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copyright @ rumoresdenuvensO meu pai acha que sou milandeira [milando: confito, discussão]. Lá sabe o que diz, ele que criou cinco milandeiras.

De vez em quando alguém me chama o mesmo, com outros cuidados, outras mesuras em palavras.

A essas pessoas que me acham milandeira dou apenas a resposta que, com todo o carinho, dei ao meu pai: “São as pessoas como eu que fazem com que as pessoas como tu gozem de direitos que têm, à partida, como garantidos.”

Pronto, já podem ficar mais um bocadinho à sombra da bananeira, que eu vou milandar para outras bandas.

Porque falaram como deviam e porque têm uma paciência infinda para estar sempre a repetir, impavidamente, aquilo que é óbvio e que gente crescida, com vergonha na cara, não devia sequer pensar em mencionar.

Quem tem um dedo de testa devia escrever já ao provedor do telespectador, na RTP (aqui) e insurgir-se por uma televisão pública, que todos nós pagamos, ir dar uma publicidade desmedida e importância a um referendo organizado por alguém desejoso dos seus dez minutos de fama.

Quem tem um dedo de testa devia manifestar a sua oposição a um referendo que vamos todos pagar e que não é mais do que uma manobra de diversão para continuar a negar direitos a alguns cidadãos. E mantê-los como cidadãos de segunda.

Quem tem um dedo de testa devia perguntar por que razão o Prós e Contras não dá o mesmo tempo de antena aos referendos organizados pela comunidade lgbt. Escrevam e nanifestem a vossa reprovação, já que nem o Presidente da República, nem o Primeiro Ministro, nem todos os surdos e mudos que governam, nestas ocasiões, o País, se insurgem conta um óbvio atropelo de direitos e sectarismo de quem dirige a RTP.

Mandem os vossos emails aqui!

Cambada de

(entrevista de R. U. Sirius a Kathy Acker (1947 – 1997) – ver original aqui – tradução: Tangas)

Chama a si própria Acker. E Acker é uma pessoa com quem de vez em quando ando. O mais fixe é podermos falar de tudo e ninguém ficar chocado (embora ela decida, por vezes, que sou um porco sexista). Alguns chamaram-lhe a nova geração Burroughs (autor da beat generation).

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Kathy Acker

Kathy Acker é uma romancista. Li pela primeira vez os seus ruídos interiores staccato numa revista dadaísta canadiana algures pelo fim dos anos setenta. Pensei, “aqui está a nova geração Burroughs”, ou coisa parecida. Ela usa a apropriação, múltiplas referências de ego, múltiplas referências temporais, honestas e violentas obsessões libidinosas, discurso desconstrutivo e revolucionária repulsa de forma muito vantajosa- Os livros dela incluem Blood and Guts in High School, Empire of the Senseless, In Memoriam to Identity e My Mother: Demonology. Vive em São Francisco e ensina no San Francisco Art Institute.

Kathy Acker: Portanto, isto é como uma entrevista a sério…

R.U. Sirius: Sim, isto é uma revista literária, só que mais fixe. inmemoriamtoidentityEstava a ler In Memoriam to Identity – a parte sobre uma mulher que é encorajada por um professor a envenenar alguém…

KA: Don Quixote?

RUS: Hã? …

KA: Não me lembro. Escrevo para me ver livre de coisas. Não para me lembrar delas.

RUS: OK. Chega de livros. Vamos falar das miúdas rebeldes. Pensas muito nelas?

KA: (Risos) As alunas que vêm às minhas aulas têm uma relação próxima com todas as miúdas más que estão muito interessadas no seu corpo, em sexo e prazer. Aprendo muito com elas sobre a forma de obter prazer e como o corpo feminino é fixe. Uma das minhas alunas tinha um piercing num dos lábios vaginais. E contou-me como, quando se anda numa mota, a cabeça do anel actua como um vibrador. A história dela excitou-me e por isso experimentei. Foi muito bom.
Comparada com as minhas alunas, sou muito tristonha. Sou da geração das fufas PC (politicamente correctas) e heterosexuais confusos. Nunca ninguém me disse que se podia nadar por aí com um cinto de dildo a ter orgasmos.

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Strap on, ou cinto de dildo, num manequim

RUS: É uma das coisas que acho interessante na tua escrita. Parece que escreves a partir do ponto do orgasmo – mas prolonga-lo. É o tipo de discurso interior que podes ter durante um pico de excitação. COmo fazes isso?

KA: Bem, penso que a escrita é basicamente acerca de tempo e ritmo. Como o jazz. Tens a melodia base e improvisas a partir daí. E os improvisos são sobre tempo e sobre sexo.
Escrever, para mim, é a minha liberdade. Quando era criança os meus pais eram como monstros para mim e o mundo estendia-se a partir daí. Eram horríveis e eu era uma criança boa – que não tinha coragem para me opor a eles. Diziam-me o que fazer e como ser. Portanto, a única altura em que podia ter alguma liberdade ou alegria eraquando estava sozinha no meu quarto. Nessas alturas escrevia, sem ninguém a vigiar-me ou a dizer-me o que fazer. Podia fazer o que queria. Portanto, a escrita estava realmente associada ao prazer físico – era a mesma coisa. A única que tinha.

Tratar do “Eu”

KA: Tenho andado num terapeuta. Não sei porquê. É tipo: “Libertar-te-ás de todos os teus traumas de infância se aguentares esta dor.” Que se foda a infância. As pessoas dizem sempre que fazemos isto ou aquilo por causa da nossa infância. Lamento, mas uma coisa que me deixa fria é a ideia de que podemos apenas viajar, e de que viajar é como ter um orgasmo sem fim. E nós limitamo-nos a ir, ir e ir.

KathyAckerNewYork_400RUS: Nesse estádio, perdemos a nossa identidade individual – e, consequentemente, a nossa infância. O que o terapeuta está a tentar é reconduzir-te para a aceitação da tua identidade singular.

KA: Pois. Ele está a dizer-me, “O seu objectivo é…” e eu estou a dizer-lhe, “O meu objectivo? Eu não tenho objectivo e nem sei bem quem sou. Quem sou eu?” E ele continua, “Sabes o que queres.” E eu digo, “Não sei o que quero.”

RUS: Se ele foir bem sucedido na tua recondução ao teu “Eu” singular, isso será a morte de Kathy Acker, a escritora.

KA: Si, certamente. Mas não creio que ele consiga. Não tem porra de chance. Só estou a tentar fodê-lo. Se isso não acontecer, não vamos a lado nenhum. Ele não consegue forçar-me a esse “Eu” singular. Disse-lhe, “Tens de considerar o princípio do prazer – nomeadamente, o meu.” E ele não gostou.

RUS: Digo sempre: divide a palavra (therapist - terapêuta) entre o “e” e o “r” ( the rapist – o violador).

KA: Pois. O violador. Porque levam todo o encanto da infância e reduzem-no a trauma. Ele passa a vida em longos discursos sobre o facto de não ser um iluminado e de querer ser um animal. Estás a imaginar longos discursos sobre querer ser um animal? Que puta de palhaço!

RUS: Quando estava na universidade, todos os professores de poesia adoravam Robert Bly, portanto, tive a minha dose dessa merda.

KA: Contei-lhe dos meus piercings e ele disse, “És uma rebelde.” A seguir perguntei-lhe se os queria ver. Não quis.

Kundalini em piercing

kaportraitRUS: Quanto aos piercings e essas coisas – gostas do termo “moderno primitivo”?

KA: Achei-o [o RE/Search book, Modern Primitives] esquisito na altura. Não liguei aos piercings até descobrir que metade das minhas alunas os usava. E pensei, “A que propósito vem isto?”

RUS: Toda a gente da Bay Area parece estar convertida a eles.

KA: Bem, sabes porquê – é uma tripe!

RUS: Mas não precisas de fazer mudanças permanentes no teu corpo para chegar lá. Tem de haver mais qualquer coisa.

KA: Não estamos apenasa falar de tripar. O que quero dizer é que pensei que seriam apenas como brinquedos sexuais e são mesmo bonitos. Não sabia é que a tripe era tão louca. Em primeiro lugar, durante os piercings disseram-me, “Respira assim. Concentra-te e respira bem fundo. Se o fizeres bem, chegas ao kundalini. A energia trepa directamente para o teu cérebro e dispara.” Foi o que aconteceu!
A seguir comecei a ter orgasmos. E continuei. Ainda não me vim completamente. Não sei como é que isso afecta os outros, mas o que fez qo meu corpo foi abrir totalmente alguma espécie de chacra do sexo.

RUS: A parte da tripe vem da consciência de ter mudado permanente o corpo?

KA: Sim, é estar no mundo com uma diferente – não sei exactamente. Ainda estou a aprender. É como se, de repente, tivesse uma pilinha. Há qualquer coisa que está sempre ali e eu consigo senti-la. É uma forma completamente nova de experienciar o facto de ser mulher.
Um amigo disse-me que há fufas muito certinhas e sóbrias que fazem piercings a cada dois meses, só para triparem. É uma questão de aprender sobre o meu corpo. Não sabia que ele podia fazer isto. Não é, exactamente, prazer. É mais como uma visão. Eu não sabia que o corpo podia ser uma fábrica visionária deste tipo.
Crescemos, basicamente, a não querer saber que temos corpos. E não é que estes piercings sejam tão profundos assim – são só à superfície. Portanto, se um coisinha destas pode fazer tanto, quem sabe o que mais podemos experienciar?

A escrita…

mynotherdemonologyRUS: Bem, não devíamos estar a falar sobre a escrita?

KA: Ah, pois, a escrita. É uma revista literária.

RUS: Sim, a escrita (paula songa). Parte do teu romance novo, My Mother: Demonology, baseia-se em algumas coisas de Bataille. Por que escolheste Bataille?

KA: Bataille é fixe!

RUS: Não consigo entrar nele. Na verdade, estou a escrever uma peça para o Wired, intitulada “A User’s Guide to Trendy French Intellectuals” (Guia para os intelectuais franceses da moda) que destrói completamente todos esses tipos.

KA: Oh, malvado! És tão tosco, pá. Eles são fixes.

RUS: Fala-me então de Bataille.

mydreamdaterapeKA: Bataille está associado aos surrelistas. A ideia, basicamente, é a de que a democracia não funciona. O comunismo não funciona. Todos essas merdas de modelos não funcionam. Temos de encontrar modelos novos – um modelo do que a sociedade deveria ser.
Não sabemos como são os humanos. E a base não é apenas a economia; as pessoas não fazem tudo por razões económicas. Tens de olhar para a imaginação; para o sexo. Não temos forma de descrever essas coisas usando a linguagem que temos. Portanto, formou-se um grupo em torno de Bataille para tentar descobrir o que significa ser humano – o que a sociedade deveria ser.
Os seres humanos têm de viver numa sociedade – não conseguem sobreviver apenas como indivíduos. Isso não é uma condição viável. As pessoas estão sempre a falar de trauma e sofrimento e de como a sociedade não funciona, que não devíamos ter racismo nem sexismo, mas nunca falam em termos positivos – tal como o que seria a alegria, como seria ter uma existência completamente feliz. Bataille e os seus seguidores procuravam modelos para as pessoa terem existências completamente felizes.

RUS: E que descobriram?

ackerKA: Bem, estudaram os modelos tribais e como eles lidavam com as coisas do sexo, sacrifício e propriedade – as alegrias não se baseiam apenas na acumulação económica e no mundo do trabalho do dia-a-dia, mas no desistir de tudo isso – não ter esse “Eu” específico, controlador e aprisionador. Ele não era Freudiano. Estava muito mais interessado no modelo tribal em que tudo estava à superfície e se lida com o sexo da mesma forma que se lida com a economia e o social. Era uma pessoa muito certinha, um bibliotecário. O principal inimigo de Bataille era Jean-Paul Sartre – Bataille não era um intelectual da classe alta e foi muito pressionado por causa disso. Sartre escreveu um artigo horrível sobre ele e, de certa forma, impediu o seu trabalho de ser reconhecido.

RUS: Quando te sentas para escrever, esvazias a mente de forma a ver o que surge?

KA: Tenho trabalhado em narrativa ultimamente, por isso não o faço assim agora. Mas estou a começar a ficar preocupada com a auto-censura – que esteja a interiorizar algumas merdas. Posso estar a escrever aquilo que as pessoas esperam que eu escreva, escrever a partir do ponto em que posso estar a ser orientada por considerações Para ultrapassar isso, comecei a trabalhar com os meus sonhos, porque não sou tão susceptível à censura quando uso material dos sonhos. Estou a trabalhar numa tentativa de encontrar um tipo de linguagem que não seja tão facilmente modulada pelas expectativas. Procuro o que poderá chamar-se uma linguagem do corpo. Uma das coisas que faço é enfiar um vibrador na minha cona e começar a escrever – a escrever a artir do ponto do orgasmo e a perder o controlo da linguagem e a ver como isso é.

Susto Vanity

karuiz_02_bodyKA: Estamos aqui a ser sérios, como se estivéssemos a fazer uma entrevista para uma revista literária, mas já viste o número da Vanity Fair com a Roseanne Barr na capa? Não li a entrevista mas – uau! As imagens são pesadas! Sabes como é, toda a gente anda aos gritos por causa do politicamente correcto nos campus e aí temos a Roseanne a abrir as pernas.

RUS: Não conhecia nada dela até ver um desses especiais “Revista do Ano” na MTV há três anos. Tinham uma data de pessoas a falar do que o ano tinha sido e toda a gente era do contra a qualquer nível. Tinham o Frank Zappa, o Lou Reed e o William Gibson, mas a Roseanne era a mais radical. Reivindicava a revolução armada. Pensei que fazia parte de algum movimento revolucionário, mas alguém me disse, “Não, é uma estrela de televisão.”

KA: Ela é radical! Quero dizer, tenho respeito por algumas dessas miúdas de Hollywood. Quando pensamos na santa trindade, Michael Jackson, Madonna e Roseanne – a cultura norte-americana é bastante fixe. Digo, Michael Jackson anda por aí.

Ilustração de "Pussycat Fever", de Kathy AckerRUS: Viste a conferência de imprensa que deu? Foi como a entrada do Joker no Batman. O tipo aparece para declarar a sua inocência em relação aos alegados actos de preversão com a sua maquilhagem louca e batom. O líder do entretenimento no mundo…

KA: Nem me fales da ciber-identidade! Não é bem como ter um homam mais velho a fazer sexo com um rapazinho – é mais como ter um marciano a fazer sexo com um humano.

RUS: Admiro o Michael Jackson pela sua completa esquisitice.

KA: Falas tu de manipulação do corpo? Ele nunca assumirá isso. Será que ele tem prazer com tudo isso? Será que tripa com cada bocadinho de cirurgia?

RUS: Ele quer mesmo ser uma espécie de proto-post-humano. É o primeiro filme de horror do Cronenberg na vida real. É uma pena que as palavras dele não exprimam nada disso.

KA: As letras dele são estúpidas.

RUS: Bowie era brilhante a expressar estranheza nas suas letras. Jackson é piroso a esse nível. Mas o que ele faz realmente é muito mais esquisito.

KA: É tão radical que bate a toleirice da Madonna. Ela tem potencial, mas …

RUS: … precisamos de falar com essa rapariga.

Miúdas com pilas

Tribe 8

Tribe 8

RUS: Temos de fazer qualquer oisa acerca desta cena das rebeldes em São Francisco. É como se os rebeldes de Burroughs se tivesem transformado em miúdas rebeldes! Acho que há alguma coisa mais fixe aqui do as Riot Grrrls. Riot Grrrls são completamente PC.

KA: Ah, toda a gente sabe que és um porco sexista, R.U. Bikini Kill é fixe! Quando estava em Seattle houve um grupo que me pôs como juíza de um concurso de leitura de poesia e arranjou uma pessoa para fazer uma leitura comigo. Uma miúda mutito gira e sensual. Eu disse, “Sim, pá, ela!” E perguntei-lhe, “Para que estás a fazer poesia? Podias lançar uma banda.” E ela começou as Bikini Kill. Era muito fixe.
Mas as Tribe 8 são mesmo radicais. Muito mais que as Bikini Kill. Tivémos, durante anos, toda essa porcaria feminista do “Não é justo” ou “Queremos o poder” e aparecem algumas miúdas que não querem saber disso, que não desgostam dos homens, que se divertem e são pela revolução total, como se “Também temos pilas!”.
Ou seja, o fornecimento vai provocar uma revolução importantíssima. E a única coisa que os gajos têm de aprender é que não há nada de mal nas pilas e nos caralhos, mas não pensem que têm o exclusivo mundial.

RUS: Sempre defendi as peças substituíveis.

KA: As miúdas fornecidas são tão sensuais. E as miúdas a penetrarem miúdas. Qualquer homem se deve vir a ver miúdas com fornecimento – e as miúdas também. Vi um vídeo que ensinava as miúdas a ejacular. Portanto, agora podemos vir-nos na cara de um gajo e dizer: “Engole! Chafurda aí!”

RUS: Penso que isso explica a escrita, então.

KA: Certo.

… à menina iaNa, que aqui põe a questão.

Na verdade, menina iaNa, ambas as expressões são incorrectas (casamento homossexual, casamento gay), embora liberalmente vulgarizadas pelos média e pelas palavras de quase todos.
O certo é nomear o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Ou seja, o busílis da questão, visto que a igreja (católica) às tantas monopolizou o casamento ou a união entre duas pessoas de sexo diferente e acrescentou-lhe a finalidade reprodutória, que não é afinal mais do que a capacidade de gerar uma família, logo, mais pessoas e, por consequência, mais poder (mais braços para trabalhar, para lutar, etc.).
Ora, com a República, acabou-se o monopólio da igreja, mas ficou a coisa da união entre homem e mulher, mais a inevitável capacidade de gerar clãs, ou grupos de pessoas com um potencial económico óbvio.
Posteriormente e com a ajuda da indústria do entretenimento, o casamento virou história de amor, mas ainda assim arrasta consigo um peso económico significativo: as famílais geram bens (casas, negócios, poupanças), coisas em que o estado adora pôr o olho em cima por causa dos impostos.
Ora, se as famílias têm bens e herdeiros, é natural e óbvio que os últimos passem para os primeiros. Estava tudo bem quando as famílias se apoderavam dos bens dos casais de pessoas em união de facto ou do mesmo sexo, sob o pretexto legal de que os ‘amázios’ não eram nada à família.
A partir do momento em que os lgbt (e não apenas os homossexuais) começaram a reivindicar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, entornou-se o caldo. Então agora as famílias têm de partilhar os ben dos seus com todo o gato sapato? Nem pensar!
E a adopção? E a fertilização assistida? Credo! Pois se o que ainda havia de bom nos casais de pessoas do mesmo sexo era precisamente não haver mais herdeiros com os quais dividir as heranças…
Parece disparatado?
Mas não é. Pelo contrário, quando um grupo de pikenos de gravatinha se senta à mesa a equacionar estas coisas, peneirados todos os factos, ficam as moedas a chocalhar na cesta e, ao olhar para elas, que difícil se torna aceitar dividi-las por mais umas quantas cabeças…
No fim, tudo se resume ao vil metal e aos direitos humanos, sempre atropelados pela ganância inescrupulosa de alguns.

(a menina iaNa não precisa destas explicações, mas adora fazer estas perguntas ;)   )

“Quem defende o casamento gay não é católico” – título do Diário de Notícias, na sequência da entrevista com o padre Manuel Mourujão na conferência episcopal realizada em Fátima.

◊◊◊ “Uma igreja que abençoa carros, casas e barcos seria incompreensível que não pudesse abençoar uma união entre duas pessoas.” – Sacerdote citado por José Leonte, Rumos Novos (homossexuais católicos).

Eleanor Roosevelt exibe a Declaração dos Direitos Humanos em versão espanhola, 1949

Eleanor Roosevelt (primeira dama dos EUA) com a Declaração dos DIreitos Humanos em espanhol, 1949

A propósito disto e da famosa caridade cristã, por vezes simplesmente traduzida por amor, apesar destes dislates fazerem disparar o meu termómetro da indignação: será mesmo necessário referendar direitos humanos? Porque, depois da alteração do artigo 13 da Constituição, importa fazer entender que não ameaçar constantemente a orientação sexual com tentativas de exclusão como esta é uma violação de direitos humanos (a liberdade de viver livre de medo é uma das quatro liberdades fundamentais consagradas logo após a Segunda Guerra Mundial, há 64 anos…).

Homossexuais mortos pelos nazis durante o Holocausto

Homossexuais mortos pelos nazis durante o Holocausto

A Igreja Católica, que tanto gosta de fazer crer que se farta de lutar pelos direitos humanos, faz questão de os quebrar em relação aos homossexuais e ao abuso de poder de que continuam a ser vítimas. Não é surpresa, claro, conhecidas como são realidades como a Santa Inquisição, a sua relutância em tomar claramente um partido durante as duas Grandes Guerras que assolaram a Europa, a sua incrível capacidade para não denunciar o Holcausto (afinal, uma mera continuação da política da Inquisição séculos atrás) e a sua óbvia vocação para a sobrevivência política em todas as questões de défice moral, social e ético.

Por que razão, então, esta sanha contra o casamento homossexual? Bem entendido, porque a Igreja em Portugal ainda teima em não admitir ter perdido o monopólio dos registos de nascimento, dos casamentos e da contabilização dos óbitos desde que o País se tornou uma república. Depois, ganhar uma luta destas, em relação a uma minoria que a Igreja subestima e está convencida que pode pontapear no chão com um referendo, ainda alimenta as suas aspirações a voltar a controlar a demografia neste jardim à beira-mar plantado.

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Caça aos homossexuais no Iraque (artigo de AFIF SARHAN and JASON BURKE no 'The London Observer')

Conseguir esmagar as legítimas aspirações de um pequeno grupo de cidadãos é só um princípio. Em resultando, pode transformar-se num milagre inpirador, capaz de demonstrar a vontade de Deus-todo-poderoso em relação a indivíduos que, na infeliz história do catolicismo, já foram muitas vezes perseguidos pelos representantes (intérpretes) de uma vontade divina que, após a criação de tão ignóbeis seres, conta com os seus representantes para os perseguir e extreminar. Isto faz-me lembrar o planeamento de uma coutada de caça. E não me parece nada diferente do que se faz em algumas ocasiões em países muçulmanos ou sujeitos por regimes totalitários e senhores de todas as verdades.

Claro que tudo isto sucede porque o Estado português não torna absolutamente claro e público que reprova a ameaça, a intimidação e a organização de actividades destinadas a segregar alguns dos seus cidadãos. Nestas alturas, não há declarações ao País do Primeiro-Ministro nem do Presidente da República. Mais uma vez, alguns cidadãos não merecem esse nome, quanto mais direitos humanos fundamentais…

É nossa convicção que a maioria dos portugueses não concorda que os socialistas católicos tenham olhos castanhos. Nesse sentido, propomo-nos recolher um número suficiente de assinaturas para uma petição a apresentar à Assembleia da República para referendar o caso.

foto: José Mota / JN

foto: José Mota / JN

É de ganir, sim. Senão, vejamos: o que aconteceria se eu me virasse para vocês e dissesse que achava a Bíblia uma leitura pouco aconselhável para as crianças? Nada. E se dissesse que o deus que lá nos mostram é um pesadelo? Nada. (Apesar da parte do pesadelo ser verdade, porque a verdade é que o deus ali descrito está sempre pronto a castigar, à esquerda e à direita, com requintes de malvadez que ainda não nos explicaram se são mesmo dele ou de quem o interpreta e usa como arma de arremesso…)

O certo é que não acontecia nada porque o Tangas não ganhou nenhum Nobel e portanto é perfeitamente passível de desprezo. O que é que as pessoas ganham em desafiar as minhas opiniões? Nada. E o que é que ganham desafiando o Saramago? Três minutos de tempo de antena.

O certo é que o Saramago escritor e o Saramago pessoa tem o direito de expressar a sua opinião sobre qualquer livro, religioso ou não. E não comete nenhum crime.

Há alturas em que não falar ou não emitir uma opinião é crime. Por exemplo, quando um chefe de governo, um governo inteiro, um partido inteiro e uma mão muito cheia de pessoas muito respeitáveis (ou talvez não tanto), insistem em nada dizer ou opinar sobre os direitos, ou falta deles, de alguns cidadãos a quem juraram proteger e defender quando assumem cargos públicos. Isso é um crime.

Quantos defensores da Bíblia e da sua justiça e de um deus que se assume como a personificação do Bem se insurgem contra esse silêncio? Nenhum.

Então o que é isto agora com o escritor/cidadão José Saramago? Estarão a pensar exigir-lhe uma indemnização por danos morais e psicológicos? E quem indemniza as criancinhas a quem dizem, ameaçadoramente, “Deus castiga!”? Ninguém.

(já agora, vejam aqui)