Se o hamor fosse isso tudo que dizem e pelo qual os menos afortunados de bom senso suspiram, certamente que seria desejado além e sobre todas as coisas.

Qual o quê! O hamor é coisa de desocupados, de quem não tem mais nada para fazer, de quem tem uma vida vazia, sem sentido nem alegria, em última análise, de quem não tem vergonha na cara.

Se a vida estivesse a abarrotar de coisas boas, o dito cujo nunca seria lembrado, quanto mais desejado.

Mas não. No meio de tanta aridez onírica e de falta do que fazer, lá vem o coraçãozito bater à porta da consciência, ou melhor, da inconsciência, assim a modos que envergonhado, a pedir tempo de antena.

Por exemplo, num sábado de chuva, daqueles sem qualquer sabor e com o Gladiador, o Die Hard IV e Onde é que pára a polícia? a passarem na televisão pela décima vez ininterrupta, de repente lembramo-nos disso. “Então e se eu me apaixonasse hoje, hein? Não está a dar nada de jeito na tv, escusava de estar aqui a esvair-me em tédio e sempre me divertia um bocado. Ah! E depois mete beijinhos e abraços e essas coisas que de vez em quando sabem que nem ginjas. Por acaso hoje, com este tempo manhoso, até vinha mesmo a calhar”.

Quando não temos nada melhor para fazer, queremos hamar. Não é por acaso que o provérbio diz que o ócio é a raiz de todos os males.

Se formos medianamente espertos, puxamos da agenda e vamos fazer uma festança longe do domicílio residente. Em casa nunca, jamais, nem em última análise. A nossa casa não é para essas coisas. O nosso lar é um lugar de paz, tranquilidade e bom humor. Não queremos, sob pretexto algum, devassar a sua essência com essa palermice decadente do hamor.

Mas se formos muito, mas muito, muito espertos, inventamos alguma coisa útil para fazer e deixamo-nos de disparates.