Esta semana li uma frase que a Maria Bethânia disse ter escutado em tempos, pela boca de uma bordadeira de Santo Amaro da Purificação. “O mais importante do bordado é o avesso”.

Nem preciso dizer a todas vocês, queridas parceiras destas crónicas, para onde a minha mente viajou de imediato.

Remetendo tão bela afirmação ao hamor, é óbvio que o que é mostrado, não raras vezes, quiçá a maioria, não espelha o que está por trás.

Aquilo que pode parecer demonstração de hamor, carinho, consideração, paixão, cumplicidade, mais não é, quando visto por trás, que um emaranhado de equívocos, desilusões, faltas de respeito, sonhos falhados, expectativas desfeitas. E tristezas, muitas tristezas.

E mantemos esse bordado lindo pelo lado exterior, primeiro por nós próprios, para não sentirmos a sensação de vazio, de mais um fracasso, de mais um adiar ser feliz. E também, não sei se principalmente, pelos outros, para  mostrarmos que somos diferentes, capazes, enfim, melhores.

A tela orgulhosamente exibida do nosso hamor, afinal não passa de um monte de fios mal alinhados, pontas trocadas, emaranhado de nós, numa confusão emocional tal que chegamos a pensar que aquilo já não tem remédio. É melhor desfazer, ou melhor, é preferível deitar fora e começar de novo.

Esta máxima das bordadeiras é assim uma versão muito mais bonita do “nem tudo o que reluz é ouro” ou “quem vê caras não vê corações” que nos esfrega na cara a verdade irrefutável de que só com muita, mas muita sorte mesmo, as coisas são o que realmente parecem ser.

Por certo não foi por acaso que enquanto pensava esta crónica, me lembrei de novo da Bethânia cantado “mentira, foi tanta mentira, você não me amou, mentira, foi tanta mentira, que você contou…..” 

PS. A crónica chegou umas horas mais tarde pela diferença de fuso horário. Mas estou com vocês, como sempre. Abraço a todas as que têm paciência para me lerem.