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Quando se ouve falar de impotência, a primeira associação é a uma disfunção sexual masculina.
Antes fora, ou pelo menos, antes fora só isso. Mas, de facto, a impotência não chega a ser uma disfunção porque acaba por ser uma função banal e vulgarizada de toda a gente em algum momento da sua vida.
Não no sentido sexual, mas num outro muito mais trágico, que é o do espaço de informação de uma identidade que, não tendo de ser necessariamente poderosa, também não convém que sobreviva ao tempo de forma impotente…
Não se percebe bem porquê, mas o facto é que se assiste, com demasiada frequência, a uma espécie de desejo colectivo de que os outros, os que nos rodeiam ou os que estão por perto, não prestem, não sejam capazes nem competentes. Como se as limitações dos outros fossem a nossa margem de manobra, como se os deméritos dos outros fossem a nossa inteligência.
Desta atitude, mesquinha mas frequente, decorre a proliferação de impotentes de todas as gamas. Os que são, sempre foram e sempre serão incapazes de um gesto de afirmação ou rebeldia. Os que temem a própria sombra, não esboçam perguntas e muito menos chegam a respostas. Os que concordam sempre que alguém pensa por eles e não conseguem mesmo chegar a perceber as próprias dúvidas. Os que, sentindo-se impotentes numa dada situação, não chegam a discernir o inimigo, ou o problema, e se cansam a dar pontapés para o ar, a barafustar com coisas ao lado e a permanecerem em becos sem saída e com falta de luz.
Há depois os impotentes mais comuns, os que, às vezes, inesperadamente, vêem ruir à volta o mundo a que chamaram seu. Um despedimento, uma despromoção, uma separação, uma perda significativa, uma doença, confronta-os com circunstâncias desconhecidas e antes impensáveis em que, de um momento para o outro, percebem o que é estar perdido e desamparado. Este ultimo tipo de impotência é, para quase todos, incontornável.
Há demasiados factores aleatórios, demasiados incidentes críticos, demasiados acontecimentos imprevisíveis a testar a nossa capacidade de lidar com situações e gerir a vida.
Lamentável mesmo é que para lá do que tem de ser, ainda haja o que acontece apenas por uns tantos se sentirem potentes com a nossa impotência. Só pelo gozo.

Este post surge a propósito do livro My Miserable, Lonely, Lesbian Pregnancy de Andrea Askowitz, que foi lançado nos Estados Unidos esta semana, e no qual a autora relata a história da sua gravidez, que começa num banco de esperma, precisamente no momento em que a sua companheira decide abandonar a relação. A autora diz: “sempre achei que iria ter uma companheira e criar uma família. Mas, por ser lésbica, acho também que sempre estive preparada para criar uma família diferente”.

Esta é uma obra bem-humorada mas realista, em que a autora não faz um retrato cor-de-rosa do processo de gravidez, bem ao contrário, pois conta todas as agruras, os enjoos e todos os pormenores menos bonitos desses nove meses até ao nascimento da filha. Chama a atenção para detalhes curiosos, como o facto de ter tomado conhecimento que como diz: “quando uma lésbica diz que quer ser mãe, são muitos os homens que se oferecem para ter sexo com ela”. Por outro lado, e num tom mais sério, fala do facto de a gravidez ter também contribuído para a reaproximação da sua família, da qual se sentia exilada desde que se assumira perante eles como lésbica.

Pessoalmente tenho andado a pensar em ter um filho. Não sei se será apenas das minhas hormonas, ou o que o provoca, mas sinto que o meu relógio biológico, apesar de eu ser lésbica, se faz ouvir e sentir.

Tenho pensado o que será realmente ter um filho e até que ponto um acontecimento desses se poderá encaixar na minha vida.

Coincidência, ou não, tenho também deparado com cada vez mais blogs de mulheres lésbicas que tomaram essa decisão, umas que estão ainda em pleno processo, outras que já têm os seus filhos. Neles também encontro mulheres que tomaram essa decisão estando sós, outras que estão em assumidas relações lésbicas - já que de casamento ainda não podemos falar. Não sei o que se passa comigo, e também não consigo explicar este sentimento, que me parece até como quase uma necessidade.

Pergunto-me também se haverá um momento ideal para ter um filho. Mas a grande questão é se eu conseguiria ter um filho na minha situação – refiro-me ao facto de ser lésbica – já que o processo de concepção não é fácil, e a adopção também não é uma solução viável.

Seja como for, já sei também que no meu país não poderei optar por um processo de inseminação artificial, e assim sendo, terei que recorrer talvez à vizinha Espanha. Quanto à adopção, por cá, nem mesmo para os casais ditos “normais” está fácil, e não considero a adopção de filhos no estrangeiro uma opção aceitável quando temos tantas crianças no nosso país a necessitarem de um lar, de carinho e de amor.

Bem, talvez esta seja uma fase passageira, mas o facto é que não estou a ficar nova e então terei que agir… vou pensar e talvez um dia vos diga o que resolvi.

O post sobre a Marcha LGBT Lisboa, dia 28 de Junho e os comentários suscitados pelo tema deste ano, que será a “Visibilidade Lésbica”, suscitou alguma curiosidade da minha parte e alguma pesquisa sobre a questão.

Nas diversas coisas que li parece haver muito consenso sobre a necessidade de se apelar a esta visibilidade e sobre as razões que levam a que ela – a visibilidade – seja muito pouca.

Ficou claro para mim que este é um problema crónico nos movimentos gay por todo o mundo. Todas a organizações que não são explicitamente lésbicas são dominadas pelos homens e lutam verdadeiramente para conseguir atrair e reter a participação feminina, especialmente a nível da população em geral.

Este problema é reflectido e perpetuado diariamente “nos” e “pelos” media gay. A vasta maioria das publicações existentes são dominadas pelos homens, isto se não forem mesmo “só para homens”. A indicação que fica é de que penas duas em cada dez publicações são lésbicas ou com essa orientação, enquanto as restantes contam apenas com um conteúdo lésbico inferior a 10%. Até nos festivais anuais de filmes Gay e Lésbicos se verifica este desequilíbrio.

É impossível ter a certeza se são as mulheres que escolhem manter um “perfil discreto”, ou se elas são de facto sistematicamente colocadas à margem simplesmente pelo estilo mais “vibrante” da contraparte masculina. O que fica claro no entanto é que o domínio masculino nos movimentos pelos direitos dos gays é sintomático da marginalização histórica a que as mulheres sempre foram votadas, social, económica e politicamente.

Muitas razões podem ser dadas e discutidas sobre esta marginalização, mas isso quanto a mim nem é o mais importante. O importante é perceber que a humanidade não pode avançar como um todo se uma metade for deliberadamente deixada para trás, por seja qual for a razão. Assim, parece-me que enquanto as mulheres não tiverem também um lugar de igualdade nas lutas pelos direitos dos gays, os ganhos serão sempre irrelevantes, no contexto mais vasto da luta pelos direitos humanos.

É portanto crucial que seja feito um esforço concertado por todos aqueles e aquelas que estão suficientemente informados e equipados para a tarefa, para que de uma vez por todas este desequilíbrio seja seriamente abordado.

A pedido de uma e outra maria, já que se fala da maria em questão, aqui vai:

há maria e maria
e ainda maria
sendo que a maria
em questão é
apenas a minha
a quem dou a
mão abraço
amasso maria
querida que sem
ti já não passo
mas dizer qual
delas é que me
leva para o
espaço isso
não faço

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