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As Notícias foram actualizadas.

Nota: fantásticas, as declarações de Manuela Ferreira Leite à TVI sobre os homossexuais. Fantástico também quando uma dirigente política produz afirmações em que se entende que não está disposta a tratar todos os portugueses da mesma forma e não há um jornal, um jornalista, uma pessoa de bem que a confronte com a gravidade desse tipo de discurso.

- Boa tarde, D. Deolinda.
- Boa tarde, menina. Como vai a sua maezinha?
- Bem, obrigadinha. E a senhora?
- Tem dias. É a vida.
- Lá isso… Posso fazer-lhe uma perguntinha?
- Claro que pode menina.
- A D. Deolinda vai à Marcha do Orgulho?
- Não sei que marcha é essa, menina. Mas eu cá gosto é de marchas. Onde é essa?
- No Príncipe Real, no sábado, às quatro da tarde.
- Olhe que até calha bem, que eu sábado não tenho Centro de Dia, sabe?
- Então podemos contar consigo?
- Claro que podem, menina. E que marcha é essa? Algum santinho especial?
- Não, D. Deolinda. É a marcha pelos direitos dos homossexuais.
- Ah, está bem. Também têm direito, sabe? Somos todos criaturas de Deus, não é?
- É assim mesmo, D. Deolinda. Então sábado contamos consigo.
- Contem sim, que eu gosto de marchas. Desde o 1º de Maio, sabe, menina? Com o senhor Soares e os revolucionários dos cravos. Lembra-se, menina?
- Claro que me lembro, D. Deolinda.
- Eu gosto dessas coisas, menina. Foi uma grande coisa, sabe? Dantes era tudo mais tristonho, não íamos à rua para essas alegrias. Dava-se uma voltinha pela Baixa ou pela beira-rio, para arejar, mas não era assim essa coisa das festas.
- Pois não, D. deolinda.
- Agora a gente vai e canta e diz o que nos vem à cabeça, sem medo de ir com a ramona.
- É a liberdade, D. Deolinda.
- Isso é. Então até sábado, menina.
- Até sábado, D. Deolinda.
 

- Vamos às cores, menina aura?

- Embora…

- Acha que eu sou uma troca-tintas?

- Quem é que diz uma coisa dessas?

- As más línguas, claro.

- Ah… Isso das más línguas dava pano para mangas…

- As línguas também têm aura?

- Claro. Se o resto do corpo tem, as línguas também.

- E qual é a cor da aura das más línguas?

- Isso é para aí uma coisa negra…

- Então deve desencorajar-se a má língua?

- Claro. Quem é que quer ter uma má língua? Serve para quê?

- Olhe que há quem lhe dê uso…

- Sim, mas às tantas, se elas são más, também é mau uso.

- E o mau uso da língua também põe a aura negra?

- Claro que sim. Uma coisa está relacionada com a outra.

- O que é que faz uma aura ter uma boa cor?

- Uma vida regrada, pensamentos positivos. Essencialmente, é o amor.

- Então o amor é o segredo de uma boa aura e de uma boa vida?

- Sem dúvida. O amor-próprio e o amor ao próximo, entenda-se.

- Então, all we need is love

- Já diziam os Beatles, e tinham razão.

- Mas eles também diziam que a Lucy andava no céu com diamantes.

- O diamante reflecte todas as cores.

- Mas no caso deles, acho que o diamante era mais psicadélico. Há auras psicadélicas?

- Há muitas pessoas com uma aura psicadélica, lá isso é verdade.

- E o que é que isso significa?

- Significa que são pessoas que mudam de estado de espírito e de humor com muita facilidade e com muita frequência.

- Isso é mau ou bom?

- Isso reflecte instabilidade. Não entendo que a instabilidade seja uma coisa boa.

- Ó menina aura… Eu conheço muita gente estável que é muito chata. De que cor é a aura delas?

- Essas são as cinzentonas.

- Isso é bom ou é mau?

- É mau. Tudo o que sejam pretos e cinzentos relacionados com a aura é péssimo.

- De que precisam essas pessoas para ter uma aura mais colorida?

- Precisam de mudar a sua forma de estar na vida. Precisam de ser mais alegres, mais dedicadas aos outro. Precisam de amar e ser amadas. Ajuda muito a abrilhantar as cores.

- Lá vem o arco-íris, não é verdade?

- Pois, lá estamos novamente no arco-íris.

- E no fim do arco-íris está um pote de moedas de ouro, como dizem os irlandeses?

- Esses irlandeses são muito materialistas. No fim do arco-íris está a felicidade.

- Portanto, felicidade e boa aura são sinónimos?

- Não se consegue ter uma boa aura se não se for feliz.

- Obrigada, menina aura. Vou dedicar-me mais uma vez à felicidade.

- Eu sei que a menina anda muito feliz. Esta semana até falou num porta-moedas a transbordar. A ver se alegra também quem anda por aí. E seja feliz, claro.

- Olá menina aura. Bem dispostinha?

- Sempre, minha cara amiga. Um bocadinho despenteada hoje…

- Ai as auras também têm disso?

- Isso o quê, menina?

- O vento a dar-lhes e lá se vai a compostura.

- É mais ou menos isso, é. Andam aí umas ventanias fortes.

- Não me diga que temos de usar gorro…

- Não, nem pensar, que o vento faz bem. Afasta as coisas indesejáveis.

- É bom saber isso.

- Mas vamos falar de meteorologia hoje?

- Não, que aqui as meninas andam todas em reboliço por causa das cores. Não reparou?

- Reparei, pois. Vamos lá às cores.

- Diga lá então como é que se pode saber a cor da aura.

- Para saber a cor é preciso conseguir ver, coisa que nem toda a gente consegue. Mas vai lá com treino.

- Frequenta-se algum curso, workshop ou licenciatura?

- Não. É bem mais simples do que isso.

- Então?

- Passa por um processo de meditação.

- Não me diga. Eu cá já tentei meditar. Mas a única coisa que consegui foi ressonar…

- Pois, o cansaço não ajuda e às tantas troca as tintas todas.

- Ufa, ainda bem que avisa. Quer dizer que corro o risco de trocar a coloração quando estou cansada?

- Trocar não é bem o termo. Mas que muda de cor se estiver muito cansada, lá isso muda.

- Então vamos a exemplos práticos: diz que tenho uma aura lilás. Quando estou cansada, de que cor fica?

- Quando está cansada fica quase cinzenta.

- Ai jasus, não me diga uma coisa dessas… Eu detesto gente pardacenta.

- Mas é assim que as pessoas ficam quando estão cansadas. Cinzentas, não pardacentas. Não é à toa que existe o termo cinzentonas.

- E quando a gente se apaixona, de que cor fica a nossa aura?

- Aí vai para uma das cores de que a menina tanto gosta e que tanto a preocupa: vermelho. E se quer saber uma curiosidade, o rosa é a cor das grávidas…

- Pronto, já vai pôr pelo menos uma menina em parampas.

- E o amarelo é a cor das belicosas.

- Pronto, adiante. E de que cor ficam as auras das meninas numa marcha do pride?

- De todas as cores.

- Porquê?

- Porque há muita interacção, muitos sentimentos misturados.

- Ai as coisas que a menina sabe…

(intervalo comercial; a sessão segue dentro de momentos)

- Ó menina Aura, diga lá de uma vez se a aura das lésbicas é lilás.

- Não obrigatoriamente. Mas a minha é.

- Ah… Mas, então, a auras das lésbicas são como o arco-íris?

- Não.

- Ai, que hoje está do contra…

- Não estou nada. Mas olhe que a sua também é lilás.

- Ai… E a ausência de vermelho não me afecta?

- Não, porque nem sempre está lilás. Às vezes está vermelha.

- Ó jasus… Isso soa-me a cortina de ferro.

- Isso diz a menina.

- Pois digo. Além das capas dos toureiros, só me lembra a cortina de ferro. Ou então, está a tourear-me…

- Não, que eu não sou nada dada a faenas.

- Destas, espero…

- Nem dessas, nem de nenhumas, que não gosto de touradas. São muito muito monocromáticas, porque os pobres dos bichos não vêem as cores. É tudo cinzentos e pretos. Assim como os felinos só vêem verdes e azuis.

- Deixando agora de parte o jardim zoológico, voltemos às lésbicas. Que auras afinal têm as meninas?

- Podem ser até o arco-íris, mas não todo de uma vez.

- Ah… Por isso é que elas se juntam para formar aquelas bandeirinhas multicolores…

- Está a ver como já está a perceber a coisa?

- Diga-me lá, então: há cores melhores e cores piores?

- Disparate… Todas são boas.

- Se todas são boas, porque é que anda para aí tanta menina a disparatar?

- Isso é por conta e risco delas. Acabam por estragar as cores. Essas é que dão mau nome às cores. Na volta nem sabem de que cor de são. Estão confundidas, coitaditas.

- Isso é problema de muito boa gente. Mas, voltando à vaca fria, diga lá se a aura lilás se distingue por alguma característica especial.

- Claro que distingue. Normalmente, quem tem essa aura é mais audaz, mais destemido. Menos preso a preconceitos.

- Ora aí está uma coisa interessante. Podemos então dizer, que sendo o lilás a cor adoptada como símbolo das primas, nos estamos a habilitar a um pouco dessa audacidade e falta de preconceito?

- Claro que sim, porque, numa palavra, o lilás é a cor da transmutação.

- Trans e mutação. Olhe que escolha tão apropriada de termos…

- Não brinque com as minhas palavras. Transmutação quer dizer mudar, limpar, purificar, transformar. Estamos a falar da aura, não estamos a falar de transexuais e dessas coisas. Se quer saber, a cor desses é laranja.

- Pronto, seja. Já agora, de que cor é a aura do senhor José?

- Ó menina, não me meta em apertos…

(fim da primeira parte)

Actualizadas as Notícias.

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(vê menina só maria que me lembrei de si e toca a disparar o telemóvel ali na décima nona rotunda a contar do vigésimo segundo cruzamento a caminho da capital?)

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