All rights reserved Tangas Lésbicas 2010

Ser simultaneamente possuidora e possuída pelo hamor acontece uma vez em seis bilhões e meio. Mas de facto, parece que há provas que esse milagre se dá de tantos em tantos séculos.

Esse momento, misto de subtil clique e explosão atómica, deveria ser um retiro, um oásis, um segredo, uma alucinação, um derramamento constante de pulsões arrebatadoras e desconcertantes sobre o comportamento humano.

O hamor deveria bastar-se a si próprio. A bem dizer, o hamor deveria se consumir no enlevo dos olhos nos olhos, mãos nas mãos, borboletas na barriga, suores na espinha e outras bazarouquices do género.

Hamava-se e pronto.

Mas não, o hamor não se recolhe e contenta. O hamor gosta de dar um ar da sua graça, ou vários ares consoante as oportunidades lhe sorriam.

O hamor, sempre bem disposto e galhofante, concentra em si o desejo de se multiplicar e ser muitos. Hamor que é hamor não se guarda. Partilha, oferece, seduz e encanta com a mesma cara de pau com que vira as costas, resmunga e bate a porta sem olhar para trás.

Pega-se assim numa mão cheia de hamor, espera-se a altura ideal, dá-se o adubo indicado a cada caso e vai de largar a semente, regar a gosto e esperar para ver nascer aquelas pontinhas que nos dão o orgulho abestalhado de sermos afinal uma espécie de jovens agricultoras que percebem muito da poda e sabem bem qual a melhor altura de colher o que de tão bom grado semeámos.

Os sarilhos surgem é quando a colheita nos dá, apesar da emoção de ver crescer alguma coisa, uma quantidade ingovernável de dores de cabeça, chatices, problemas, encrencas, pesos na consciência, perdas de confiança e rupturas que chegam a nos deixar o peito em frangalhos.

Mas claro, depois de um breve período da terra em pousio, vem sempre o dia em que achamos que está na altura de deitar de novo as mãos à obra. Há-de ser o que a terra der!!!