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All Rights Reserved © Tangas Lésbicas

Conheço a Coerência de infância, desde a altura em que ela me destroçava os intempestivos raciocínios infantis com a sua lógica perfeita, e me deixava de cara à banda, a pensar se devia convidá-la de novo para as minhas brincadeiras. Durante a idade do armário, afortunadamente, a pressão hormonal suplantava qualquer tentativa de racionalidade e pouco ou nada vi a Coerência.
A seguir a esse caótico período, voltou à minha vida. Em aparições esporádicas, que rapidamente se multiplicaram e ganharam em frequência, voltou a marcar pontos e a reclamar para si o território do que faz sentido.
A minha amiga Coerência não me permite, por exemplo, lutar contra uma discriminação e recusar outras. Não querer ser discriminada e depois exercer um qualquer tipo de discriminação que, por não ser igual à minha, faço de conta que nada tem que ver comigo.
Jamais poderia apresentar a Coerência, por exemplo, ao grupos de activistas lgbt que querem marchar pelos direitos que dizem respeito à sua identidade sexual, mas que se recusam a marchar lado a lado com indivíduos que lutam por direitos inerentes às suas condições específicas.
A Coerência é uma miúda difícil. Não apenas para mim, mas para toda a gente que pretende guerrear apenas em part-time. Para ela, a luta é uma forma de estar na vida, a tempo integral. É uma guerreira que não se deixa enganar pelo conforto de posições parciais.
Certa vez, por exemplo, estava eu discutindo com uma daquelas senhoras louras e muito bem, que dizem que é melhor ter treze filhos e ficar sem dentes aos trinta e cinco anos, do que defender a lei do aborto, quando a Coerência se adiantou e perguntou:
- A senhora também defende a pena de morte?
Ao que a senhora muito bem se indignou, perguntando logo se não era seu direito viver numa sociedade livre de indivíduos irrecuperáveis, que deviam pagar pelos seus horrendos crimes.
- Mas então – considerou a Coerência -, se defende a pena de morte, por que se afirma pró-vida e contra o aborto? Matar um feto não é o mesmo que matar um adulto? Ou também acha que a vida que tira com a pena de morte não tem equivalência à que se tira com um aborto?
Um raciocínio destes não é, obviamente, para todos. Mas é por isso que a Coerência tem a minha atenção. Com ela há mesmo que considerar todas as vertentes da questão.

Este livrinho, com oitenta páginas desenhadas, rabiscadas, pintadas, riscadas e diagramadas, com toda a casta de disparates ditos e pensados sobre primas e outras espécies de lésbicas, esteve em leilão até ao final do dia de ontem. A base de licitação começou por ser 10,00€ e subiu cẽntimo a cêntimo na primeira semana. Houve mais ofertas, sempre a crescer, até que alguém fez uma excepcional, de três amravilhosos dígitos. A confirmar-se, este livro é do autor dessa última licitação. :)

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