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- Ó tia, as lésbicas não vão para o Céu?
- Claro que vão.
- Mas a Rita e a Joana, lá da minha sala, estavam a dar beijinhos e a minha professora disse que era pecado. E a gente com pecados não vai para o céu, pois não?
- Os beijinhos não são pecados. A Rita e a Joana vão para o Céu, sim senhora.
- Olha que foi o que a professora disse…
- Pois, é capaz de ter dito. Mas se calhar esqueceu-se de dizer que Deus também gosta da Rita e da Joana e de pessoas que dão beijinhos. O que Deus não gosta é de maldades. Achas que beijinhos são maldades?
- Não. Eu gosto de beijinhos. Mas gosto mais dos beijinhos do Ricardo…
- Pronto, aí tens. Tu gostas dos beijinhos do Ricardo e as tuas colegas gostam mais dos beijinhos uma da outra. A tua professora é que, se calhar, não gosta assim tanto de beijinhos.
- Pois é, tia. Eu espero que ela esteja a fazer coisas e dou beijinhos ao Ricardo.
- E ele gosta?
- Gosta, tia. O Ricardo é meu namorado. Também gosto de dar beijinhos ao André, mas ele foge.
- Hum… Então acho que é melhor desistires de dar beijos ao André, porque se calhar ele não gosta.
- Mas ele dá beijinhos à Cátia, tia…
- Isso é porque gosta dos beijinhos da Cátia. Sabes que os beijos só são bons quando as duas pessoas gostam ao mesmo tempo.
- Mas eu gosto do André…
- Bem sei. Mas também gostas do Ricardo e ele gosta de ti, não é?
- É. E também gosto do Nuno e do Alexandre. E gosto dos beijinhos deles.
- Hum… Então esquece lá o André, que já não tens mãos a medir para tantos beijinhos.
- Tenho, tia. Eu gosto de beijinhos. Mas não é sempre, que a professora tem sempre muitas coisas para nós fazermos.
- Claro que tem. É por isso que tu gostas da escola, não é?
- É, pois. Sabes que vamos fazer um trabalho sobre o Sol nas férias?
- O que é?! O que é?! Vai-te f****!
- Jasus, Dave, a mulher até se assustou…
- É para ficar assustada mesmo!
- E calma, não há?
- Calma?! Estás a gozar, não estás?
- Estou a falar a sério.
- Olha, eu sou londrino e taxista. Queres melhor?
- Isso quer dizer que tens de assustar as pessoas?
- Que queres? Sou bom nisso.
- Pareces um puto da rua, a atirar pedras a toda a gente.
- Eheheh… Amem-me ou odeiem-me!
- É. Arma-te para aí à vontade. Quem te conhece sabe que és um coração de manteiga…
- Mas não digas a ninguém, senão dou cabo de ti.
- Pois…
- Olha, quando era miúdo, na minha rua havia uma inglesa casada com um preto. Eu e os outros putos costumávamos ir atrás das filhas deles a gritar paki!, paki!, paki! (*)
- Olha que lindo…
- Um dia a mãe delas apanhou-me pelo pescoço na rua ameaçou que dava cabo de mim se eu continuasse a insultar as filhas delas.
- E tu?
- Eu? Chorei baba e ranho e jurei muitas vezes que nunca mais dizia nada. E ela largou-me.
- Bem feito!
- Espera… Sabes o que aconteceu?
- Não. Conta.
- Casei com uma das filhas dela…
- Eheheheheheheh…
- Não te rias. É a mais bonita de todas. Elas são todas lindas, mas aquela é mais.
- Agora percebo porque é só sim, amor, está bem, está bem e vou já! ao telefone com aquela vozinha…
(* - paki ou paquistanês - termo depreciativo e racista usado para designar pessoas de cor)
- Queres que te leve aos bares gays?
- Não, obrigada.
- Hum… Já arranjaste namorada?
- Que tens tu que ver com isso?
- Nada. É só porque não queres que te leve aos bares.
- E isso quer dizer que arranjei namorada?
- Isso e esse ar lá-lá-lá…
- Lá-lá-lá?
- Lá-lá-lá.
- Explica, Dave.
- Ar de tola. Percebeste agora?
- Pronto, leva-me lá aos bares.
- Agora não te levo!
- Sou eu que pago a corrida, sou eu que digo onde quero que me leves.
- Nope. No meu táxi mando eu e não te levo aos bares.
- E pode saber-se porquê?
- Porque tens namorada.
- Isso quer dizer que não posso ir a bares?
- No meu táxi não.
- Fico contente de saber que posso ir noutros.
- Podes. Mas nunca mais entras no meu.
- Já ouviste falar de prepotência, mau feitio e implicância?
- Se queres saber, só ia à escola para me meter com as miúdas.
- Está explicado.
- Fica sabendo que aprendi muito na rua.
- Já me disseste.

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