tangas-pagu

— Está a ver aquela coisa azul e branca do fêquêpê?
— Estou a ver e nem acredito…
— Pois é. Bem me chegou a tentação de lhe oferecer uma camisola do zepórtingue, mas como é o aniversário dela, não quis fazer-lhe a desfeita.
— O aniversário foi ontem…
— Bem sei, mas ainda não me atendeu o telefone. Se berrar daqui pode ser que ela ouça.
— Pode estar surda. Estamos todas a ficar mais velhotas.
— Paguuuuuuuuuuuuu!
— Pagu na Tanga, devia ser…
— Ou na Tanga com a Pagu?
— Como preferir. A ver se pega nas crónicas outra vez.
— Acho que está a ficar preguiçosa e com dificuldade em juntar as letrinhas.
— Quero ver se tem lata para lhe dizer isso na cara.
— Ainda se lhe visse a cara…


newmoon-tangas

— Está a ler horóscopos?
— A devorar esta coisa da lua nova de hoje.
— Qualquer dia apanho-a a ler fotonovelas.
— Qualquer coisa que não envolva notícias é ganho.
— Nisso tenho de concordar consigo. Mas o que é isso da lua nova?
— Uma coisa especial, segundo os entendidos. Daquelas que nos muda a vida para sempre.
— E aplicações práticas?
— As que lhe quiser dar. O céu é o limite.
— Sério? Acha que posso encomendar já sushi de camarão crocante e gelado de chocolate e avelã em três bolas gigantes?
— Deixe a encomenda em aberto e aceite o que o universo tem para lhe dar.
— Hum… Um bocadinho new age a mais para o meu gosto, mas vou tentar. E o livrinho que estava a ler? Como se chamava mesmo?
— Que rodeios a menina faz para me pedir Os Cadernos da Joana Moisés
— Devem ser os efeitos da lua nova. Gostou?
— Ainda estou aluada…


OS CADERNOS DE JOANA MOISÉS - CAPA (3)-SINGLE

— Já está nas leituras de verão? Que livro é esse?
— Um romance de primas em 258 páginas.
— Parece interessante. Está a gostar?
— Bastante. Está escrito na primeira pessoa, como se fosse um diário, mas sem uma sequência cronológica. Como se a protagonista se fosse lembrando de episódios da sua vida.
— Hum… E quem é essa personagem?
— A Joana Moisés do título, uma jornalista. Os capítulos vão de 1973 até 2009, e passam-se em Moçambique, Lisboa, Cascais, Londres e Andorra.
— Tudo isso?
— As histórias são rápidas. E algumas bastante divertidas. Nem se dá conta das páginas que ficam para trás.
— Cenas explícitas?
— Algumas. Afinal, isto é um livro de temática lésbica.
— Quantos capítulos?
— Vinte e sete, com referência aos anos em que se passaram, e a maioria com o nome das pikenas que os protagonizaram.
— Então a protagonista não é a Joana Moisés?
— É, claro. Mas depois vai-se envolvendo com as outras pikenas, que têm direito a um ou mais capítulos cada uma, conforme a importância e os detalhes de cada relação. Outros são experiências por que passou, descobertas e por aí fora.
— Acha que a autora se autobiografa aí?
— Na nota introdutória diz que não.
— E é conhecida?
— Nem por isso. Jornalista, com mais umas publicações, poemas, histórias para crianças, contos, blogues.
— Houve lançamento?
— Ainda não. O prefácio é do Albino Cunha, da Janela Indiscreta, que produz o Queer Lisboa.
— Parece-me bem. Despache-se lá a ler isso para eu lhe deitar uma vista de olhos.
— Não se preocupe, porque estou morta por saber com qual é que ela fica no fim.
— Depois dessa agitação toda, devia era virar celibatária…

(Os Cadernos de Joana Moisés, de Marita Moreno Ferreira, rumoresdenuvens edições)

junho2016-lgbt

Hoje é dia de santas e santos no Porto e Lisboa. Nas outras cidades ainda não. Santos ainda sem estátuas e nichos e devotos. Também falta o fogo de artifício que os consagra como verdadeiramente populares. Mas há marchas — ainda sem concurso de bairros, associações ou agremiações — comida e bebida como deve ser, festa e música. Discursos, actividades, mas ainda faltam os vasinhos de flores e as quadras estampadas em bandeirinhas. Ó santos do meu país, ainda se cala a desgraça, ainda pouco se diz…
Hoje há santas e santos e amanhã cala-se a festa até ao próximo ano. Mas hoje dança-se e canta-se, pelo menos em duas cidades. Nas outras a festa é mais discreta, de preferência um bocadinho desviada dos rossios e das praças dos municípios — quem quiser dessas que se desloque à babel de Lisboa ou à do Porto. Hoje são santinhas e santinhos a saltitar um pouquinho, felizes por um só dia.
O que interessa o que defende a lei, se mesmo assim nenhum autarca, nenhum governante estimula a festa em todas as cidades? Ou corrige assimetrias? Ou deixa de pensar que estas coisas de defesa dos direitos de cidadãos são da única e exclusiva responsabilidade dos mesmos, esses grupelhos a quem a igualdade interessa.
Hoje há marchas sim, mas não para todos nem para todos. Há marchas que se empurram com a barriga (ou partes menos rotundas do corpo) porque na verdade nenhum político se atreve ainda a defender direitos em todo o País. Ou seja, alguns direitos ainda são mais devidos em duas cidades do que nas outras todas. Pelo menos por um dia.
Santinhas e santinhos destes ainda não moram de verdade no coração. Ainda ninguém vem para a rua gritar Estes santos também são nossos! Também são nossos filhos, nossos amigos, do nosso sangue, do nosso coração!
Não, ainda não. O coração ainda não é tão grande como isso. Ainda só começou a bater abertamente em Lisboa e no Porto. Nas outras cidades não.
Venha o próximo político que jure que em honesto serviço público, se trate estas santas e estes santos como tão dignos de se celebrar em Junho como António, João e Pedro. Ou Maria, Fátima e Conceição.
Hoje há santos, sim, mas ainda indignos de mais admiração do que a própria, ainda apenas orgulhosos por omissão do orgulho, da coragem e do coração dos outros.


http://filmeslesbicos.blogspot.pt/

— Nada como uma tarde de cinema para festejar o Santo António.
— Não era a Antónia, a Santa?
— Para o efeito, dá no mesmo, não dá?
— Já não sei. O Santo podia arranjar-nos um moçoilo garboso para o desfile dos noivos de Santo António Lisboa.
— E quem lhe garante que a Santa Antónia não lhe arranja também um blind date com o melhor amigo de infância dela?
— Não há paz possível com tanta possibilidade…
— Há sim: um bom filminho de primas para nos alegrar o dia.
— E que Santa Abacate nos valha!
— Ainda temos? Sempre se fazia um docinho de abacate com uma pitada de açúcar, canela e vinho do Porto para depenicarmos da mesma tijela. Vamos para o sofá?


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— Voltou para o sofá?
— Estou a pensar.
— É uma ocupação natural, não se preocupe.
— A menina acha que eu só escrevo aqui quando estou zangada?
— Disseram-lhe isso, foi?
— Foi. Acha que é verdade?
— O que eu acho é que não deve perder muito tempo com as opiniões dos outros. Somos todos muito opinativos sobre tudo.
— Mas acha que é verdade?
— Sim, de certa forma.
— Como assim?
— Então: esta coisa do militantismo, dos grupos de protesto e das causas surgem sempre porque pensamos que alguma coisa não está certa. Concorda?
— Concordo.
— Quando não concordamos com uma coisa, lá vamos nós tentar mudá-la, não é? Especialmente se a consideramos injusta. E lá vem a zanga, em maior ou menor dose, conforme nos sentimos mais ou menos compreendidos. Por isso, acho que sim, que nos zangamos sempre um bom bocado quando tratamos de repor a justiça.
— Hum…
— Com tanta injustiça neste mundo, andamos sempre um bocado zangados, não acha?
— Está a insinuar que cultivamos zangas?
— Até temos uma cultura em que estar zangados com montes de coisas é ser sério e responsável.
— Nisso tem toda a razão. Mas tangas são tangas…
— Tangas, humor, piadas, são zangas com verniz de boa disposição. Por baixo há sempre uma zanguinha inicial.
— Hum… Vou fazer uma sesta para ver se me passa a zanga.
— Faz muito bem. Chegue-se para lá um bocadinho para ver se a sesta chega para as duas.


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— Não é que chamaram a polícia?
— Onde? Porquê?
— Por causa das pikenas do prédio ao lado.
— Então? O que aconteceu?
— Parece que brincam de mais…
— Brincam? Como assim?
— Aquelas coisas normais que fazem parte da vida de casal e que as pessoas deixam de fazer com o passar do tempo. Incomodam a vizinhança…
— Pois é. A construção já não é o que era.
— Um sinal dos tempos, é o que é. Não tarda comercializam máscaras para abafar a sensualidade.
— Que exagero…
— Deve ficar mais barato do que alugar um celeiro com palha para praticar fora do raio de audição dos vizinhos.
— Convenhamos, não é agradável ser obrigado a participar da intimidade dos outros.
— Também não é agradável não poder fazer as coisas que as coelhinhas fazem naturalmente em casa, só porque a maioria das pessoas já se esqueceu do que é bom.
— Queira ver o que a menina fazia se as pikenas morassem aqui ao lado.
— Punha-lhes um bilhete na porta: “Tenho crianças em casa que começam a acreditar que as abelhinhas a polinizar flores provocam pesadelos.”
— Muito engraçada…
— Ou: “Vivo do rendimento social e não tenho dinheiro para comprar tampões para os ouvidos.”
— Tenho a certeza que os vizinhos fizeram isso mesmo.
— Acha mais razoável chamar a polícia?
— Acho que os vizinhos tiveram, pelo menos, a oportunidade de agir em conformidade com as suas frustrações e empatar as fadas em grande estilo.
— Coitadas das fadas…
— Dê-lhes tempo, que também elas passam para o lado das frustrações.
— Santa Abacate lhes valha.
— Ámen.


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— Primeiro andamento, Solemnia Regina: uma verdadeira princesa de sangue lilás está de ouvidos postos nas mais elevadas vibrações sonoras. Só isso lhe interessa, só para isso vive. (Nota: coroa lilás)
— Que está para aí debitar?
— Segundo andamento, Nobis Regina: a verdadeira princesa lilás reserva a mente para o total controlo do que a rodeia. É a sua dádiva à Humanidade.  (Nota: coroa azul)
— Está a compor uma ópera?
— Exactamente: a La L Principesca Simphonia.
— A sério?
— Gosta do título? Já vou no terceiro andamento, Pax Regina: a verdadeira princesa reina em paz e harmonia; nada perturba a influência divina da sua verdadeira natureza. (Nota: coroa verde)
— Acho que essa Regina lhe deu a volta à cabeça…
— Não me distraia. Quarto andamento, Regina Luminosa: a inspiração e a luz estão na verdadeira princesa, que com ela espalha a alegria e a vontade de viver por todas nós. (Nota: coroa amarela)
— Valha-nos Santa Luzia, igualmente luminosa…
— Quinto andamento, Regina Prospera: a verdadeira princesa lilás não conhece senão o êxito, a abundância, a felicidade. (Nota: coroa laranja)
— Minhas deusas, isto complica-se…
— Sexto andamento e gran finalle, Regina Apoteotica: o sangue lilás transporta consigo a força das realizações maiores, a cereja em cima do bolo. Salvé! (Nota: coroa vermelha)
— Sublimação conseguida, hã?
— Gostou?
— Tenho ali uma caixa inteira de paracetamol. Vou buscar-lhe um copo de água.
— Vá é buscar-me uma compositora, que preciso de muita música para este libreto.
— Precisa é de juízo nessa cabeça. E compressas frias.
— Sempre desconfiei da cor do sangue das suas veias…
— Como diz?
— Esse lilás anda a desbotar para o rosé?
— Quer ir dormir para o sofá hoje?


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Deneuves, Madonnas, DeGeneres, Fosters, Mercurys, princesas, princesas, princesas. O sangue lilás corre quase discretamente nas veias de milhões, da América à Europa, da África à Ásia e à Austrália. Rios serpenteantes de fascínio e histórias de encantar. Princesas de todo o mundo a iluminar a vida e a imaginação de todas as primas.
— A menina está a delirar?
— Claro que não.
— Está a pôr-se em bicos dos pés e a arranjar uma elite acima de todas as comuns mortais?
— Também não.
— Então?
— Estou apenas a aproveitar a fortíssima vibração da corrente lilás que nos inebria de vez em quando.
— E isso é uma coisa boa?
— Claro que é. Qualquer sentimento de pertença e união é benéfico. Eleva a mente e o corpo.
— Está a ter uma epifania lilás?
— Das mais puras. A exaltar o que de melhor existe em nós.
— Primas de todo o mundo: uni-vos que ela está de volta!
— Correcção: princesas! Ámen.


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