pôr rótulos às pessoas e “arrumá-las” em categorias separadas?
EF: O importante é romper com as caixinhas onde teimamos em “arrumar” as pessoas. A utilização de categorias, como lésbicas por exemplo, só é importante num contexto de luta por direitos. Podemos dizer que se luta pelo direito a ser lésbica em todos os momentos, espaços e contextos, para que ser lésbica deixe de ter qualquer importância. A ILGA-Portugal teve uma campanha publicitária há alguns anos que tinha como lema “Pelo direito à indiferença”, e é exactamente essa a ideia. Mas para que seja de facto verdadeiramente possível ser indiferente, não termos rótulos nem caixinhas, é preciso que as pessoas não sejam discriminadas por serem diferentes.
TL: Voltando ao seu activismo, além do Clube Safo, em que outras associações participou?
EF: Após o meu afastamento do Clube Safo por querer desenvolver outros projectos, fui uma das dinamizadoras da criação do LES – Grupo de Discussão sobre Questões Lésbicas e actualmente colaboro com a APF Lisboa Tejo e Sado.
TL: Qual foi a posição da sua família em relação a este seu percurso?
EF: A minha família sempre me apoiou em todos os aspectos da minha vida, incluindo a minha orientação sexual, e esse facto foi fundamental para que desde muito cedo tenha tido uma postura de visibilidade sem grande esforço nem dificuldade. As minhas actividades associativas foram e são encaradas com orgulho por parte da minha família. Sinto-me valorizada por elas e eles
TL: Quer falar-nos da Les Online?
EF: Este projecto começou a tomar forma em Outubro de 2005, quando 2 dos elementos da actual equipa editorial da LES Online criaram o blog Sexualidades no Feminino. Este blog tinha como subtítulo “Questões sobre relações lésbicas”. Definia-se como um espaço aberto a todas as mulheres e todos os homens que queiram pensar, debater e reflectir sobre a sexualidade nas mulheres. Considerando também, que dar visibilidade a estes temas é contribuir activamente para contrariar o duplo padrão que existe quando se abordam questões de sexualidade em mulheres e homens, sendo a das mulheres sempre mais silenciada e invisível. Em Abril de 2008 as promotoras do blog, em conjunto com mais algumas mulheres, organizam o Grupo LES – Grupo de Discussão sobre Questões Lésbicas. Este grupo apresenta como objectivo contribuir para a reflexão sobre as questões lésbicas e para o desenvolvimento de acções que promovam os direitos e a igualdade de oportunidade das mulheres lésbicas nas várias dimensões da sua vida, contribuindo, desta forma, para a criação de uma melhor qualidade de vida para todas e todos. A LES Online surge como um projecto deste grupo e tem como objectivo contribuir para a reflexão sobre questões lésbicas e promover os direitos e a igualdade de oportunidade das mulheres lésbicas. Pretende divulgar estudos e investigações de carácter científico, assim como projectos de intervenção e artigos de opinião, relacionados com as diversas vertentes da temática lésbica. É uma publicação online, sem versão em papel, porque o seu objectivo é ser uma publicação digital, o mais possível acessível a todas as pessoas.
TL: A comunidade lgbt é frequentemente referida como um lobby ou um grupo cujos interesses particulares ameaçam de alguma forma o resto da sociedade. Concorda com isso?
EF: De forma alguma. Só num contexto em que tudo o que é diferente é temido, é que se entende esse medo. As pessoas LGBT pela sua própria existência perturbam a ordem estabelecida, questionam os papéis de género, a estrutura patriarcal, a sexualidade, provocam desequilíbrios na estrutura heterossexista da sociedade, e creio ser esta a razão pela qual algumas pessoas se sentem ameaçadas.
TL: Em que medida é que o movimento lgbt e a sua luta influenciou a luta pelos direitos humanos em Portugal e no mundo?
EF: Sempre que se conquista direitos para um grupo específico da sociedade, todas e todos ficamos a ganhar, existe um avanço na qualidade de vida de tod@s nós. Para além deste aspecto mais geral, os movimentos pelos direitos civis específicos de determinado grupo promovem formas de luta e de intervenção que se podem estender a outros campos promovendo e contagiando outras lutas de outros grupos.
TL:Acha que a “causa lésbica” é dissociável do feminismo?
EF: Parece-me que têm muito em comum e que têm muito a ganhar se caminharem em conjunto. No caso Português temos tido uma grande interacção entre as causas lésbicas e feministas. No entanto, existem questões específicas das lésbicas que não se enquadram num contexto unicamente feminista. É necessário um espaço autónomo de intervenção. O primeiro número da LES Online foi precisamente sobre este assunto.
TL: O que está por fazer?
EF: Muito
contestar, pensar criticamente, questionar, intervir, lutar, reivindicar, reclamar, exigir, persuadir, conquistar, dinamizar, promover, reflectir, … e muito mais, no sentido de uma sociedade mais justa e igual para todas e todos.
TL: Gostaria de colaborar com o Tangas Lésbicas e usar os seus conhecimentos e sentido de humor para acotovelar as causas sociais?
EF: Gostar, gostava
o problema é o tempo. Neste momento, e nos próximos anos, sou trabalhadora estudante. Tenho falta de tempo para ler, estudar, reflectir e aprofundar tudo o que gostaria e que preciso para o meu projecto de investigação. Mas … quem sabe se não vão surgindo algumas notas soltas.
Partindo do pressuposto que:
a) pensar dá trabalho; b) verbalizar o que pensamos é um inferno; c) pôr em prática é o mesmo que defender uma utopia;
no Tangas tentamos mostrar-vos que:
a) pensar é muito divertido; b) verbalizar ajuda-nos a fazer muitos inimigos, mas garante-nos os melhores amigos; c) as utopias são o que nos empurra para um mundo melhor.
Acabar relações tem muito que se lhe diga. Acaba-se o quê? O hamor? O estar junto? A divisão da coisa comum? Os projectos? As prestações em conjunto? As compras do mês? A educação dos filhos?
A terminologia acabar encerra em si mesma uma tendenciosa indução de que algo começou. Pode nem ser bem assim mas eu até dou de barato que alguma coisa, vá-se lá saber o quê, tenha começado, crescido, florescido, enfim, dado um ar da sua graça.
Se o bom senso fosse para aqui chamado, dir-se-ía que a relação acaba quando o hamor acaba. Mas como nestas coisas do hamor, a inteligência e a razoabilidade não existem, diria eu, em versão mais cool, que tudo termina quando acaba o tesão, o desejo, a paixão, o enlouquecimento geral dos seres frente ao objecto de todos os enlevos.
Diria mas não digo. O descrito acima seria fácil demais. Não queriam vocês mais nada que “olha, agora já não gosto de ti, cada um vai à sua vida e adeus até qualquer dia”. Isso é que era bom. Era. Mas não é. Pelo menos, nem sempre.
Às vezes as relações acabam porque, como se já não bastassem dois feitios, duas formas de ver a vida, duas maneiras diferentes de ser, há ainda uma multiplicidade de factores e variáveis que tornam o permanecer junto completamente impossível.
Ambas as partes gostam o suficiente uma da outra para saberem que o caminho era por ali mas, ou muitos mas depois, verificam que simplesmente não dá.
Apesar do que possa parecer, é preciso maturidade e alguma idade, para percebermos que a história do hamor e da cabana é uma falácia muito maior que a história do capuchinho vermelho. O hamor, seja lá isso o que for, tenha o tamanho que tiver e a força de Sansão que lhe atribuem, será sempre o elo mais frágil no que toca a manter os casais unidos.
E creiam, é preciso muito mais coragem, força, estoicismo para acabar um hamor do que para correr atrás dele.
Porque às vezes é preciso deixá-lo ir. Outras vezes é obrigatório. Outras ainda porque achamos que é o melhor.
Não porque sim, nem porque não, mas porque tem que ser. Ou porque nim, como preferirem.













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