Para quem pense que eu sou doida e que invento coisas medonhas sobre o hamor só para aborrecer os românticos incuráveis, ou então porque padeço de alguma enfermidade coronária, aqui fica mais uma nota que prova a minha lucidez.

Não é por acaso que o povo diz “quanto mais me bates mais eu gosto de ti”. Todas conhecemos casos e casas, onde a força motriz da relação é uma mistureba de indelicadeza, mentira, traição e por vezes agressividade muito para além de verbal.

E no entanto, para surpresa de toda a gente menos dos envolvidos, as coisas “resultam”.

Mais estupido ainda que isto, é o facto de ser preciso o tal espancamento emocional para o dito hamor sobreviver. É a energia, a gasolina, o motor deste encantamento.

E nem ousemos pensar que são os períodos de acalmia que adoçam, acalentam e fortificam esse cotidiano. Qual o quê!

O hamor renova-se, aprimora-se e dobra de tamanho em cada palavra mal dita, em cada descuido, em esquecimentos imperdoáveis, em enganos dolorosos, em mágoas, como se de uma droga se tratasse e para a qual  o único antídoto é o chamado “mais do mesmo”.

Conheço um casal que com uma regularidade suíça, discute, berra, ameaça e cujo final de noite acaba com ela a atirar malas, fatos, cuecas e gravatas pela janela e a blasfemar que é para ele ir morrer longe. Quando ele acaba de recolher as coisas e olha envergonhado para os transeuntes que apreciam a cena divertidos, eis que ela aparece na rua a perguntar-lhe onde é que ele julga que vai, que tem filhos para criar e que deve voltar imediatamente para casa.

Esta cena, minhas amigas, repete-se há anos que é como quem diz, há mais de uma década. Inacreditável, não é?

O hamor é de facto incompreensível.

E agora digam lá que eu é que sou a louca….