Se alguém tem a ilusão de que a  pessoa com quem vive e tem uma relação estável é o grande hamor da sua vida, está redondamente enganado.

Pode parecer duro e atroz ler isto assim e ainda muito mais sentir que é verídico mas também, adultos que somos, já sabemos há muito tempo que a verdade é cruel.

O grande hamor da vida é um bilhete para a demência, isto é, conduz-nos irremediavelmente para algo que não resulta, assim a modos que uma espiral da parvoíce.

Somos assolados por sensações estranhas, tudo o que sentimos, queremos, desejamos e sonhamos é vivenciado de forma absolutamente néscia.

É assim como quando estamos cheios de dores e como última opção tomamos um Tramal, analgésico da família dos opiáceos, que atenua a dor mas nos transporta para um mundo onde se vê tudo em dobro e a realidade chega até nós numa forma inexistente.

O grande hamor desinquieta a alma, enlouquece o corpo, faz tudo tão forte e denso que se torna impossível sobreviver a essa onda de emoções que ameaça fazer ruir a nossa sanidade mental.

O grande hamor é aquele para onde nos remete, tão rápido e mortal como um tiro, um pôr-do-sol maravilhoso, uma brisa morna de Primavera, um perfume que passa por nós na rua.

O grande hamor não resiste à loucura dele próprio e por isso se consome e acaba. O grande hamor não cabe em lado nenhum, não se agarra, não se doma, não se domestica, não faz promessas que sabe impossíveis de cumprir.

Para essas “coisas  banais”, o que assenta que nem uma luva é o maior hamor, aquele com quem estamos, conversamos, rimos, fazemos projectos, vamos às compras, de férias, ao cinema, com quem passamos os finais de ano, os aniversários dos amigos e família.

O maior hamor é aquele que nos faz felizes. O maior hamor é aquele com quem queremos ficar toda a vida enquanto desejamos nunca mais voltar a cruzar com o grande hamor.

Se por acaso isso acontece, os alicerces da nossa suposta estabilidade emocional tremem como varas verdes, fraquejam, balançam, ou melhor, sacodem, ao ritmo do nosso coração que ameça saltar do peito e fugir para onde afinal nunca saíu.

O grande hamor do mundo não existe. O maior hamor do mundo, com sorte, muita sorte, é esse que temos ao lado.

A diferença entre o grande hamor e o maior hamor é, em palavras, muito ténue e eu temo que não tenha ainda sido inventada a terminologia para a explicar, ou que eu não consiga, mas tenho a certeza que quem ler esta crónica sabe muito bem o que quero dizer.