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Uma das descobertas da nossa era é a do direito à felicidade.
Uma felicidade pessoal, individual e intransmissível que assenta num valor muito, muito contemporâneo: o bem-estar.
O bem-estar, apesar de mensurável, é um conceito viscoso. Não depende tanto como se poderia supor do que se tem e do que se é, mas parece muito mais dependente de características de personalidade que moldam as formas de sentir.
Daí que o bem-estar tenha mais a ver com as expectativas, as formas como se lida com os conflitos ou se gerem as frustrações do que com sólidos adquiridos bem vistosos, como sejam a beleza, o dinheiro, o prestígio ou a inteligência.
Encontram-se, a cada passo, indivíduos que, tendo tudo o que habitualmente se considera desejável, se sentem mal todos os dias da sua vida, e outros, a quem faltam dimensões tidas como essenciais, que lá vão levando a sua vidinha com alegre bonomia.
O bem-estar é, pois, a forma como cada um se sente, eivada de subjectividades e sentimentos próprios.
Ora, raras vezes, ou mesmo nunca, a história do mundo tinha contemplado como valor e como direito essa coisa de felicidade pessoal.
É praticamente impossível atravessar a vida sem magoar os outros….
Até aqui nada de especial.
Convinha era que nunca fosse esquecido que o bem-estar é uma variável relacional, para não se chegar sempre ao lugar desejado como mais um sítio de insatisfação….

Hoje é véspera da Marcha GLBT em Lisboa. Estou em casa enquanto algumas das minhas amigas já vão fazendo os preparativos para a celebração de amanhã. Como editora de um blog onde me assumo como lésbica, provavelmente seria de esperar que eu estivesse com elas a planear o Dia do Orgulho Gay. Mas não estou.

Não é que eu não tenha orgulho em ser gay. Nem uma única vez desde que me assumi como lésbica desejei ser heterossexual. No entanto, a ideia de ser orgulhosa por ser gay, soa-me um pouco estranha. Como posso ser orgulhosa daquilo que sempre fui? Não, não me sinto orgulhosa por ser gay. Sou gay. É um facto da minha vida. É parte do meu todo.

Para mim, a Marcha do Orgulho GLBT não é a celebração da minha homossexualidade, “fufisse” ou o que quiserem chamar à minha identidade sócio-sexual.

O meu orgulho não está contido num dia de Marcha. É a minha existência diária. Como poderia não ser? Só o facto de escrever neste blog já é algo de que me posso orgulhar – e não é só pelo seu conteúdo.

Já muito se progrediu desde a chamada rebelião de Stonewall em 28 de Junho de 1969. No mundo já existem hoje diversos líderes políticos assumidamente gays, há cada vez mais mulheres lésbicas em lugares de destaque. Hoje em dia já vemos gays, lésbicas, bissexuais e transexuais que assumem e expressam abertamente a sua sexualidade, sem os receios do passado. Estou orgulhosa por terem sido os gays a liderar a luta contra a SIDA. Seguramente, tanto orgulho pode ser perigoso, certo?

Qualquer religião no mundo considera o “orgulho” um pecado. Segundo o Cristianismo, foi o “orgulho” que fez cair Lúcifer. No Islão, o “orgulho” é definido como arrogância, o que também não é algo agradável. Para os Hindus, Ravana poderia ter sido o multi-poderoso rei de Lanka, não fora o seu orgulho.

Estas lições não são exclusivo de textos religiosos. O filósofo gay, Aristóteles, passou anos a explorar a noção de “orgulho excessivo” ou “hubris” que era considerado crime na Grécia antiga. Um sentido super desenvolvido de auto-respeito leva a arrogância. Arrogância, por sua vez, leva a abuso de terceiros. Aqueles que eram “atacados” de Hubris, não possuíam respeito pelos demais. Como poderiam eles amar algo que olhassem com desdém, algo que eles considerassem abaixo da sua grandiosidade? Uma existência moldada nestes termos só traz tragédia. Não é um meio para atingir um fim. É o fim. Assim, não posso celebrar o Orgulho sem abraçar também o seu oposto: a Humildade.

Procuro ser humilde todos os dias. Admito a minha humildade perante os edifícios altos da cidade, perante a beleza espantosa de uma pintora que encontro na Rua Augusta, perante o estúpido que me chama “fufa” na rua. Claro que o ser humilde perante tudo isto não me faz sentir grandiosa, mas é necessário. O meu coração fica até magoado com cada experiência destas. Mas, como todas nós sabemos, o coração é um músculo resistente. Ele cura-se. Pode levar um minuto ou um ano, mas cada uma das nossas cicatrizes emocionais nos torna mais fortes. É a minha – e a tua – força que me faz mais orgulhosa.

As pessoas gay são pessoas lutadoras. Já ultrapassámos tanta coisa, fomos atacados pela doença, pela discriminação, pela religião e pelas políticas. Apesar das ofensas e abusos, com tenacidade, muita força e vontade de viver, continuamos a avançar, a viver Stonewall, a enfrentar os que nos odeiam e a abrir portas para as gerações futuras.

O Orgulho é sobre recordar estas lutas. O Orgulho é sobre olhar para a frente para futuros triunfos. O Orgulho é sobre reconhecer os nossos erros, as nossas fraquezas, mantermo-nos a nós próprios em cheque. O Orgulho não deveria ser um dia isolado de entre 365 dias (ou 366, dependendo do ano).

O Orgulho não deve ser simplesmente baseado em auto-respeito, admiração ou celebração. O Orgulho deve ter por raiz o desejo de tornar o mundo um lugar de mais amor, mais liberdade e progresso. O Orgulho deve ter por base a luta pela liberdade Universal.

Enquanto alguns gays e lésbicas preferirem manter-se fechados em si mesmos, “existindo” num ghetto e associando-se unicamente com outros gays e lésbicas, eu não sou uma delas. Há muita gente bonita, interessante e atraente neste mundo. Há muita gente com necessidades primárias, muita gente que se sente relegada para segundo plano. O Orgulho deveria servir como alerta para nós de que há muito mais a fazer, não só para as pessoas gay. Se não conseguimos usar as lições aprendidas para ensinar outros, qual é a vantagem?

Não há nada pior que o egoísmo.

Agora, tenho que sair de casa para usufruir do resto deste dia, véspera da Marcha LGBT em Lisboa. E de todos os dias que se seguem.

Um estudo publicado esta semana na revista Procedings, do instituto sueco National Academy of Sciences (PNAS), afirma ter comprovado que o cérebro de um homem gay se parece mais com o de uma mulher do que com o de um homem heterossexual. O mesmo se aplica às lésbicas, cujos cérebros apresentam mais semelhanças com o de homens heterossexuais do que com o das outras mulheres. A pesquisa reforça a ideia de que a sexualidade não é uma opção, mas sim uma característica biológica. Mas avança também que “são necessárias pesquisas mais amplas com grupos de estudo maiores para buscar uma melhor compreensão da neurobiologia da homossexualidade”.
De acordo com os dados apresentados pela equipe de neurocientistas liderada por Ivanka Savic, do Instituto Karolinska, da Suécia, o tamanho e a forma do cérebro variam de acordo com a orientação sexual.Tomografias realizadas em 90 voluntários mostraram que o cérebro dos homens heterossexuais e das mulheres homossexuais é ligeiramente assimétrico, apresentando o hemisfério direito um pouco maior do que o esquerdo, dizem os investigadores Ivanka Savic e Pers Lindstrom. O cérebro dos homossexuais do sexo masculino e das heterossexuais não apresentam essa assimetria. Os cientistas mediram também o fluxo de sangue na amígdala cerebelar, uma área importante para os comportamentos agressivos, e descobriram que tem uma ramificação semelhante nos homens gay e nas mulheres heterossexuais, apresentando outra forma entre as lésbicas e os homens heterossexuais.
Em aberto continua a questão de essas características se verificarem durante o desenvolvimento fetal ou no pós-natal. Os investigadores acrescentam que o estudo não consegue dizer se as diferenças na anatomia do cérebro são herdadas ou se decorrentes, por exemplo, da exposição a hormonas como a testosterona no útero, e se são responsáveis pelas escolhas sexuais de um indivíduo. Pretendem avaliar isso num novo estudo a ser realizado com bebés recém-nascidos, para verificar se esse tipo de avaliação conseguirá ajudar a prever a orientação sexual deles no futuro.

Acordem o que quiserem, que a língua é viva e não está presa a contratos, palavras, compromissos.
É lá possível ler Natália, Alvarez, Pepetela, Mia Couto, Camões, Camilo, Ondjaki, Mauro de Vasconcelos e outros sem amar profundamente todas as veredas que o português vai tomando…

A marcha do Orgulho de Madrid tem, este ano, a visibilidade lésbica como tema. A decisão foi tomada por um conjunto de ONG lgbt, que também se debruçou sobre os direitos dos emigrantes e a homossexualidade na terceira idade.
Levou tempo, mas pode ser que já seja mais fácil entender que a discriminação deve ser combatida no todo. Ouviu, senhor José?

É sempre curioso saber que a maior parte das visitas que se fazem aqui vêm do anterior Tangas. Tal como é espantoso saber que a pesquisa de contos lésbicos, como saber se uma mulher é lésbica e mensagens para advogadas são termos que também trazem as pessoas até aqui.  Os contos lésbicos ainda entendo e, quanto ao saber ou não se alguém é lésbico, tirando a óbvia pergunta directa que porventura funcionará sempre muito melhor do que a vinda até ao Tangas, o que mais me intriga é como é que alguém chega aqui através de mensagens para advogadas. Será que os motores de busca endoideceram?

Na sexta-feira houve quem me deixasse, discretamente, uma folha de bloco de notas muito bem dobrada à frente, com nome, email e número de telefone. Já não me acontecia uma dessas há que tempos.

O sábado foi agitado. Começou com um baby shower em que de repente estavam as mulheres e crianças todas de um lado, e eu e os pikenos do outro, a fazer martinis, sangria e a atirar pedras de gelo para dentro de copos de uísque. Pelas caras das pikenas, não creio que me voltem a convidar tão cedo para uma festa de família. Até porque a pretexto de me darem boleia até casa, os pikenos juntaram-se todos num carro e ainda tive direito a uma visita guiada a um dos distritos vermelhos, com promessa de para a próxima não ficarmos só pelas ales

A páginas tantas um dos pikenos acabou por ganhar fôlego e atirou um Não me digas que és gay, e Olha o respeito, rosnou um dos meus primos. Deixa estar disse eu, vai lá buscar mais um pint para a gente. Entretanto o inquiridor acabou por me contar que tem uma filha de doze anos que ele acha que é lésbica. Deixa lá a miúda crescer e depois pensas nisso, disse-lhe eu. Olha, eu sei, disse-me ele, porque a miúda se virou para a minha mãe, aos oito anos e disse que era lésbica. A minha mãe achou graça, porque não sabia o que era. Depois foi perguntar e não achou graça e nenhuma. Ferrou-lhe uma valente surra e eu não gostei nada. Ia-me engasgando com a ale e tudo. Quem não deve ter gostado nada deve ter sido a miúda, disse-lhe eu. O que queres? A minha mãe vive em Cacia e ali não estamos habituados a essas coisas. Mas agora ninguém lhe toca, que eu não quero. Depois da surra, há-de adiantar-lhe grande coisa, pensei eu. A mim, se me tivessem sovado aos oito anos por uma dessas, ficava a bater mal, ai se ficava…

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