Hoje venho aqui partilhar convosco a minha opinião sobre mais um equívoco do hamor:  Morar juntos.

 Isso mesmo. Dividir cama, mesa, cozinha, casa de banho, ferro de engomar, vassoura, frigorífico, compras de supermercado, arrumações, reuniões de condomínio e tudo o que ao lar doce lar diz respeito.

Quando o dito hamor atinge proporções patéticas, somos atingidos pela ideia peregrina daquilo que na linguagem popular se chama de juntar os trapinhos. Cada despedida no final do dia, cada beijo interrompido, cada frase abobalhada que fica pela metade, dilacera-nos a alma até aos confins da imbecilidade e julgamos só poder ser salvos pela convivência diária, ou pelo menos nocturna.

Começamos a fazer contas a abrir o jornal nas páginas dos arrendamentos, a ver revistas de decoração  e depressa o entretenimento passa a ser ir visitar apartamentos entre olhares cúmplices e nervoso miudinho disfarçado com sorrisos.

Quase sem darmos por isso estamos a passar o cheque da primeira renda e da caução, com uma felicidade que comoveria o mais pétreo dos homens e lá arranjámos maneira de viver com o nosso hamor, nem que seja uns dias sim outros não, umas noites sim e outras também.

Nos primeiros tempos damos graças perante as bênçãos até então fora do âmbito da nossa condição de mortais desconhecedores das grandes paixões, de viver com outra pessoa. Tudo é perfeito, lindo, arrebatador.

A falta de cama, de um maple, os roupeiros improvisados, as estantes feitas de caixotes, os livros e cd’s empilhados, a televisão no chão…..hum…..há lá coisa mais bonita que isso?! Há lá maior hamor que o nosso?!

O problema surge quando as mobílias começam a chegar. Começamos a ver entrar móveis pela casa fora e alguma coisa dentro de nós começa a dar sinal de si. Uma tensão medonha, uma pressão na zona do miocárdio, uma falta de ar, parece que o até então nosso hamor, está agarrado ao nosso pescoço a apertar com quanta força tem.

A graça e a perspectiva de eternidade do hamor vai decrescendo à medida que a casa vai ao sítio. A nossa impaciência começa a tamborilar sobre cada móvel e entre cada estatueta e inutilidade que antes julgámos ser imprescindível.

E claro, como não há hamor que resista a tanta cómoda e cadeira e cortinado e psiché e futuro e sabe-se lá mais o quê, quando colocamos o último quadro na parede achamos que a nossa missão ali está terminada, pegamos na trouxa e vamos rapidamente à procura de ar fresco.