(entrevista de R. U. Sirius a Kathy Acker (1947 – 1997) – ver original aqui – tradução: Tangas)

Chama a si própria Acker. E Acker é uma pessoa com quem de vez em quando ando. O mais fixe é podermos falar de tudo e ninguém ficar chocado (embora ela decida, por vezes, que sou um porco sexista). Alguns chamaram-lhe a nova geração Burroughs (autor da beat generation).

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Kathy Acker

Kathy Acker é uma romancista. Li pela primeira vez os seus ruídos interiores staccato numa revista dadaísta canadiana algures pelo fim dos anos setenta. Pensei, “aqui está a nova geração Burroughs”, ou coisa parecida. Ela usa a apropriação, múltiplas referências de ego, múltiplas referências temporais, honestas e violentas obsessões libidinosas, discurso desconstrutivo e revolucionária repulsa de forma muito vantajosa- Os livros dela incluem Blood and Guts in High School, Empire of the Senseless, In Memoriam to Identity e My Mother: Demonology. Vive em São Francisco e ensina no San Francisco Art Institute.

Kathy Acker: Portanto, isto é como uma entrevista a sério…

R.U. Sirius: Sim, isto é uma revista literária, só que mais fixe. inmemoriamtoidentityEstava a ler In Memoriam to Identity – a parte sobre uma mulher que é encorajada por um professor a envenenar alguém…

KA: Don Quixote?

RUS: Hã? …

KA: Não me lembro. Escrevo para me ver livre de coisas. Não para me lembrar delas.

RUS: OK. Chega de livros. Vamos falar das miúdas rebeldes. Pensas muito nelas?

KA: (Risos) As alunas que vêm às minhas aulas têm uma relação próxima com todas as miúdas más que estão muito interessadas no seu corpo, em sexo e prazer. Aprendo muito com elas sobre a forma de obter prazer e como o corpo feminino é fixe. Uma das minhas alunas tinha um piercing num dos lábios vaginais. E contou-me como, quando se anda numa mota, a cabeça do anel actua como um vibrador. A história dela excitou-me e por isso experimentei. Foi muito bom.
Comparada com as minhas alunas, sou muito tristonha. Sou da geração das fufas PC (politicamente correctas) e heterosexuais confusos. Nunca ninguém me disse que se podia nadar por aí com um cinto de dildo a ter orgasmos.

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Strap on, ou cinto de dildo, num manequim

RUS: É uma das coisas que acho interessante na tua escrita. Parece que escreves a partir do ponto do orgasmo – mas prolonga-lo. É o tipo de discurso interior que podes ter durante um pico de excitação. COmo fazes isso?

KA: Bem, penso que a escrita é basicamente acerca de tempo e ritmo. Como o jazz. Tens a melodia base e improvisas a partir daí. E os improvisos são sobre tempo e sobre sexo.
Escrever, para mim, é a minha liberdade. Quando era criança os meus pais eram como monstros para mim e o mundo estendia-se a partir daí. Eram horríveis e eu era uma criança boa – que não tinha coragem para me opor a eles. Diziam-me o que fazer e como ser. Portanto, a única altura em que podia ter alguma liberdade ou alegria eraquando estava sozinha no meu quarto. Nessas alturas escrevia, sem ninguém a vigiar-me ou a dizer-me o que fazer. Podia fazer o que queria. Portanto, a escrita estava realmente associada ao prazer físico – era a mesma coisa. A única que tinha.

Tratar do “Eu”

KA: Tenho andado num terapeuta. Não sei porquê. É tipo: “Libertar-te-ás de todos os teus traumas de infância se aguentares esta dor.” Que se foda a infância. As pessoas dizem sempre que fazemos isto ou aquilo por causa da nossa infância. Lamento, mas uma coisa que me deixa fria é a ideia de que podemos apenas viajar, e de que viajar é como ter um orgasmo sem fim. E nós limitamo-nos a ir, ir e ir.

KathyAckerNewYork_400RUS: Nesse estádio, perdemos a nossa identidade individual – e, consequentemente, a nossa infância. O que o terapeuta está a tentar é reconduzir-te para a aceitação da tua identidade singular.

KA: Pois. Ele está a dizer-me, “O seu objectivo é…” e eu estou a dizer-lhe, “O meu objectivo? Eu não tenho objectivo e nem sei bem quem sou. Quem sou eu?” E ele continua, “Sabes o que queres.” E eu digo, “Não sei o que quero.”

RUS: Se ele foir bem sucedido na tua recondução ao teu “Eu” singular, isso será a morte de Kathy Acker, a escritora.

KA: Si, certamente. Mas não creio que ele consiga. Não tem porra de chance. Só estou a tentar fodê-lo. Se isso não acontecer, não vamos a lado nenhum. Ele não consegue forçar-me a esse “Eu” singular. Disse-lhe, “Tens de considerar o princípio do prazer – nomeadamente, o meu.” E ele não gostou.

RUS: Digo sempre: divide a palavra (therapist – terapêuta) entre o “e” e o “r” ( the rapist – o violador).

KA: Pois. O violador. Porque levam todo o encanto da infância e reduzem-no a trauma. Ele passa a vida em longos discursos sobre o facto de não ser um iluminado e de querer ser um animal. Estás a imaginar longos discursos sobre querer ser um animal? Que puta de palhaço!

RUS: Quando estava na universidade, todos os professores de poesia adoravam Robert Bly, portanto, tive a minha dose dessa merda.

KA: Contei-lhe dos meus piercings e ele disse, “És uma rebelde.” A seguir perguntei-lhe se os queria ver. Não quis.

Kundalini em piercing

kaportraitRUS: Quanto aos piercings e essas coisas – gostas do termo “moderno primitivo”?

KA: Achei-o [o RE/Search book, Modern Primitives] esquisito na altura. Não liguei aos piercings até descobrir que metade das minhas alunas os usava. E pensei, “A que propósito vem isto?”

RUS: Toda a gente da Bay Area parece estar convertida a eles.

KA: Bem, sabes porquê – é uma tripe!

RUS: Mas não precisas de fazer mudanças permanentes no teu corpo para chegar lá. Tem de haver mais qualquer coisa.

KA: Não estamos apenasa falar de tripar. O que quero dizer é que pensei que seriam apenas como brinquedos sexuais e são mesmo bonitos. Não sabia é que a tripe era tão louca. Em primeiro lugar, durante os piercings disseram-me, “Respira assim. Concentra-te e respira bem fundo. Se o fizeres bem, chegas ao kundalini. A energia trepa directamente para o teu cérebro e dispara.” Foi o que aconteceu!
A seguir comecei a ter orgasmos. E continuei. Ainda não me vim completamente. Não sei como é que isso afecta os outros, mas o que fez qo meu corpo foi abrir totalmente alguma espécie de chacra do sexo.

RUS: A parte da tripe vem da consciência de ter mudado permanente o corpo?

KA: Sim, é estar no mundo com uma diferente – não sei exactamente. Ainda estou a aprender. É como se, de repente, tivesse uma pilinha. Há qualquer coisa que está sempre ali e eu consigo senti-la. É uma forma completamente nova de experienciar o facto de ser mulher.
Um amigo disse-me que há fufas muito certinhas e sóbrias que fazem piercings a cada dois meses, só para triparem. É uma questão de aprender sobre o meu corpo. Não sabia que ele podia fazer isto. Não é, exactamente, prazer. É mais como uma visão. Eu não sabia que o corpo podia ser uma fábrica visionária deste tipo.
Crescemos, basicamente, a não querer saber que temos corpos. E não é que estes piercings sejam tão profundos assim – são só à superfície. Portanto, se um coisinha destas pode fazer tanto, quem sabe o que mais podemos experienciar?

A escrita…

mynotherdemonologyRUS: Bem, não devíamos estar a falar sobre a escrita?

KA: Ah, pois, a escrita. É uma revista literária.

RUS: Sim, a escrita (paula songa). Parte do teu romance novo, My Mother: Demonology, baseia-se em algumas coisas de Bataille. Por que escolheste Bataille?

KA: Bataille é fixe!

RUS: Não consigo entrar nele. Na verdade, estou a escrever uma peça para o Wired, intitulada “A User’s Guide to Trendy French Intellectuals” (Guia para os intelectuais franceses da moda) que destrói completamente todos esses tipos.

KA: Oh, malvado! És tão tosco, pá. Eles são fixes.

RUS: Fala-me então de Bataille.

mydreamdaterapeKA: Bataille está associado aos surrelistas. A ideia, basicamente, é a de que a democracia não funciona. O comunismo não funciona. Todos essas merdas de modelos não funcionam. Temos de encontrar modelos novos – um modelo do que a sociedade deveria ser.
Não sabemos como são os humanos. E a base não é apenas a economia; as pessoas não fazem tudo por razões económicas. Tens de olhar para a imaginação; para o sexo. Não temos forma de descrever essas coisas usando a linguagem que temos. Portanto, formou-se um grupo em torno de Bataille para tentar descobrir o que significa ser humano – o que a sociedade deveria ser.
Os seres humanos têm de viver numa sociedade – não conseguem sobreviver apenas como indivíduos. Isso não é uma condição viável. As pessoas estão sempre a falar de trauma e sofrimento e de como a sociedade não funciona, que não devíamos ter racismo nem sexismo, mas nunca falam em termos positivos – tal como o que seria a alegria, como seria ter uma existência completamente feliz. Bataille e os seus seguidores procuravam modelos para as pessoa terem existências completamente felizes.

RUS: E que descobriram?

ackerKA: Bem, estudaram os modelos tribais e como eles lidavam com as coisas do sexo, sacrifício e propriedade – as alegrias não se baseiam apenas na acumulação económica e no mundo do trabalho do dia-a-dia, mas no desistir de tudo isso – não ter esse “Eu” específico, controlador e aprisionador. Ele não era Freudiano. Estava muito mais interessado no modelo tribal em que tudo estava à superfície e se lida com o sexo da mesma forma que se lida com a economia e o social. Era uma pessoa muito certinha, um bibliotecário. O principal inimigo de Bataille era Jean-Paul Sartre – Bataille não era um intelectual da classe alta e foi muito pressionado por causa disso. Sartre escreveu um artigo horrível sobre ele e, de certa forma, impediu o seu trabalho de ser reconhecido.

RUS: Quando te sentas para escrever, esvazias a mente de forma a ver o que surge?

KA: Tenho trabalhado em narrativa ultimamente, por isso não o faço assim agora. Mas estou a começar a ficar preocupada com a auto-censura – que esteja a interiorizar algumas merdas. Posso estar a escrever aquilo que as pessoas esperam que eu escreva, escrever a partir do ponto em que posso estar a ser orientada por considerações Para ultrapassar isso, comecei a trabalhar com os meus sonhos, porque não sou tão susceptível à censura quando uso material dos sonhos. Estou a trabalhar numa tentativa de encontrar um tipo de linguagem que não seja tão facilmente modulada pelas expectativas. Procuro o que poderá chamar-se uma linguagem do corpo. Uma das coisas que faço é enfiar um vibrador na minha cona e começar a escrever – a escrever a artir do ponto do orgasmo e a perder o controlo da linguagem e a ver como isso é.

Susto Vanity

karuiz_02_bodyKA: Estamos aqui a ser sérios, como se estivéssemos a fazer uma entrevista para uma revista literária, mas já viste o número da Vanity Fair com a Roseanne Barr na capa? Não li a entrevista mas – uau! As imagens são pesadas! Sabes como é, toda a gente anda aos gritos por causa do politicamente correcto nos campus e aí temos a Roseanne a abrir as pernas.

RUS: Não conhecia nada dela até ver um desses especiais “Revista do Ano” na MTV há três anos. Tinham uma data de pessoas a falar do que o ano tinha sido e toda a gente era do contra a qualquer nível. Tinham o Frank Zappa, o Lou Reed e o William Gibson, mas a Roseanne era a mais radical. Reivindicava a revolução armada. Pensei que fazia parte de algum movimento revolucionário, mas alguém me disse, “Não, é uma estrela de televisão.”

KA: Ela é radical! Quero dizer, tenho respeito por algumas dessas miúdas de Hollywood. Quando pensamos na santa trindade, Michael Jackson, Madonna e Roseanne – a cultura norte-americana é bastante fixe. Digo, Michael Jackson anda por aí.

Ilustração de "Pussycat Fever", de Kathy AckerRUS: Viste a conferência de imprensa que deu? Foi como a entrada do Joker no Batman. O tipo aparece para declarar a sua inocência em relação aos alegados actos de preversão com a sua maquilhagem louca e batom. O líder do entretenimento no mundo…

KA: Nem me fales da ciber-identidade! Não é bem como ter um homam mais velho a fazer sexo com um rapazinho – é mais como ter um marciano a fazer sexo com um humano.

RUS: Admiro o Michael Jackson pela sua completa esquisitice.

KA: Falas tu de manipulação do corpo? Ele nunca assumirá isso. Será que ele tem prazer com tudo isso? Será que tripa com cada bocadinho de cirurgia?

RUS: Ele quer mesmo ser uma espécie de proto-post-humano. É o primeiro filme de horror do Cronenberg na vida real. É uma pena que as palavras dele não exprimam nada disso.

KA: As letras dele são estúpidas.

RUS: Bowie era brilhante a expressar estranheza nas suas letras. Jackson é piroso a esse nível. Mas o que ele faz realmente é muito mais esquisito.

KA: É tão radical que bate a toleirice da Madonna. Ela tem potencial, mas …

RUS: … precisamos de falar com essa rapariga.

Miúdas com pilas

Tribe 8

Tribe 8

RUS: Temos de fazer qualquer oisa acerca desta cena das rebeldes em São Francisco. É como se os rebeldes de Burroughs se tivesem transformado em miúdas rebeldes! Acho que há alguma coisa mais fixe aqui do as Riot Grrrls. Riot Grrrls são completamente PC.

KA: Ah, toda a gente sabe que és um porco sexista, R.U. Bikini Kill é fixe! Quando estava em Seattle houve um grupo que me pôs como juíza de um concurso de leitura de poesia e arranjou uma pessoa para fazer uma leitura comigo. Uma miúda mutito gira e sensual. Eu disse, “Sim, pá, ela!” E perguntei-lhe, “Para que estás a fazer poesia? Podias lançar uma banda.” E ela começou as Bikini Kill. Era muito fixe.
Mas as Tribe 8 são mesmo radicais. Muito mais que as Bikini Kill. Tivémos, durante anos, toda essa porcaria feminista do “Não é justo” ou “Queremos o poder” e aparecem algumas miúdas que não querem saber disso, que não desgostam dos homens, que se divertem e são pela revolução total, como se “Também temos pilas!”.
Ou seja, o fornecimento vai provocar uma revolução importantíssima. E a única coisa que os gajos têm de aprender é que não há nada de mal nas pilas e nos caralhos, mas não pensem que têm o exclusivo mundial.

RUS: Sempre defendi as peças substituíveis.

KA: As miúdas fornecidas são tão sensuais. E as miúdas a penetrarem miúdas. Qualquer homem se deve vir a ver miúdas com fornecimento – e as miúdas também. Vi um vídeo que ensinava as miúdas a ejacular. Portanto, agora podemos vir-nos na cara de um gajo e dizer: “Engole! Chafurda aí!”

RUS: Penso que isso explica a escrita, então.

KA: Certo.

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