Sempre houve bruxas, desde que os tempos são tempos. Uma amiga simplificava tudo afirmando que eram as que não deixavam as fadas fazer coisas boas. A Inquisição matava-as às dezenas de milhares – quarenta e cinco mil ruivas queimadas como bruxas deixaram-nos a ver sardentos por um canudo – e ainda hoje as mulheres que sabem o que querem e não vergam à vontade do sexo oposto são bruxas, entre outras coisas menos próprias para aqui descrever. Suspeito pois que o dia das bruxas é, mais do que certamente, uma reminiscência de um dia feminino qualquer, tornado diabólico e assustador pela péssima imagem que as mulheres sem papas na língua ganharam em séculos e séculos de domínio masculino. Ou suposto domínio, porque quem subestima o inimigo não é com certeza suficientemente esperto para dominar nada. Talvez para tornar a vida de algumas pessoas um inferno, mas longe fica a capacidade de reinar de pleno direito ou, pelo menos, com o devido reconhecimento. Bom a sério é o doce de abóbora com nozes, desse de que é pródigo o receituário alentejano, servido com nozes e requeijão polvilhado com pimenta. Essa ligação das abóboras às bruxas e às carruagens de princesas encantadas e às carantonhas esculpidas em aboborões esvaziados e iluminados por dentro é mais engraçada que a cena das fogueiras e dos mortos-vivos. Subtraindo o rol de horrores da propaganda negativa e machista do dia das bruxas, o que fica é uma festa que devia ser recuperada pelas mulheres e vivida à luz do que ela significa realmente, da preparação para um novo ciclo. Feliz dia das bruxas, caras primas.