Seria imperdoável não assinalar nestas crónicas, o feito notável do João Garcia que conseguiu, após dezassete anos de empenho, fazer os 14 cumes mais altos do mundo, todos eles acima dos oito mil metros. Estes parágrafos são portanto uma singela homenagem a alguém de quem vou sempre sentir inveja, obviamente no bom sentido da palavra.

A partir de determinada altitude, que dependendo da montanha pode variar entre os seis e os oito mil metros, entramos na chamada “zona da morte”, onde o ar é rarefeito e o oxigénio tão pouco que nos pode fazer lélés da cabeça em menos de um foguete. Quer dizer que a pessoa tem que se despachar depressa dali pois as células vão começar a morrer a uma velocidade tal que ameaçam deixar-nos por lá abandonados na beira da montanha, congelados e eternos.

Quer isto dizer que foi necessário um esforço desumano para atingir aquele nível, a pessoa sofreu e penou horrores e agora que está quase a atingir o cume (e “quase” é uma forma de expressão que pode querer dizer alguns dias), começa a definhar, a esvair-se e vai tudo por água abaixo.

Não sei se é ou não por acaso, nunca investiguei, que se fala muito na crise dos sete anos de relação. Ou nos múltiplos de sete. De repente lembrei-me que, num subliminar pressentimento da sabedoria popular, pode ter a ver com a tal zona de morte. O número sete encerra em si mesmo qualquer coisa de perverso.

Bom, voltando ao hamor. Pois ali andam duas alminhas a tentar que as coisas funcionem, a acertarem passos, feitios e defeitos, a chorar rir, a trocar ofensas e promessas como quem muda de camisa, uns dias mal e outros nem tanto, semana após semana, ano após ano e quando finalmente se começam a ajeitar e parece que as coisas até podem dar certo, eis que aparecem num arroubo anunciado de mau augúrio, o tédio, o cotidiano, as chatices, a falta de paciência, o desencanto, a vontade de experimentar outros ares e muitos mares.

Perante a morte eminente, o hamor tem três hipóteses: ou resiste mais um pouco, faz cume e experimenta a felicidade indescritível de não desistir, ou não faz nada e deixa-se consumir nele próprio até ficar inerte, sem fôlego, na beira da vida ou, diz que chega, que não consegue mais, desce, desfaz a tenda, põe a mochila às costas, recupera e parte para outra.

Mas, aconteça o que acontecer, quando olhar para  o topo da montanha, pode sentir o coração apertado e pensar que talvez numa próxima vez, em outra altura, noutras circunstâncias, quiçá com mais saber, menos medo, mais experiência, menos debilitado, mais crédulo, com outra pessoa…..