Pois que o hamor é uma coisa abominável, é uma constatação que tenho vindo a transmitir ao longo destas humildes crónicas. Falar e escrever sobre essa “coisa” tem-se revelado muito giro pois os temas surgem aos molhinhos.

Uma das ideias mais hilariantes da causa hamorosa tem que ver com a procura incansável da alma gémea. Alguém igual a nós. Um espelho nosso.

Mas, bem vistas as coisas e analisando esta doutrina com o distanciamento possível num ser desprovido de coração, como eu por exemplo, constatamos de imediato que procurar um hamor à nossa imagem e semelhança é, no mínimo, uma grande paródia e uma parvoíce de todo o tamanho. Assim uma espécie de tragicomédia em causa própria.

Como é que as coisas podem correr bem se o princípio de que partimos é torpe e desonesto?

Como é que pode passar pela cabeça de alguém que é assim um ser  tão especial, tão único, com tantas virtudes, com tamanhos encantos, com qualidades ímpares que exija uma outra pessoa exactamente igual?

A isso chama-se narcisismo e que ele anda por aí disfarçado de bem querer, também é uma realidade.

E esta conjugação de tonteiras, tanto no que diz respeito ao auto-conceito exageradamente benévolo que temos de nós como da necessidade de moldar o outro aos nossos caprichos, revela sobretudo que somos seres absolutamente egoístas e despreparados para dar com uma mão sem esticar logo a outra para receber na volta.

Porque se o hamor existir, há quem diga que sim e eu respeito todas as opiniões, deverá ser por certo uma coisa livre, em que cada um possa realmente ser o que é e não o reflexo do que o outro quer que sejamos.

Ninguém consegue viver feliz sendo uma coisa e ter que parecer outra embora haja quem consiga viver bem sem se importar se quem tem do outro lado da mesa, da cama, da vida, se desgasta e desespera todos os dias para manter uma imagem que não é sua, seja por hamor, seja porque sim.

Que a coluna vertebral do hamor tenha pilares comuns, até aí eu chego, não pensem também que sou uma completa abestalhada (ou mesmo um ser das cavernas como me chama a minha querida irmã quando me quer elogiar), agora gostos, ideias, sonhos, formas de ser, aí minhas amigas, que cada um seja realmente o que é e deixe de fazer de espelho de um ser cujos contornos deixam muito a desejar.

Assim sendo, da próxima vez que encontrarem alguém que não tenha nada a ver convosco, prestem atenção e gozem a boa surpresa.