Esta terça feira foi um dia muito triste para mim. Na minha última viagem de regresso do Brasil, em Julho, a minha vizinha no avião era uma mulher de talvez uns sessenta e muitos anos, educadíssima, elegante, bem falante, apesar de profundamente triste.

Durante as quase dez horas de voo, contou-me, entre lágrimas, que tinha vivido sempre em São Paulo e que há poucos anos se tinha mudado com o marido para uma cidade mais pequena e tranquila, onde queria viver o resto da vida. Pouco tempo depois dessa mudança, um bandido assaltou a casa e assassinou o marido. E ela, volvidos dois anos e meio, continuava inconsolável.

Falou-me de todo o hamor que sentia por aquele homem que conheceu com 17 anos e do momento em que se tinham olhado pela primeira vez e perceberam que seria eterno. E foi. O seu único hamor, o seu único homem, o seu único amante, o seu melhor amigo, o seu grande companheiro e cúmplice de mais de quatro décadas de um casamento perfeito e feliz.

Era a primeira vez que viajava sozinha e sentia-se frágil, perdida, ansiosa, mas queria voltar à terra do marido, Santiago de Compostela,  quem sabe para se despedir de sítios onde tinham estado juntos. Tentei, da forma que pude, acompanhá-la no aeroporto de Madrid e embora nos separássemos ali pois seguiríamos em diferentes voos, procurei deixá-la na porta de embarque não sem antes tomarmos um cafezinho, trocarmos números de telefone, moradas e promessas de futuras visitas.

Ela devia regressar por esta altura ao Brasil e eu queria saber como tinha corrido a viagem. Já tinha tentado telefonar mas só ontem consegui. Disseram-me que infelizmente já não se encontrava entre nós. Suicidou-se, atirando-se de um terceiro andar na cinzenta Sampa.

Fiquei chocada, incrédula, triste, vazia. Lembrei-me de todo o hamor que tinha visto nos olhos daquela mulher quando falava do ser hamado, das saudades, da falta, das recordações.

Perguntei-me mil vezes porquê, queria lhe perguntar porquê, porquê, mas a resposta estava naquele olhar que jazia perdido no imenso vazio que a devorava.

Ironicamente, enquanto o incómodo me fazia rebolar de um lado para o outro da cama, ansiosa e desgastada, escuto uma conversa telefónica entre duas pessoas que se hamam mas que não são capazes de ficar juntas por incompatibilidade de feitios e sinto vontade de as espancar.

Aquela mulher teria passado por cima de qualquer coisa, de enganos, feitios, defeitos,  traições, desilusões, medos, mentiras, para voltar a ter quem tanto hamava. E olharia com pena e profundo desprezo para estes pequenos hamores sem capacidade para ultrapassar tudo em razão de um sentimento maior que todas as razões do mundo.

Hoje não conseguiria escrever mais nada sobre o tema habitual que não fosse partilhar convosco esta história de hamor.

A minha singela homenagem a esta senhora, pelo sua incomensurável capacidade de sentir e pelo tanto que me acrescentou.

Que descanse em paz nos braços do seu hamor.