Esta semana, numa das minhas incursões à internet, li que um famoso artista norte-americano tenta, junto com a mulher (pelo menos é o que ele pensa), salvar o seu casamento.

Só o cabeçalho da notícia já chegava para me fazer rebolar às gargalhadas, mas não, havia mais. Dizia então o dito salvador que traíu a mulher não sei quantas vezes, que tinha estado em sítios escuros, seja lá o quê e onde isso for e que ela, linda e magnífica como sempre, o foi lá resgatar, sabe Deus a que penas. Vai daí, ele volta para o aconchego, dedica-lhe uma frase melodramática num cd que entretanto edita e pronto,  metade do casamento já está salvo.

Meninas, isto é simplesmente hilariante. Eu até ía para lhe chamar ridículo mas não, não é o bastante. Hilário, surreal, demente, perverso, acho que é mais por aí.

Então, cá no meu humilde entender a coisa processa-se mais ou menos assim: o pessoal casa, monta apartamento, assume compromissos, tem filhos, faz planos e de repente, ou se calhar nem tão de repente assim, vai ali dar umas voltinhas, debicar aqui e ali, atirar a tudo o que mexe com as hormonas, trair a confiança de quem está lá em casa de sorriso enorme à espera, violar votos que de livre e espontânea vontade pronunciou….

O pior de tudo é que essas incursões no prazer alheio têm sempre a protecção da clandestinidade e portanto a impunidade está, na maior parte das vezes, assegurada. O pior é que a sorte nem sempre protege os audazes, que neste caso é mesmo mais, os incapazes.

Um dia a casa vem mesmo abaixo e perante tanto desconforto, a ideia mais premente é recuperar o quentinho do lar, a roupa lavada e passada com os vincos certos, a comida na mesa, os risos dos filhos, o carinho, o perdão, enfim,  a indulgência de todo o mau carácter de que somos feitos.

Aí tenta-se salvar o casamento mas como bem sabemos, essa é uma missão espinhosa e quase impossível que se reveste de um grau de improbabilidade a raiar os cem por cento.

Até porque, minhas caras parceiras destas crónicas, tenho para mim que ninguém quer, nem mesmo com um ténue toque de sinceridade, salvar casamento nenhum quando as coisas já estão nesse pé.

No sentido efectivo da palavra, o casamento salva-se todos os dias, com atenções, pormenores e “pormaiores” que o tornam mais inquebrantável e digno. É assim como uma missão altruísta de salvamento no mar, nas montanhas, nas chamas, em que se sabe de antemão o risco que se corre mas ainda assim não se medem esforços nem coragem para ter êxito nessa tarefa de salvar o outro, que é como quem diz, a outra face da moeda de nos salvarmos a nós próprios.