Já correu muita tinta e letra desde que este blogue começou. Desde os idos tempos da formação de uma associação para a defesa LGBTI & etc. Ainda não se legalizou nenhuma para as tangas. Mas lá chegaremos.

Para já, o que importa é voltar e ver o que acontece. Fluidamente. Sem medo e sem preconceitos, sempre que possível. Nada é mais difícil, mas aqui poderá ser fácil e corrente e com muita alegria. Até já.

Ah… Esqueci-me que agora não se lêem blogues. Só publicações nas redes sociais. Deve ser outro preconceito, como todos os de que necessitamos para comunicar. Aquela coisa de chamar os bois pelos nomes. Neste caso, as vacas. Ai, desculpem. Esta coisa do politicamente correcto esgana-nos todos aos poucos e poucos.

Isto está a ficar como os algoritmos da Google, que fixam as nossas navegações habituais e depois deixam de ser motores de busca para se tornarem em colecções de roteiros habituais. São como os preconceitos. Não querem que a gente mude.

Portanto, vamos lá chamar os vitelos de todos os géneros pelos nomes que cada um prefere. De pequenino se torce o pepino, dizem. Já viram algum pepino torcido? Também não. Estes lugares-comuns podem ser um disparate pegado.

Vamos lá às tangas de 2022.

#tangaslesbicas #tangas2022 #voltarastangas


homosapienneniviak-korneliussen

Lançado em Novembro de 2014 por Niviaq Korneliussen (Gronelândia), tem uma versão em dinamarquês e tornou a sua autora um sucesso de vendas no seu país natal (mais de duas mil cópias vendidas num universo de cinquenta mil habitantes, e muitos milhares mais na Dinamarca).
O nome é uma versão feminina do velho homo sapiens e Niviak escreve sobre as relações de um grupo composto por duas lésbicas, um gay, um bissexual e um transsexual e a sua obra teve um grande impacte na literatura local e Dinamarca.
O romance já tem tradução alemã e a autora esá a trabalhar num segundo livro. Esperemos que as versões inglesas e portuguesas cheguem depressa.


natanga-2017

— Que está a fazer?
— A preparar o meu postal para o dia das namoradas.
— Hum… Um bocadinho grande, não acha?
— Acho-o pequeno para o efeito.
— Quer dizer que descobriu a sua alma-gémea?
— Ainda não.
— Mas acalenta esperanças. Estou a ver…
— Não é o que pensa.
— Então o que é?
— Estou a pensar em grande.
— Como assim?
— Cartão grande, pensamento grande.
— Só isso?
— É preciso mais?
— Se calhar não. Eu é que sou dada a coisas mais concretas.
— Não precisa de mo dizer a mim.
— Está a querer dizer-me alguma coisa?
— Não nada de especial.
— Pronto, percebi. A quem vai enviá-lo?
— Este ano resolvi esperar que o venham buscar.
— Vai ficar em casa até que apareça alguém?
— É uma estratégia tão boa como sair por aí desesperadamenta à procura de alguém.
— Nisso tenho de concordar consigo. Mas também pode organizar uma festa e logo se vê se alguém se identifica com o seu postalinho.
— Uma festa? Com as pessoas que conhecemos? Se alguém trouxer uma cara nova é porque a coisa já vai encaminhada.
— E se pedirmos que tragam uma convidada surpresa, de preferência solteira?
— Olha que subtileza…
— É melhor que nada. Acha que as primas alinham?
— Numa festa de corações solitários? Claro que alinham. Anda tudo a namorar o romance.
— Então está combinado.
— E eu a pensar que a menina estava na tanga…


az-si-2016

Capa da Sextante baseda numa obra de Tim Madeira e Ana Zanatti; fotografia da autora de Inácio Ludgero

A primeira razão para se ler O Sexo Inútil, de Ana Zanatti, é a facilidade com que se começa e acaba a leitura. Alguns livros, como este, têm o condão de nos manter suficientemente interessados para não descansarmos enquanto não chegamos ao fim. Não se assustem, pois, com o facto de ser um ensaio, e longo, porque se lê como um romance, embora não o seja. A autora é uma grande contadora de histórias e demonstra-o aqui muito bem.

A segunda é por ser um livro que se pode dar a ler a qualquer pessoa. Sem receio de chocar ninguém , porque tudo é dito muito directamente, mas sempre de forma muito correcta. “Apesar do meu fraco apelo por experiências radicais, a minha natureza que tende para a harmonia, a conciliação e a paz, perante a liberdade ameaçada reage explosivamente. Era assim e assim se mantém.” (pp. 464), escreve a autora. A sua explosão surge, no entanto, da honestidade interiorizada, não da defesa que despoleta o ataque gratuito.
Ana Zanatti diz tudo o que deve ser dito, sem afrontar ninguém. Não se esquece de ver o outro lado e evita os julgamentos de valor que não passam também de preconceitos. E esta é a terceira razão para ler o seu livro.
Outra boa razão (quarta) para meter o nariz nesta não ficção é o facto de fazer um bom apanhado de todos acontecimentos que promoveram a visibilidade e os direitos lgbti em Portugal e lá fora, assim à laia de história muito breve. As notas são informativas, extensas q.b. e não perturbam a leitura. Além disso, a autora adiciona inúmeras referências a escritores e obras com excelentes contributos para alargar os nossos horizontes como leitores e como seres humanos interessados em fazer da vida uma experiência com sentido.
Depois, cada capítulo tem o título de um filme, o que nos obriga a pensar numa maratona cinéfila de livro na mão, a viajar pelas pequenas e grandes inspirações que deram origem a uma classificação desse tipo. Sugestivo e a adicionar como quinto motivo para se ler este livro.
O fio condutor de todo o trabalho é a longa troca de correspondência com uma jovem cujos problemas cativaram a atenção da autora. É fácil a identificação do leitor com inúmeras experiências de ambas. Mais fácil ainda se percebermos como determinadas posturas são comuns a todos nós e não se restringe ao âmbito da orientação sexual. Sexto motivo do interesse desta obra.
Por fim, destaque para a compaixão implícita nas suas quinhentas e muitas páginas. No sentido do amor pelo outro e por um honesto esforço para o entender. Na correspondência, nas entrevistas feitas com homossexuais e familiares, e nas reflexões da autora.
A mudança em nós não se dá sem o contributo dos outros e, só com essa transformação pessoal podemos almejar um comportamento diferente dos que nos rodeiam. A discriminação com base na orientação sexual é apenas mais um pretexto para conformar a nossa liberdade aos limites de crenças insensatas, que surgem de escassas ou inexistentes reflexões sobre o que pode ou não pode acontecer na nossa vida.
O sexo inútil é, por todas as razões acima, um livro útil para quem não se conforma e mantém dentro de si a noção que tudo pode ser melhor se amadurecermos ideias mais correctas sobre o que é realmente a nossa liberdade como indivíduos e como sociedade. Com honestidade e senso comum, como nos sugere Ana Zanatti.

tangas-pagu

— Está a ver aquela coisa azul e branca do fêquêpê?
— Estou a ver e nem acredito…
— Pois é. Bem me chegou a tentação de lhe oferecer uma camisola do zepórtingue, mas como é o aniversário dela, não quis fazer-lhe a desfeita.
— O aniversário foi ontem…
— Bem sei, mas ainda não me atendeu o telefone. Se berrar daqui pode ser que ela ouça.
— Pode estar surda. Estamos todas a ficar mais velhotas.
— Paguuuuuuuuuuuuu!
— Pagu na Tanga, devia ser…
— Ou na Tanga com a Pagu?
— Como preferir. A ver se pega nas crónicas outra vez.
— Acho que está a ficar preguiçosa e com dificuldade em juntar as letrinhas.
— Quero ver se tem lata para lhe dizer isso na cara.
— Ainda se lhe visse a cara…


newmoon-tangas

— Está a ler horóscopos?
— A devorar esta coisa da lua nova de hoje.
— Qualquer dia apanho-a a ler fotonovelas.
— Qualquer coisa que não envolva notícias é ganho.
— Nisso tenho de concordar consigo. Mas o que é isso da lua nova?
— Uma coisa especial, segundo os entendidos. Daquelas que nos muda a vida para sempre.
— E aplicações práticas?
— As que lhe quiser dar. O céu é o limite.
— Sério? Acha que posso encomendar já sushi de camarão crocante e gelado de chocolate e avelã em três bolas gigantes?
— Deixe a encomenda em aberto e aceite o que o universo tem para lhe dar.
— Hum… Um bocadinho new age a mais para o meu gosto, mas vou tentar. E o livrinho que estava a ler? Como se chamava mesmo?
— Que rodeios a menina faz para me pedir Os Cadernos da Joana Moisés
— Devem ser os efeitos da lua nova. Gostou?
— Ainda estou aluada…


OS CADERNOS DE JOANA MOISÉS - CAPA (3)-SINGLE

— Já está nas leituras de verão? Que livro é esse?
— Um romance de primas em 258 páginas.
— Parece interessante. Está a gostar?
— Bastante. Está escrito na primeira pessoa, como se fosse um diário, mas sem uma sequência cronológica. Como se a protagonista se fosse lembrando de episódios da sua vida.
— Hum… E quem é essa personagem?
— A Joana Moisés do título, uma jornalista. Os capítulos vão de 1973 até 2009, e passam-se em Moçambique, Lisboa, Cascais, Londres e Andorra.
— Tudo isso?
— As histórias são rápidas. E algumas bastante divertidas. Nem se dá conta das páginas que ficam para trás.
— Cenas explícitas?
— Algumas. Afinal, isto é um livro de temática lésbica.
— Quantos capítulos?
— Vinte e sete, com referência aos anos em que se passaram, e a maioria com o nome das pikenas que os protagonizaram.
— Então a protagonista não é a Joana Moisés?
— É, claro. Mas depois vai-se envolvendo com as outras pikenas, que têm direito a um ou mais capítulos cada uma, conforme a importância e os detalhes de cada relação. Outros são experiências por que passou, descobertas e por aí fora.
— Acha que a autora se autobiografa aí?
— Na nota introdutória diz que não.
— E é conhecida?
— Nem por isso. Jornalista, com mais umas publicações, poemas, histórias para crianças, contos, blogues.
— Houve lançamento?
— Ainda não. O prefácio é do Albino Cunha, da Janela Indiscreta, que produz o Queer Lisboa.
— Parece-me bem. Despache-se lá a ler isso para eu lhe deitar uma vista de olhos.
— Não se preocupe, porque estou morta por saber com qual é que ela fica no fim.
— Depois dessa agitação toda, devia era virar celibatária…

(Os Cadernos de Joana Moisés, de Marita Moreno Ferreira, rumoresdenuvens edições)

junho2016-lgbt

Hoje é dia de santas e santos no Porto e Lisboa. Nas outras cidades ainda não. Santos ainda sem estátuas e nichos e devotos. Também falta o fogo de artifício que os consagra como verdadeiramente populares. Mas há marchas — ainda sem concurso de bairros, associações ou agremiações — comida e bebida como deve ser, festa e música. Discursos, actividades, mas ainda faltam os vasinhos de flores e as quadras estampadas em bandeirinhas. Ó santos do meu país, ainda se cala a desgraça, ainda pouco se diz…
Hoje há santas e santos e amanhã cala-se a festa até ao próximo ano. Mas hoje dança-se e canta-se, pelo menos em duas cidades. Nas outras a festa é mais discreta, de preferência um bocadinho desviada dos rossios e das praças dos municípios — quem quiser dessas que se desloque à babel de Lisboa ou à do Porto. Hoje são santinhas e santinhos a saltitar um pouquinho, felizes por um só dia.
O que interessa o que defende a lei, se mesmo assim nenhum autarca, nenhum governante estimula a festa em todas as cidades? Ou corrige assimetrias? Ou deixa de pensar que estas coisas de defesa dos direitos de cidadãos são da única e exclusiva responsabilidade dos mesmos, esses grupelhos a quem a igualdade interessa.
Hoje há marchas sim, mas não para todos nem para todos. Há marchas que se empurram com a barriga (ou partes menos rotundas do corpo) porque na verdade nenhum político se atreve ainda a defender direitos em todo o País. Ou seja, alguns direitos ainda são mais devidos em duas cidades do que nas outras todas. Pelo menos por um dia.
Santinhas e santinhos destes ainda não moram de verdade no coração. Ainda ninguém vem para a rua gritar Estes santos também são nossos! Também são nossos filhos, nossos amigos, do nosso sangue, do nosso coração!
Não, ainda não. O coração ainda não é tão grande como isso. Ainda só começou a bater abertamente em Lisboa e no Porto. Nas outras cidades não.
Venha o próximo político que jure que em honesto serviço público, se trate estas santas e estes santos como tão dignos de se celebrar em Junho como António, João e Pedro. Ou Maria, Fátima e Conceição.
Hoje há santos, sim, mas ainda indignos de mais admiração do que a própria, ainda apenas orgulhosos por omissão do orgulho, da coragem e do coração dos outros.


http://filmeslesbicos.blogspot.pt/

— Nada como uma tarde de cinema para festejar o Santo António.
— Não era a Antónia, a Santa?
— Para o efeito, dá no mesmo, não dá?
— Já não sei. O Santo podia arranjar-nos um moçoilo garboso para o desfile dos noivos de Santo António Lisboa.
— E quem lhe garante que a Santa Antónia não lhe arranja também um blind date com o melhor amigo de infância dela?
— Não há paz possível com tanta possibilidade…
— Há sim: um bom filminho de primas para nos alegrar o dia.
— E que Santa Abacate nos valha!
— Ainda temos? Sempre se fazia um docinho de abacate com uma pitada de açúcar, canela e vinho do Porto para depenicarmos da mesma tijela. Vamos para o sofá?


tangas-primas-zangadas

— Voltou para o sofá?
— Estou a pensar.
— É uma ocupação natural, não se preocupe.
— A menina acha que eu só escrevo aqui quando estou zangada?
— Disseram-lhe isso, foi?
— Foi. Acha que é verdade?
— O que eu acho é que não deve perder muito tempo com as opiniões dos outros. Somos todos muito opinativos sobre tudo.
— Mas acha que é verdade?
— Sim, de certa forma.
— Como assim?
— Então: esta coisa do militantismo, dos grupos de protesto e das causas surgem sempre porque pensamos que alguma coisa não está certa. Concorda?
— Concordo.
— Quando não concordamos com uma coisa, lá vamos nós tentar mudá-la, não é? Especialmente se a consideramos injusta. E lá vem a zanga, em maior ou menor dose, conforme nos sentimos mais ou menos compreendidos. Por isso, acho que sim, que nos zangamos sempre um bom bocado quando tratamos de repor a justiça.
— Hum…
— Com tanta injustiça neste mundo, andamos sempre um bocado zangados, não acha?
— Está a insinuar que cultivamos zangas?
— Até temos uma cultura em que estar zangados com montes de coisas é ser sério e responsável.
— Nisso tem toda a razão. Mas tangas são tangas…
— Tangas, humor, piadas, são zangas com verniz de boa disposição. Por baixo há sempre uma zanguinha inicial.
— Hum… Vou fazer uma sesta para ver se me passa a zanga.
— Faz muito bem. Chegue-se para lá um bocadinho para ver se a sesta chega para as duas.

Desenhos Tangas

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