Assim como os gelados Olá só aparecem no Verão e os bombons Ferrero Rocher no Inverno, o hamor também se resguarda para os dias melhores.

É nesta época estival que ele se revela em toda a sua glória. Haja espaço e saúde porque vontade não lhe falta.

Depois de meses e meses encolhido entre gabardines, casacos de malha e botas altas, ver-se assim, de um momento para o outro, de ombros à mostra, pernas ao léu e pés quase descalços, dá-lhe aquela garra jovial só ao alcance dos grandes desafios.

E é vê-lo por aí, todo sorridente, de copo gelado na mão, a mostrar-se desejoso e pronto para os grandes eventos.

Os dias compridos ajudam à festa. Adiar o regresso a casa sob pretexto de uma salada na esplanada à beira mar, pode render muito mais que simples ideias.

Dedilham-se os contactos no telemóvel e num misto de surpresa, aventura e seja o que Deus quiser, damos por nós a perguntar “porque não?” antes de apertarmos a teclazinha verde.

Por entre explicações que não convenceriam um cego, lá vamos nós ao encontro do hamor. Aquela esplanada já não nos chega. Aquela pequena que tinhamos debaixo de olho também não. Afinal de contas é Verão e tudo o que nos vem à cabeça e, porque não, ao resto do corpo, rima com animação e emoção.

Mas como não há bela sem senão, nem hamores sem Verão, é aqui que o pouquinho de bom senso que este calor nos permite deve evitar que surja um grande problemão, que é como quem diz, o que semearmos agora, colheremos mais tarde e depois, entre a nostalgia do Outono e a chuva de Inverno, é mais difícil nos vermos livres destes berbicachos.

Portanto minhas caras, até podemos dar umas olhadelas mais travessas nas coisas mais lindas e cheias de graça que passam à nossa frente mas por via das dúvidas e dos sarilhos, é melhor nos dedicarmos à meditação e à contemplação das montanhas e dos mares e dos infinitos e de tudo o que não tenha a ver com decotes e pernas e sorrisos de Verão.