Hoje há marcha em Lisboa. Ao fim de onze anos perguntaram-me de novo para quê. A resposta não é difícil, quando ao fim de onze anos ainda não se percebeu a razão de mostrar em público que não se tem vergonha nem necessidade de se esconder o que é. Porque hoje, ao fim de onze anos, alguém que devia sentir orgulho e à-vontade para marchar por Lisboa ainda se sente incapaz de o fazer.

A marcha continua porque ainda está praticamente tudo por fazer. Ainda não acabou a vergonha que impede pessoas fantásticas de marchar. E porque ainda não acabou a vergonha dos outros em ver-nos marchar.

E marchamos porque a igualdade a paridade ainda estão longe de surgir naturalmente para toda a gente. Por isso, as conquistas recentes nunca o serão se as pessoas com direitos não se sentem, mesmo assim, capazes de reivindicar essas conquistas para si próprias.

Ou enquanto houver muita gente a pensar que essas conquistas são obra de um qualquer lobby e não resultado de direitos humanos que não podem ser alienados.

Se julgam que não é preciso marcha, vão lá fazer o percurso sem bandeiras, sem t-shirts com mensagem, sem gritar slogans. E vejam lá se o facto de participar numa marcha lgbt não vos suscita sensações e vos impede de olhar de vez em quando para um lado e para o outro à cata de reacções dos transeuntes…