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Não gosto que digas isso, diz-me uma amiga chegada. Isso o quê? Isso, que és lésbica.

Pronto, parece que agora basta conhecer-me um pouco mais, para vir, muito à vontade, a censura adoçada com a amizade.

Acontece que eu gosto de dizer que sou lésbica. Nem que seja só para ver, espelhado na cara dos outros, o desconcerto, a fuga dos olhares para coisas aparentemente mais interessantes.

E por que não o hei-de dizer? Por que não hei-de escolher o rótulo que mais me interessa? Acaso impeço os outros de fazer o mesmo? Haja coerência.

Fiquem sabendo que, se uma camionista vier ter comigo e disser que não é lésbica, sou obrigada a concordar com ela. O aspecto exterior de uma pessoa, somado a uns quantos actos, não é a verdade definitiva sobre essa pessoa. Temos não só de respeitar a imagem que cada um tem de si próprio, como o rótulo que escolhe para si.

Se não tivéssemos todos sido educados e programados em função da escassa existência de dois sexos e da sua pseudo-complementaridade, não haveria, provavelmente, esta necessidade de rotular cada um em função do que se é, ou se vai sendo, em termos de sexualidade. E se calhar também não teríamos tantas pessoas a sentir a necessidade de mudar o seu corpo em função se uma identidade sexual que não é forçosamente a sua.

Há que entender e educar as pessoas para perceber que aquilo que são é sempre bom e único. E que a opinião dos outros, vale o que vale. Não é necessário calar ninguém para recusar outro rótulo que não o que escolhemos para nós.

E assim sendo, vou continuar a dizer que sou lésbica, mesmo quando sentir que não sou. Reservo-me o direito de, a todo o instante, decidir da minha vida e do meu rótulo.