A sabedoria popular parece concordar comigo nestas coisas do hamor. Os provérbios sobre o tema estão sempre revestidos de razão. Só que, com o passar dos anos, é natural que alguns deles vão ficando parcialmente desactualizados.

Os tempos mudaram, as pessoas, os quereres, as ambições e os hamores também.

Por exemplo, o adágio popular que nos garante que o hamor é cego e vê é uma grande verdade mas está irremediavelmente incompleto. Mas a essência do hamor está lá, na contradição e ambiguidade do mesmo.

Nos dias que correm, o hamor é surdo e vê. Ao contrário do que ele possa dar a entender, o hamor consegue perceber muito bem a disparidade entre palavras e acções.

O hamor finge que acredita nas palavras que ouve mas como é esperto e também não muito inocente, prefere fazer de conta. Engana-me que eu gosto, grita em silêncio, acovardado nas vinte e quatro horas do seu dia-a-dia.

Distingue descuido do trato nas declarações de hamor, faltas nas promessas, ausências nas falinhas mansas, enfados nas juras, lapsos nos segredos.

O hamor é surdo quando as evidências nos juram que aquilo não é para nós, que não vai dar certo, que vamos sofrer, que já viram essa história mil vezes. O hamor também já viu isso tudo, mas não quer ouvir.

O hamor faz  que não ouve os plins plins constantes da chegada de sms’s ao telemóvel do outro, o hamor tenta não perceber as mensagens rápidas e cifradas em telefonemas inoportunos.

O hamor não ouve as ladainhas desgastadas, as reclamações por coisa nenhuma, as discussões reinventadas, os impropérios injustificados.

O hamor é surdo ao tom exasperado dos silêncios nas perguntas feitas sem palavras e às respostas que nunca chegam a ser dadas.

O hamor é surdo a tudo aquilo que não quer ouvir, ou não pode, se quer continuar a existir.

E, finalmente, o hamor é surdo à conjugação incoerente e desajeitada do verbo hamar na primeira pessoa do singular por parte de alguém que já não está ali e o faz apenas por hábito, obrigação, comodismo ou pena.

O hamor não tem ouvidos. É tal e qual uma senhora honrada.