Quem pense que o Sudoku é apenas um entretém para as viagens de metro, está muito enganado. Aquele joguinho com ar inocente e até ingénuo, é um autêntico manual do bem viver.

A estratégia de que as coisas têm que estar todas dentro do seu sítio, fazer parte de um mesmo eu todo ele cheio de ciência e lógica, mas nunca se cruzando umas com as outras, é de extremo saber.

Assim deverá ser com o hamor. Todo ele está inserido num contexto de rocambolescos itens, todo ele faz parte e é uma parte do todo, todo ele encaixa, flutua, bate certo e até pode chegar a durar seis meses, se para tanto houver saber e paciência. Mas para isso não poderá cruzar-se com absolutamente mais nada.

Por exemplo. Enquanto no famoso jogo japonês, os itens são os números de 1 a 9, no hamor podemos colocar o hamor em si mesmo, os ex-amores, os amigos, os futuros hamores, as famílias, o trabalho, os quase hamores, o ócio e a liberdade.

E aqui minhas amigas, é que a coisa dá que pensar. Começamos a colocar os ditos itens nos quadradinhos do nosso quotidiano e andamos sempre aos tropeções em temas que se cruzam, colidem ora na vertical ora na horizontal, e que não nos deixam chegar ao fim.

Por vezes estamos quase quase a conseguir acabar o jogo, que é como quem diz, organizar a nossa vida, e lá damos conta mais uma vez que misturámos as coisas e que temos de começar tudo de novo. E digo começar de novo e não recomeçar por que isso é impossível.

É precisa muita arte e engenho para que nada se atravesse, multiplique, repita, desdobre, apareça fora do sítio. Tem que existir tudo mas no espaço e tempo próprios e dentro de uma determinada ordem e compartimentação.

É a única forma que conheço de vencer o desafio.