Esta manhã apercebi-me que o hamor tem muito de ponte. Tem dois sentidos, várias faixas, intenções, motivos, razões e outras tantas características da ambiguidade conhecida, e por isso mesmo suspeita, da causa amorosa. Apesar de tudo o que possa ser e até parecer, o hamor é uma ponte entre o que é, o que foi, o que poderia ter sido e o que deveria ser. Não sei se exactamente por esta ordem de factores mas isso também não é relevante.

Tal como numa ponte, no hamor paga-se um preço, há trânsito, más disposições, indelicadezas, gestos obscenos, distracções, acidentes por culpa nossa, do outro, ou ambos, demora-se muito ou pouco a atravessar, o tempo de travessia pode nos parecer um calvário ou nem darmos por isso.

Nos dias bonitos perdemos a vista e o coração em sonhos e planos, nos dias de nevoeiro, vento e chuva, tudo o que queremos é sair dali.

Mas, pese embora tudo isso, continuamos a atravessar para sítios, locais, pessoas, braços e abraços que já conhecemos e reconhecemos ou, por outro lado, para outros de que apenas temos uma vaga ideia ou que nos são desconhecidos e por isso o prazer de chegar e ver é sempre uma caixinha de surpresas.

Vencer a ponte é atravessar além de nós, através de nós e, felizmente, muito para além de nós.

E, acredito, é preciso uma alma extra, todos os dias, para deixar o atrás e seguir em frente. Até porque, se não atravessarmos, nunca saberemos o que fica do lado de lá.

E eu destesto “ses”.