Somos por natureza um país cinzento. Apesar da geografia nos ter sido particularmente generosa, do céu azul brilhar na maior parte dos dias, das praias e natureza convidarem a almas leves, desfrutáveis, ávidas de vida, ainda assim as nossas nuances rondam o negro, ora denso e abrupto, ora cinzento chumbo, ora nos melhores dias cinza clarinho.

Somos por natureza um país cinzento. De alma, de sentir, de expectativas, de sonhos, de esperanças, na demonstração de quem somos, no aceitar o que os outros são.

Eventualmente, sou de todas as pessoas que visitam este blog, a que menos conhece a noite lésbica e gay. Não por decoro ou qualquer outro motivo “honrado”, mas apenas por falta de tempo, oportunidade e muitas vezes, quiçá a maioria, paciência.

Os poucos locais que conheço são absurdamente claustrofóbicos, tensos, escuros, ghettos, antros de engate e de intensas demonstrações tão teatrais quanto patéticas de posse e de um “machismo” que não lembra a ninguém.

Visitei mais uma vez São Paulo e vi, dentro da mais elementar forma de bom senso que a vida em comunidade implica, pessoas do mesmo sexo andarem de mão dada na rua, beijarem-se, demonstrarem afecto, serem cúmplices à luz do sol, à vista de todos, sem culpas nem recriminações.

Estive em bares GLS bonitos, com luz, sol, claridade, portas abertas para a rua, esplanadas observadas por quem passa, locais onde convivem perfeitamente homossexuais, lésbicas, heterossexuais, tias, filhos, pais, sem constrangimentos de qualquer ordem ou vontade de cavar trincheiras para esconder “diferenças”.

E senti, mais uma vez,  a enorme diferença entre o samba e o fado, entre a alegria de ser apesar de tudo e a tristeza de não querer ser por causa de nada.

Já disse isto uma vez, mas imagino-me na Avenida Paulista a trautear, “eu faço samba e hamor a qualquer hora, por que não agora?!” e sinto-me nas nuvens.